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Falta de água, risco à saúde e promessas não cumpridas marcam rotina de indígenas reassentados

Dezenas de famílias indígenas da etnia Avá-Guarani convivem há meses com falta de água no municípios de Terra Roxa, na região oeste do Paraná.

Falta de água, risco à saúde e promessas não cumpridas marcam rotina de indígenas reassentados

Dezenas de famílias indígenas da etnia Avá-Guarani convivem há meses com falta de água no municípios de Terra Roxa, na região oeste do Paraná. Elas moram em três aldeias que fazem parte de um projeto de reassentamento da Itaipu Binacional com o objetivo de reparar os danos causados pela construção da usina, na década de 1970, durante a ditadura militar.

Mais de 50 famílias, assentadas na Fazenda Brilhante há cerca de oito meses, enfrentam desde então falta de estrutura em diversas áreas. Segundo os indígenas, as aldeias não têm moradias adequadas, luz elétrica e a água é levada à região por meio de caminhões-pipa. Mas a quantidade é insuficiente, o que obriga os Avá-Guarani a buscar água em córregos da região para matar a sede e preparar alimentos.

Lideranças das três aldeias denunciam que é comum pessoas, em especial as crianças, adoecerem por conta da péssima qualidade de água que passa por lavouras de milho e soja pulverizadas constantemente com veneno.

Na aldeia Arapoty, liderada pelo cacique Anilton, vivem 15 famílias, totalizando 48 pessoas, incluindo muitas crianças. Segundo ele, a principal preocupação é o abastecimento de água. A comunidade dispõe de uma caixa de armazenamento de lona com capacidade para 6 mil litros, mas o abastecimento por caminhão-pipa ocorre apenas duas vezes por semana, às segundas e sextas-feiras.

“O caminhão vem, mas a água acaba antes de sexta. A gente precisa buscar em uma mina que fica longe, ou em um rio próximo, que é muito sujo”, relata. Além da escassez, a qualidade da água também é motivo de preocupação: armazenada em reservatórios flexíveis, a água aquece rapidamente, o que dificulta o consumo, especialmente por crianças.

A situação se repete em outras aldeias. O cacique Osvaldo, da Tekoha Koenju, afirma que a falta de água tem impacto na rotina escolar dos indígenas. Sem condições de higiene, muitas crianças deixam de frequentar as aulas. “Tem muitas crianças que não estão indo para a escola por falta de água. As roupas precisam ser lavadas, as crianças precisam tomar banho para ir para a escola. Mas como fazer isso sem água?”, questiona o cacique. Ele relata ainda que, quando os alunos faltam, as famílias são cobradas pelas escolas, mesmo diante da situação.

O cacique Anilton também denuncia a ausência de infraestrutura básica e o não cumprimento de promessas feitas às comunidades. “Fizeram muitas propostas, mas nenhuma foi cumprida. Falta moradia, energia elétrica, água potável.”

As três aldeias que ficam na Fazenda Brilhante recebem juntas cerca de 36 mil litros de água por semana para atender 56 famílias, além dos animais. Isso representa uma média de aproximadamente 91 litros por família por dia, número muito abaixo do consumo considerado adequado.

Dados da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) indicam que o consumo médio é de 150 litros de água por pessoa por dia, sendo que 120 litros já seriam suficientes para atender adequadamente uma pessoa. Nas aldeias, no entanto, o volume disponível corresponde a menos de 20 litros por pessoa diariamente.

Quando o abastecimento se esgota, moradores são obrigados a percorrer longas distâncias, entre 700 e 800 metros, segundo relatos, para buscar água em fontes alternativas.

As caixas d' água são abastecidas duas vezes por semana, mas a quantidade é insuficiente para suprir as demandas básicas das famílias indígenas. Foto: colaboração.

Essas fontes, no entanto, apresentam riscos. Segundo as lideranças, o rio utilizado está contaminado por agrotóxicos provenientes de plantações vizinhas de milho e soja. “Quando chove, o veneno desce tudo para o rio. A gente tem que pegar essa água mesmo assim, para cozinhar, para as crianças beberem”, relata o cacique Osvaldo.

Há ainda denúncias de contaminação por descarte inadequado de animais mortos nas proximidades de nascentes. “Disseram que morreram cavalos e cachorros e foram enterrados perto da mina. Isso contamina a água que desce para nós”, afirma Osvaldo.

A busca por água também expõe os moradores a outros perigos. O caminho até as minas ou rios é longo e passa por áreas com presença de cobras, o que aumenta o risco, especialmente para idosos e crianças.

Além do problema hídrico, as comunidades enfrentam isolamento devido à ausência de estradas. Estudantes precisam percorrer trajetos perigosos para acessar o transporte escolar, muitas vezes retornando para casa à noite, por volta das 23h. “É muito perigoso, porque não tem estrada e tem muita cobra”, afirma uma das lideranças.

