Albert Hirschman já havia diagnosticado que políticas públicas poderiam sofrer resistência de diferentes tipos. A esse respeito, apresentou três teses conservadoras, contrárias às iniciativas de mudança social.
A tese da perversidade, na qual as tentativas de reforma ou mudança veiculadas por políticas públicas teriam efeitos contrários ao almejados, produzindo uma piora da sociedade ao invés de sua melhoria, nesse sentido, políticas advindas do Estado de bem-estar social aumentariam a pobreza ao invés de reduzi-la, eis que, seriam um desestímulo ao trabalho. Tal tese ignora as condições reais de trabalho das pessoas e possui como objetivo a conservação das desigualdades sociais, seja em termos econômicos ou simbólicos.
A segunda tese seria a da futilidade, reformas seriam inúteis, elas não conseguiriam atingir as profundas estruturas sociais. Qualquer iniciativa de redistribuição de renda não seria efetiva no sentido de diminuir a desigualdade social, pois as elites encontrariam modos de manter seu poder, como como a utilização de paraísos fiscais ou com a fuga de capitais diante da progressividade da tributação. Tal tese também é advinda da perspectiva conservadora já que indica como fúteis quaisquer iniciativas no sentido da promoção da igualdade de oportunidades.
Não se ignora que as elites continuam a produzir meios materiais e representativos de produção da sua distinção. Veja-se como a figura dos “novos ricos” é colocada em lugar simbólico de desprezo pelas elites, já que sua origem não é da “nobreza”. Ainda que tenham acumulado capital, não sabem se comportar adequadamente nos espaços tradicionalmente disfrutados pelas elites, não saberiam se vestir e ainda preservariam um alegado “mau gosto”, a “baixeza estética” dos pobres.
Exceções são abertas apenas quando a criatividade, advinda por produtos culturais de classes inferiores, é capturada pela indústria cultural com sua cooptação, diluição e comercialização. Este fenômeno ocorreu com o samba, o punk, o grunge, o hip-hop e o underground eletrônico. As letras das músicas, originalmente politizadas e de contracultura, de contestação e crítica, são suavizadas e perdem sua dimensão subversiva para serem convertidas em produtos de entretenimento inofensivo e para lotar estádios ou festivais.
Os próprios estádios, de igual sorte, foram impactados pela mercantilização crescente da vida social, conforme indicado por Michel Sandel, com a lógica do mercado invadindo espaços que deveriam ser regidos pelo senso de identidade coletiva. Torcedores de futebol passam a ser vistos como consumidores pagantes, fãs de uma banda passam a ser vistos como destinatários de produtos mercantis e os próprios estádios passaram a ser segmentados entre espaços VIP, camarotes, com serviços e assentos exclusivos, com a corrosão do senso de comunidade e a diminuição da identidade coletiva. Ainda que espaços de resistência possam existir, com torcidas de futebol que se recusam a ser cooptadas e reivindicam melhores condições para os torcedores, como a Gaviões da Fiel, ou bandas que buscam garantir condições adequadas para sua audiência, como no caso Pearl Jam x Ticketmaster, ainda que deste embate não tenha resultado uma vitória da banda.
A terceira tese seria a do risco, esta defende que as buscas por mudança social colocariam em risco as conquistas históricas (das próprias elites) existentes e ameaçaria a estabilidade social. Também de estirpe conservadora, ela seria a outra face da proibição do retrocesso do retrocesso social. Enquanto o conceito jurídico da proibição do retrocesso defende que direitos não devem ser suprimidos por reformas, a tese do risco argumenta que a expansão de direitos seria arriscada, pois mudaria os status sociais, quebraria a economia ou destruiria empregos.
As teses conservadoras são fatalistas e contrárias ao Estado democrático de direito e evidenciam a reprodução de discursos reacionários são repetidos ao longo da história. A reciclagem de conceitos e a absorção de toda a crítica, talvez uma das características distintivas do capitalismo contemporâneo, também acabaram por ocorrer com o “producionismo”, um dos elementos propulsores da retórica da extrema direita.
Em qual contexto esta ideia consegue se reproduzir? Em uma era na qual a crítica possui sua potencialidade reduzida, e ela mesma passa a ser transformada em um produto, com a crescente resignação social, ou com a era das “paixões tristes”, as pessoas passam a entender que não existe qualquer alternativa para o capitalismo e isso produz cinismo, depressão e uma crise generalizada de saúde mental. Além disso, propostas de mudanças reais são diluídas pelo sistema. Diante de um cenário de um imaginário social alternativo bloqueado, de futuros estagnados, o ovo da serpente da extrema direita é chocado com base no ódio e no ressentimento.
