A análise comparativa entre os projetos políticos de Donald Trump e Jair Bolsonaro revela não apenas semelhanças superficiais, mas convergências estruturais profundas que configuram uma verdadeira "iteração antidemocrática", ou seja, uma cópia do modelo universal autoritário em sua versão local, com aspectos específicos derivados da cultura e do desenho institucional nacional. Examinam-se os mecanismos específicos de erosão democrática compartilhados por ambos os governos, sua culminação em eventos de violência política extrema (o ataque ao Capitólio e a invasão dos Três Poderes), e as lições que estas experiências traumáticas oferecem para o fortalecimento das democracias contemporâneas. Buscamos compreender as contradições internas destes movimentos e os desafios que representam para a reconstrução de um projeto democrático robusto e resiliente.
As semelhanças entre Trump e Bolsonaro transcendem o estilo pessoal ou a retórica agressiva, manifestando-se em uma gramática política comum estruturada em torno de seis eixos principais:
- Dominação carismática irresponsável: Ambos os líderes se apresentavam como figuras "autênticas" que "diziam o que pensavam" sem consideração por convenções, normas institucionais ou consequências de suas falas. Esta performance de autenticidade, analisada através da teoria weberiana do carisma, funcionava como mecanismo de blindagem contra críticas – qualquer insanidade pronunciada podia ser justificada como "sinceridade". Esta irresponsabilidade discursiva não era mero estilo, mas componente estratégico da destruição institucional, pois corroía a distinção fundamental entre verdade factual e opinião, entre conhecimento especializado e ignorância voluntária.
- Comunicação direta e guerra à imprensa: Rejeitando os mediadores tradicionais (imprensa, especialistas, instituições), ambos estabeleceram canais diretos com suas bases através de redes sociais, criando ecossistemas informacionais fechados e autorreferentes. A imprensa tradicional foi sistematicamente atacada como "inimiga do povo" ou "mentirosa", enquanto líderes e aliados selecionados apresentavam-se como únicas fontes confiáveis de informação. Esta estratégia visava não apenas deslegitimar críticas, mas fragmentar o espaço público em realidades paralelas inconciliáveis.
- Negacionismo científico e eleitoral: A rejeição de evidências científicas durante a pandemia de COVID-19 e a promoção de teorias conspiratórias sobre fraudes eleitorais representavam duas faces da mesma moeda: a recusa de qualquer critério objetivo de verdade que pudesse limitar o poder do líder. O negacionismo funcionava como teste de lealdade – aceitar narrativas flagrantemente falsas tornava-se sinal de pertencimento ao grupo, enquanto a adesão a fatos verificáveis caracterizava o "inimigo".
- Despolitização de questões estruturais: Problemas históricos como racismo, desigualdade social e violência de gênero eram sistematicamente reescritos como questões individuais ou morais, removendo-os do debate político institucional. Esta despolitização visava neutralizar demandas por transformação estrutural, naturalizando injustiças e silenciando vozes marginalizadas.
- Recusa da alternância no poder: A relutância em aceitar derrotas eleitorais e os esforços para subverter processos eleitorais revelaram o núcleo antidemocrático de ambos os projetos. O cerne da democracia reside precisamente na disposição dos governantes de deixar o poder quando derrotados nas urnas. A recusa deste princípio básico por Trump e Bolsonaro representou não um deslize tático, mas a expressão lógica de projetos que entendiam o poder não como mandato temporário, mas como posse permanente.
- Instrumentalização das Forças Armadas: Ambos os líderes buscaram cooptar instituições militares para seus projetos políticos, promovendo a ideia de que as Forças Armadas teriam papel moderador ou salvacionista em contextos de crise política. No Brasil, esta tentativa culminou na interpretação distorcida do artigo 142 da Constituição, posteriormente rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 6457.
A convergência entre essas estratégias de erosão democrática encontrou sua expressão mais dramática nos eventos de violência política extrema que marcaram o final de ambos os governos. O ataque ao Capitólio norte-americano em 6 de janeiro de 2021 e a invasão das sedes dos Três Poderes brasileiros em 8 de janeiro de 2023 não foram episódios espontâneos ou desconexos, mas a culminação lógica de processos sistemáticos de deslegitimação institucional e incitação ao ódio.
Estes eventos compartilharam características notáveis: a participação de seguidores radicalizados que internalizaram narrativas de traição e fraude; a presença de elementos simbólicos e performáticos (como fantasias, bandeiras e rituais); a convergência de grupos extremistas diversos (milícias, movimentos supremacistas, teóricos da conspiração); e, fundamentalmente, o papel catalisador dos próprios líderes, que durante meses ou anos alimentaram expectativas de que as eleições seriam fraudadas e que algo "precisava ser feito".