As áreas onde estão localizadas as aldeias foram adquiridas pela Itaipu há cerca de um ano, mas, segundo os relatos, até o momento não houve a implementação de infraestrutura básica. “Tem muita promessa, mas nenhuma foi cumprida. Não temos estrada, não temos água, não temos energia elétrica, não temos estrutura nenhuma”, afirma uma liderança.

Diante do cenário, os caciques pedem atenção das autoridades e cobram medidas urgentes. “Queremos viver com dignidade, como qualquer outra pessoa. Precisamos de água potável, moradia, energia. Não podemos mais viver assim”, dizem.

As lideranças afirmam que a situação já foi comunicada a representantes da Sanepar, com pedidos para aumento da frequência do abastecimento para três vezes por semana, mas até agora não houve resposta.

Enquanto isso, a rotina nas aldeias segue marcada pela escassez, pelo esforço diário para garantir o mínimo necessário e pela preocupação constante com a saúde e o futuro das crianças.

O acordo de reparação

A área destinada às aldeias que hoje ficam em Terra Roxa faz parte de um acordo firmado na Ação Cível Originária (ACO) nº 3.555 que culminou em um acordo mediado pela Advocacia-Geral da União (AGU) e homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em março de 2025. Ele começou a sair do papel ainda no primeiro semestre do ano passado com a aquisição dos primeiros 220 hectares de terra e a ocupação imediata por 60 famílias indígenas.

O pacto, que envolve um aporte de R$ 240 milhões da Itaipu Binacional, é considerado uma etapa emergencial para mitigar décadas de conflito, miséria e violência.

Quando a água acaba, os indígenas precisam recorrer a córregos e minas da região, muitas delas contaminadas por agrotóxicos. Foto: Colaboração.

Em julho de 2025, em audiência no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, foram adquiridas as primeiras matrículas de imóveis com recursos da Itaipu. Um mês depois, em agosto, as comunidades Avá-Guarani dos municípios de Guaíra e Terra Roxa iniciaram o deslocamento para a Fazenda Brilhante, uma área de 220 hectares registrada em nome da União com usufruto exclusivo indígena.

Além da compra de terras, o acordo estabelece obrigações diretas para a Itaipu Binacional. A empresa deve custear a recuperação ambiental das áreas adquiridas e financiar serviços essenciais como abastecimento de água, energia elétrica, saneamento, saúde e educação para as comunidades.

Procurada pelo Plural, a Itaipu declarou que em cumprimento ao seu compromisso com as comunidades Ava Guarani, vem atuando em parceria com o município de Terra Roxa e com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) para enfrentar essa demanda urgente.

Segundo a hidrelétrica, está em fase de formalização um convênio para a construção de três poços artesianos destinados às comunidades Ava Guarani localizadas na antiga Fazenda Brilhante. O instrumento prevê a realização de estudos geofísicos para definição dos pontos mais adequados, além da perfuração dos poços, instalação de reservatórios comunitários e implantação de sistemas de tratamento e distribuição de água até as residências das famílias.

A empresa destaca que enquanto o convênio não é concluído e a solução definitiva não é implementada, estão sendo adotadas medidas emergenciais, como o fornecimento de caixas d’água, com o objetivo de mitigar a situação de insegurança hídrica enfrentada pelas comunidades. As condições de armazenamento também estão sendo acompanhadas, para melhoria das soluções provisórias adotadas.

A Itaipu Nacional também ressalta que adicionalmente, por meio do projeto Opaná, outras oito comunidades do território já foram atendidas com sistemas simplificados de abastecimento. “No caso específico da área da Fazenda Brilhante, persistem desafios operacionais relevantes, como a distância em relação às redes públicas de abastecimento, a inexistência de poços ou nascentes e a ausência de rede elétrica instalada pela Copel, tendo em vista que a área era anteriormente destinada ao cultivo de grãos”, diz a nota encaminhada ao Plural.

Em relação às denúncias de possível contaminação das fontes de água, a Itaipu afirma que mantém acompanhamento contínuo da situação, em articulação com os órgãos competentes, com adoção de medidas de verificação e encaminhamento sempre que necessário.

Quanto à infraestrutura, a implantação de rede elétrica também depende das concessionárias responsáveis, com as quais o tema vem sendo tratado. As demais benfeitorias previstas estão sendo estruturadas no âmbito da ACO 3555.

“Importante esclarecer que a Itaipu Binacional viabiliza a aquisição de terras destinadas às comunidades Ava Guarani por meio de aporte de recursos financeiros. A definição das áreas é realizada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), com participação das lideranças indígenas e validação dos órgãos competentes, incluindo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, assegurando a adequação dos territórios ao modo de vida guarani”.

José Pires

José Pires

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura dos povos indígenas do Sul do Brasil; meio ambiente; política; cultura e liberdade religiosa

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