Ressentimento, que se caracteriza pela raiva reprimida, pelo bloqueio para a vazão das frustrações, uma amargura crônica e contínua. Trata-se de inveja destrutiva, em que não se busca apenas aquilo que o outro possui, mas também que a outra pessoa sofra, com uma felicidade que se projeta pelo sofrimento alheio. Além disso, há uma vitimização crônica, o ressentido, “red pill”, “incel”, entende-se como um “sofredor injustiçado”, como veiculado por discursos de ódio em redes sociais, onde das frustrações são projetadas contra grupos inteiros como mulheres, venezuelanos, pessoas trans, nordestinos ou qualquer outra manifestação de subjetividade ou performance de gênero que fuja dos parâmetros hegemônicos de dominação.
Tal sentimento é explorado por movimentos fascistas e populistas, os quais canalizam a raiva das massas contra bodes expiatórios como imigrantes, indígenas, elites e minorias sub-representadas – tais grupos passam a ser tratados como “parasitas”. A própria indústria cultural comercializa o ressentimento como nos reality shows, com a violação da privacidade e da intimidade das pessoas em sessões de contínuas humilhações, nas quais as pessoas são reificadas para o entretenimento alheio.
Uma das alternativas para o ressentimento seria a transformação da raiva em lutas que reivindicam direitos e em não permitir que isso desague em ódio disseminado. Contudo, a extrema direita tem sabido capturar este sentimento de forma particularmente perspicaz. O ressentimento é uma ferida social com potencial destrutivo, trata-se de fenômeno político perigoso, que passou a ser utilizado por extremistas para sua autopromoção e trata-se de uma patologia da sociedade digital.
Não é incomum encontrar argumentos contrários a políticas de redistribuição de renda que são fundamentados apenas em simples preconceito. A ideia de que pobres merecem ser trados com igual respeito e consideração colide, no Brasil, com a longa duração da mentalidade autoritária e escravagista, a qual confunde o público com o privado e não reconhece a importância do republicanismo como vetor a reger a esfera pública. Por isso, escuta-se que políticas de redistribuição promovem a “vagabundagem”, que indígenas “não gostam de trabalhar” e outras percepções ligeiras e equivocadas a respeito do papel do Estado e de outros grupos que, por vezes, estão mais próximos economicamente daqueles que rejeitam radicalmente tais políticas, incorrendo, possivelmente, em um narcisismo das pequenas diferenças, em que, quanto mais próximos os grupos, mais intensas se tornam as buscas por diferenciação. Tal elemento reforça a identidade de grupo ao definir um “inimigo próximo”.
Tais percepções sociais evidenciam o conjunto de estereótipos e preconceitos disseminados em nossa sociedade. Tais mecanismos sociais de marginalização concreta e simbólica acabam por repercutir no acesso que as pessoas possuem aos seus direitos fundamentais e ao modo concreto que conduzem suas vidas. Isso tudo é ainda mais agudizado com a lógica das máquinas do ódio que as redes sociais se tornaram. Temos contemporaneamente algoritmos que reproduzem o ódio o coletivo e isso funciona como mecanismo de retroalimentação das “paixões tristes” contemporâneas.
Tais sentimentos, catalisados por plataformas que passaram a se tornar experts na destruição de subjetividades e, no limite, passaram a influenciar as decisões concretas das pessoas no mundo da vida, fora das redes, encontram nova articulação na promoção de um conceito que não é exatamente novo, qual seja o “producionismo”.
Michel Feher identificou que dentro da perspectiva da extrema direita funciona a lógica de que os produtores são aqueles que aspiram a viver do fruto de seus trabalhos, enquanto, os parasitas seriam avessos à importância do trabalho, contudo, seriam peritos em se apropriar das riquezas alheias, do produto do trabalho de outras pessoas. A lógica do “cidadão de bem” colocaria simbolicamente tais pessoas em uma posição representativa de contribuição para a prosperidade nacional, a qual é fruto do seu trabalho, do pagamento de tributos, enquanto os parasitas ocupam a posição de especuladores, que estão envolvidos na circulação de capital cultural ou financeiro transnacional. O ódio aos grupos da elite cultural ou econômica progressista, como a leitura distorcida que é feita da Lei Rouanet (uma lei de espírito bastante liberal), ou dos pobres, entendidos como “vagabundos por natureza”, são todos compreendidos como pessoas beneficiárias ilegítimas das políticas públicas de inclusão social ou pessoas que recebem “sem trabalhar”.
A extrema direita passou a reinterpretar a luta de classes, substituindo o conflito marxista tradicional entre trabalhadores e capitalistas por uma oposição entre os “produtores” e os “parasitas”. Tal perspectiva é usada para a mobilização dos eleitores, racializando as desigualdades e prometendo a “purificação” de grupos tratados como “improdutivos”.
A reconfiguração da luta de classes coloca os produtores, verdadeiros criadores de riqueza contra os parasitas que são divididos entre: bancos internacionais, elites culturais e financeiras, na camada social superior; e na camada inferior, os imigrantes e beneficiários de auxílios sociais. É de se notar como os argumentos conservadores, indicados por Hirschman, ganham uma nova configuração. O parasita passa a ser aquele que vive às custas do Estado ou que manipula a economia, aqui podem ser conjugadas no caso francês e isalomofobia com o antissemitismo, enquanto o muçulmano violaria a “identidade francesa” e viveria dependendo do Estado, o judeu “globalista” viveria de transações econômicas suspeitas. Tais são perspectivas odiosas, mas elas funcionam para alimentar as “máquinas de ódio” reais e digitais. Nesse movimento ocorre um ataque simultâneo à globalização e aos esforços de redistribuição e justiça social.
