O ex-policial militar Andrei Castelli foi condenado a 35 anos de prisão em regime fechado por ter executado, em 2018, os irmãos Orestilhano da Rosa Junior (na direção do veículo na foto) e Adrian Beppler da Rosa (carona), à época com 21 e 26 anos, no município de Salto do Lontra, no Sudoeste do Paraná. Castelli também foi condenado por fraude processual. O julgamento pelo Tribunal do Júri terminou na madrugada desta quinta-feira (11), na cidade de Realeza, também no Sudoeste. Quando praticou os crimes, Castelli ainda integrava a Polícia Militar, mas posteriormente foi expulso da corporação.
“Segundo consta na denúncia, durante uma abordagem policial, o réu efetuou disparos contra dois irmãos, de 21 e 26 anos, naturais de Santa Catarina, sem antecedentes policiais e desarmados. Eles estavam em processo de mudança para o município de Ampére. Na sequência, o acusado saiu do local e foi ao destacamento policial, onde buscou duas armas de fogo que depois foram plantadas na cena do crime”, explicou o promotor do caso, Pedro Ernesto Pezzi, em áudio divulgado pelo Ministério Público do Paraná.
O promotor informou que foi expedido mandado de prisão para o início do cumprimento da pena.
Castelli participou do julgamento à distância, alegando problema de saúde. O Fórum de Realeza confirmou à reportagem que ele está foragido.
A mãe dos irmãos mortos, Sandra Regina Beppler da Rosa, deu entrevista ao Plural contando o que aconteceu. Segundo ela, os filhos saíram de carro de São Francisco do Sul (SC) em direção a Ampére (PR), onde a família pretendia se mudar. “Eles foram na frente para ajeitar a casa para nós”, relata.
Após organizarem o imóvel e providenciarem a ligação de energia elétrica, os jovens seguiram para a comunidade de São João do Cotegipe, que pertence a Salto do Lontra. Como nunca tinham ido sozinhos até lá, acabaram se perdendo. “Eles pararam numa borracharia para pedir informação”, conta Sandra. Em seguida, perceberam que o carro estava com pouca gasolina e decidiram abastecer. “Eles foram até o posto, abasteceram e voltaram para seguir o caminho.”
Ao passarem novamente em frente à borracharia, os jovens foram seguidos por dois policiais militares. “Quando os meninos passaram com o carro, eles foram atrás”, diz. Segundo a mãe, os filhos obedeceram à abordagem. “Eles ligaram o giroflex, os meninos encostaram, desceram do carro e levantaram as mãos.” Neste local, eles foram executados.
O Plural enviou mensagem para o escritório do advogado do ex-PM, mas não obteve retorno. A assessoria da PM diz que não comenta casos que envolvem ex-policiais e que Castelli não pertence à corporação desde setembro de 2021.
No dia 9 de agosto, o PM Marco Aurélio Onishi foi condenado a 11 anos e 6 meses de prisão por executar o adolescente Jadson José de Oliveira, em Sarandi. O júri popular foi realizado na mesma cidade.
Um colega dele, que participou da ocultação do cadáver, foi absolvido.
No dia 10 de agosto de 2016, Jadson e dois outros amigos adolescentes foram abordados na área urbana de Sarandi pela dupla de policiais. Os outros dois foram liberados e apenas Jadson foi levado para a zona rural, onde foi executado. O corpo foi jogado na mata.
Faxina social
A história mostra que para condenar um policial por execução, é preciso ter uma testemunha ocular ou então um dado bem contundente na necropsia, como um tiro pelas costas. Desde 2023, Castelli é o terceiro integrante da Polícia Militar do Paraná a ser condenado por executar pessoas. No dia 9 de agosto daquele ano, o PM Marco Aurélio Onishi foi condenado a 11 anos e 6 meses de prisão por executar o adolescente Jadson José de Oliveira, em Sarandi. O júri popular foi realizado na mesma cidade.

Um colega dele, que participou da ocultação do cadáver, foi absolvido.
O crime aconteceu sete anos antes, em agosto de 2016. Jadson e dois outros amigos adolescentes foram abordados na área urbana de Sarandi pela dupla de policiais. Os outros dois jovens foram liberados, e apenas Jadson, que era negro, foi levado para a zona rural, onde foi executado. O corpo foi jogado na mata.
Questionado sobre a motivação do crime, o representante do Ministério Público disse que não foi possível chegar a uma resposta. Onishi nunca admitiu a autoria do homicídio. “Levantamos algumas hipóteses. A tese com mais razoabilidade é que o soldado Onishi teve um comportamento higienista. É como se ele quisesse fazer uma faxina social. Na cabeça dele, a vítima era envolvida com a marginalidade e não merecia viver. A morte do jovem representaria um problema a menos para a polícia e a sociedade.”
Morto pelas costas
No dia 17 de outubro de 2023, um júri popular em Londrina condenou o PM Gerson Kroker a 12 anos de prisão pelo homicídio de Nelson Junior Milton Moura, o Porquinho, na periferia da cidade.
A versão da polícia é de que Kroler, da Rotam, fazia policiamento de rotina no Jardim São Jorge junto com um terceiro colega e parou a viatura ao estranhar o comportamento de um homem que parecia avisar um parceiro da presença da polícia.

Depois de abordar essa pessoa, os dois policiais entraram na casa. Um colega ficou do lado de fora, e Kroger entrou acompanhado de um terceiro. A dupla teria sido recebida por Moura, conhecido como “Porquinho”, com arma em punho. Por isso, Kroker teria atirado.
Foram dois tiros, conforme laudo do IML: um entrou pela região infraescapular direita (costas) e saiu pela região esternal (peito). O outro entrou pela região posterior do terço distal do antebraço direito e saiu pela região anterior do terço médio do antebraço direito.
Essas lesões combinam com a versão apresentada pela acusação: quando a polícia entrou na casa, Moura teria levantado a camisa e depois virado de costas para mostrar que estava desarmado. Mesmo assim, foi alvejado.
Depois de condenado, Kroker recorreu da decisão em liberdade e seguiu trabalhando na PM até maio deste ano, quando, após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), a Justiça determinou sua prisão.