A análise comparativa revela ainda um processo de aprendizagem transnacional: o evento brasileiro parece ter sido inspirado pelo norte-americano, adaptando suas táticas e símbolos ao contexto local. Esta "iteração antidemocrática" manifestou-se não apenas na similaridade dos métodos, mas na própria relação de subordinação simbólica do bolsonarismo ao trumpismo – expressa em manifestações com bandeiras norte-americanas e pedidos de intervenção escritos em inglês, numa contradição flagrante com o discurso nacionalista professado.
Para compreender a natureza aparentemente irracional destes movimentos – que promovem a destruição sem oferecer projeto alternativo coerente – o artigo recorre à teoria crítica. Esta abordagem permite entender o bolsonarismo e o MAGA não como projetos políticos tradicionais, mas como expressões de uma "não identidade" que opera através da negação.
Segundo esta perspectiva, estes movimentos não se definem pelo que propõem, mas pelo que negam: as instituições democráticas, o conhecimento científico, a diversidade social, os direitos humanos. Sua força motriz é destrutiva, não construtiva; sua lógica é entrópica, não organizadora. Esta característica explica fenômenos aparentemente paradoxais, como a nomeação de pessoas notoriamente incompetentes para cargos estratégicos (a "caquistocracia"): em um projeto cujo objetivo é destruir, os "piores" são exatamente os mais adequados.
A teoria crítica também ilumina o caráter "desumanizador" do desgoverno. Ao minar sistematicamente as garantias que protegem a autonomia individual, estes governos promovem uma redução do humano a mero objeto manipulável, substituível, descartável. A pandemia de COVID-19 ofereceu o exemplo mais extremo desta lógica: a promoção de políticas que sabidamente aumentariam a mortalidade transformou corpos humanos em instrumentos descartáveis.
As experiências traumáticas do trumpismo e do bolsonarismo oferecem lições cruciais para o fortalecimento das democracias contemporâneas diante de ameaças autoritárias renovadas:
- A vulnerabilidade das democracias e a erosão interna: As democracias mostram-se vulneráveis não apenas a golpes tradicionais, mas a processos graduais de corrosão conduzidos por líderes eleitos que utilizam ferramentas legais para fins antidemocráticos. Esta "erosão constitucional" exige mecanismos de defesa igualmente sofisticados e multifacetados.
- A importância dos guardiães institucionais: Instituições como o Poder Judiciário, o Ministério Público, a imprensa independente e os serviços de inteligência democráticos revelaram-se barreiras essenciais contra a destruição institucional. Seu fortalecimento e proteção contra cooptação política devem ser prioridades democráticas fundamentais.
- O combate à desinformação como imperativo democrático: A instrumentalização de plataformas digitais para disseminar desinformação e teorias conspiratórias mostrou-se arma poderosa na guerra contra a democracia. A regulamentação democrática destes espaços, sem sacrifício das liberdades fundamentais, constitui desafio técnico e político complexo, porém inadiável.
- A reafirmação da normatividade democrática: A defesa da democracia exige mais do que procedimentos eleitorais – demanda um compromisso ativo com valores substantivos: o respeito aos direitos humanos, a proteção das minorias, a adesão a evidências científicas, a preservação da memória histórica. Renunciar a esta normatividade em nome de um relativismo pós-moderno abre espaço para a normalização do excepcional.
- A reconstrução do tecido social: A guerra cultural bem-sucedida do bolsonarismo e do trumpismo explorou fraturas sociais pré-existentes, convertendo diferenças políticas em ódios identitários. A reconstrução democrática exige esforços deliberados para reparar este tecido social, criando espaços de encontro e diálogo que transcendam as bolhas digitais.
A análise comparativa entre o trumpismo e o bolsonarismo revela que enfrentamos não episódios isolados, mas a emergência de uma nova forma de ameaça autoritária, adaptada às condições do século XXI: o autoritarismo eleitoral digital, que utiliza as ferramentas da democracia para destruí-la. Esta ameaça é particularmente insidiosa precisamente porque não se apresenta como ruptura aberta com a tradição democrática, mas como sua suposta defesa contra inimigos internos e externos.
O futuro da democracia depende de nossa capacidade de aprender com estas experiências traumáticas, desenvolvendo instituições mais resilientes, mecanismos de defesa mais eficazes e uma cultura política mais reflexiva e crítica. Exige reconhecer que a democracia não é um destino alcançado, mas um projeto permanentemente inacabado, que requer vigilância ativa, participação cidadã constante e coragem para confrontar não apenas ameaças externas, mas os demônios internos de cada sociedade.
A lição fundamental talvez seja a de que a defesa da democracia ocorre não apenas nas grandes batalhas institucionais, mas também nas pequenas resistências cotidianas: na recusa a normalizar o anormal, na coragem de nomear mentiras como mentiras, no compromisso com a verdade factual mesmo quando inconveniente, na defesa da dignidade de todos mesmo quando impopular. É com base em tal perspectiva, que deve ser cultivada pacientemente ao longo do tempo, que podem florescer as democracias verdadeiramente resilientes, capazes de resistir não apenas a ataques frontais, mas às erosões lentas e insidiosas que ameaçam solapá-las a partir de dentro.