O “producionismo” não é uma ideologia nova, Feher explica que ele data do século XIX e passou por diversas transformações históricas. Proudhon, por exemplo, criticava rentistas e bancos. No nazismo a oposição ocorria entre o “capital produtivo” da indústria alemã e o “capital parasitário” atrelado aos judeus. Atualmente, este discurso foi modernizado para a manutenção da lógica da diferenciação entre o “nós contra eles”, contudo, com outras camadas.
Isso acaba por funcionar em razão de oferecer uma identidade e signos de pertencimento para eleitores que se sentem excluídos ou abandonados pela globalização. Também acaba por ter apelo por transformar problemas complexos em uma luta binária entre bons e maus. Além disso, há uma falha no campo progressista por não perceber como os dispositivos tecnológicos foram capturados para se tornar “máquinas de destruição em massa” tanto de subjetividades como de instituições.
Além disso, aparentemente, a direita tem obtido maior sucesso na mobilização das paixões. Paradoxalmente, a extrema direita passou a aplicar as lições de Chantal Mouffe e Ernesto Laclau, ainda que tais autores sejam identificados ideologicamente com a esquerda.
Para além do producionismo, pode-se diagnosticar como um paradoxo na política eis que, a extrema direita, a qual passou a se articular internacionalmente, instrumentalizou com grande eficácia as ideias sobre hegemonia, populismo e construção discursiva de inimigos. Além disso, o producionismo nunca teve algum teórico que articulasse adequadamente o conjunto de ideias que este movimento busca representar. Como adverte Serge Katz: “Cuidado para não confundir ‘produtivismo’ e ‘producionismo’ que é o conceito que nos interessa aqui. E de fato, Feher tem razão em lamentar que o esse conceito não seja muito conhecido na França; e tampouco o é no Brasil pelo que notei já de imediato. O que é curioso porque ele está no coração do problema do crescimento das extremas-direitas hoje.”
Cabe a lembrança de que a política não se resuma a uma disputa apenas pela economia, mas pela “hegemonia cultural”. As identidades políticas são construções discursivas, não são pré-determinadas. A fronteira política é definida pela criação de “inimigos”, o “outro” a ser combatido. O producionismo acaba por perceber como isso funciona, eis que os parasitas, são inimigos multifacetados e são fonte de constante ameaça. Criam-se fantasmas que passam por diferentes encarnações tais como George Soros, mas até mesmo professores universitários. Além disso, o uso de significantes vazios para simbolizar as ameaças à família ou à moralidade, aos costumes, e a um passado idealizado são outras formas de produção de divisão social.
Além disso, houve a captura de símbolos e a redefinição de termos como liberdade, democracia e trabalhador. Liberdade se tornou o direito de portar armas e a liberdade de negar a importância da saúde pública durante a Pandemia. A democracia passou a abranger regimes iliberais como o de Orban na Hungria. O trabalhador passou a ser considerado apenas o homem branco conservador, excluindo pobres ou outras formas de alteridade.
É importante, por fim, lembrar que a política é espaço para a disputa não apenas de ideias, de argumentos racionais, mas também, dos afetos. A extrema direita conseguiu transformar o ódio e o medo em combustíveis políticos, projetado em particular nas redes sociais e em determinados tipos de periódicos de extrema direita, bem como em centros de ensino e, até mesmo, em opiniões jurídicas. Se utilizam de estratégias de pânico moral e de ressentimento para mobilizar politicamente as pessoas e, com isso, têm angariado votos, atraído a atenção, conquistado cargos e eleições em diferentes lugares do mundo.
O remédio para isso estaria na busca do agonismo, contrário ao antagonismo político, em que o não temos inimigos a serem aniquilados, mas adversários que merecem ter seus direitos respeitados e que podem transitar em diferentes espectros ideológicos (no sentido “antigo” do conceito de liberdade de opinião). A perspectiva adversarial permitiria reconstruir balizas mínimas para o campo democrático.
A manutenção do “nós contra eles”, dos produtores contra os parasitas apenas aprofundará a cisão existente nas sociedades. Outro elemento fundamental passa a ser o debate sobre a regulamentação das plataformas digitais. Este, igualmente, não é simples e não pode ser imposto sem a deliberação democrática da sociedade, contudo, não pode aguardar por prazo indeterminado.
O caminho não é fácil, os diagnósticos estão parcialmente dados, cabe também um pouco de imaginação para considerar outros futuros possíveis para além das destruições movidas por ódio digital e de oportunistas e negacionistas teóricos, os quais buscam chamar a atenção das pessoas a qualquer custo, ainda que isso signifique sacrificar direitos fundamentais e os processos democráticos.