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Paraná tem 2,6 milhões de adultos sem fundamental completo. O estado parou de atendê-los

Em quatro anos, a rede estadual deixou de oferecer vagas para 90 mil alunos da EJA — sem que a demanda diminuísse. A taxa de cobertura despencou de 1 em 21 adultos para 1 em 80

Paraná tem 2,6 milhões de adultos sem fundamental completo. O estado parou de atendê-los
Foto: Tami Taketani/Plural
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O Paraná tem hoje 2,6 milhões de adultos de 25 anos ou mais sem o ensino fundamental completo. É praticamente o mesmo número de 2016, quando eram 2,7 milhões. Em sete anos, essa fila encolheu apenas 5%. A demanda por Educação de Jovens e Adultos (EJA) não desapareceu.

O que desapareceu foi a oferta.

Em 2019, as escolas estaduais paranaenses tinham 125.881 alunos matriculados na EJA. Em 2023, esse número havia caído para 31.743. Em quatro anos, o estado deixou de atender 94 mil adultos — uma redução de 75% nas matrículas. Em 2025, a matrícula permanecia baixa: 35.827 alunos.

A distância entre essas duas curvas — a população adulta que precisa da EJA, essencialmente estável, e a matrícula, em colapso — revela que o esvaziamento da educação de adultos no Paraná não é uma história de demanda que sumiu. É uma história de oferta que foi retirada.

## A conta que o estado não faz

Matrículas EJA — rede estadual PR (eixo esquerdo) Adultos 25+ sem fundamental completo — PNAD/PR, em mil (eixo direito)
Matrículas EJA: de 125.881 (2019) a 31.743 (2023). Adultos sem fundamental: de 2.682 mil (2019) a 2.590 mil (2023).

Fontes: Censo Escolar INEP 2016–2023 · PNAD Contínua IBGE, Tabela 7189

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) não calcula, na série histórica de indicadores educacionais, qual é a taxa de cobertura da EJA — isto é, que fatia dos adultos que precisariam estar matriculados de fato está. A Plural fez esse cálculo combinando os dados do Censo Escolar com os da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE.

Em 2016, 39,4% dos adultos paranaenses de 25 anos ou mais não tinham o ensino fundamental completo — cerca de 2,7 milhões de pessoas. Naquele ano, 107 mil estavam matriculados na EJA estadual: uma taxa de cobertura de 3,9%. Em 2019, essa taxa havia subido levemente para 4,7%: ainda baixa, mas crescente. Cada vaga criada representava um adulto que, fora dali, provavelmente não teria outra rota para completar a escolaridade básica.

Em 2022, a taxa caiu para 2,0%. Em 2023, para 1,2%.

Dito de outra forma: em 2019, o sistema atendia 1 adulto a cada 21 que precisavam da EJA Fundamental. Em 2023, atendia 1 a cada 80.

## Quem são esses alunos

A maioria dos alunos da EJA é trabalhadora. O Censo Escolar de 2025 — o único com dados detalhados por turno — mostra que, das 35.827 matrículas estaduais de EJA no Paraná, 21.376 são no período noturno e 14.451 no diurno. São pessoas que passam o dia em empregos formais ou informais e buscam na escola noturna a escolaridade que não puderam completar na idade regular.

Para esse público, a escola de turno noturno não é uma conveniência — é a única possibilidade. Sem ela, a alternativa é a fila estacionada há décadas: adultos que querem, mas não têm onde estudar.

Taxa de cobertura EJA: 3,94% (2016), 4,46% (2017), 4,63% (2018), 4,69% (2019), 1,97% (2022), 1,23% (2023).

Taxa = matrículas EJA estaduais ÷ adultos 25+ sem fundamental completo (PNAD Contínua/IBGE) · Paraná

## O mecanismo: integral fecha o noturno

Entre 2019 e 2024, o número de escolas estaduais paranaenses com turno noturno caiu de 1.267 para 878 — uma redução de 389 escolas, ou 31%. No mesmo período, o número de alunos matriculados no Ensino Médio integral na rede estadual saltou de 9.012 para 34.804 — quase quadruplicando.

A relação entre as duas curvas é operacional: quando uma escola converte para o modelo de tempo integral, ela passa a funcionar em dois turnos completos — manhã e tarde — com aulas que vão do início da manhã ao final da tarde. O turno noturno deixa de existir. E com ele somem as turmas de EJA, que funcionavam justamente nesse horário.

A conexão mais evidente está na aceleração de 2022 para 2023. Nesse único ano, a matrícula da EJA estadual caiu 39% — de 51.726 para 31.743 alunos. É a maior queda anual da série. O mesmo ano registrou o maior salto na expansão de escolas integrais: de 447 para 695 unidades, um aumento de 55% em doze meses. Cada escola que aderiu ao modelo integral naquele ano fechou, em regra, sua oferta noturna.

O programa federal de expansão do Ensino em Tempo Integral (PETI), lançado pelo Ministério da Educação em 2023 com incentivos financeiros para estados e municípios, acelerou ainda mais esse processo. O Paraná, que já havia iniciado sua própria política de escolas integrais antes do PETI, aprofundou a expansão com o financiamento federal — sem criar, em paralelo, uma política alternativa para preservar a oferta de EJA.

Escolas estaduais com turno noturno (eixo esquerdo) Alunos no EM integral — rede estadual PR (eixo direito)
Escolas com noturno: 1.267 em 2019, 878 em 2024. Alunos EM integral: 9.012 em 2019, 34.804 em 2024.

Fontes: Censo Escolar INEP 2018–2024 · IN_NOTURNO e QT_MAT_MED_INT · escolas estaduais do Paraná

## Um direito garantido que não é exercido

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) estabelece que a EJA é uma modalidade de ensino destinada àqueles que não tiveram acesso ou não concluíram seus estudos na idade adequada, e que o poder público tem o dever de garanti-la de forma gratuita. O Plano Nacional de Educação (PNE) 2014–2024 fixou a meta de erradicar o analfabetismo absoluto e reduzir o analfabetismo funcional entre adultos.

No Paraná, a taxa de analfabetismo da população de 15 anos ou mais permanece acima de 5%, segundo a PNAD Contínua de 2023. O número de adultos sem fundamental completo caiu lentamente ao longo da última década — mas a velocidade da queda é muito menor do que a velocidade com que as matrículas da EJA encolheram.

Em 2007, o estado tinha 157 mil alunos na EJA estadual — o pico da série histórica disponível. Em 2025, são 36 mil. A fila de adultos que precisam do programa, nesse mesmo período, diminuiu uma fração dessa proporção.

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### A EJA e as escolas cívico-militares

O colapso da EJA é sistêmico e anterior às escolas cívico-militares, mas o modelo cívico-militar estadual intensificou localmente o mesmo efeito. A Plural mostrou, em reportagem anterior, que a implantação do programa no Paraná excluiu alunos do ensino noturno e da EJA do cômputo do Ideb das escolas convertidas — impulsionando artificialmente os índices de desempenho dessas unidades. Essa exclusão atingiu 12,4 mil estudantes na rede estadual.

O dado macro agora confirma que esse movimento não foi isolado: ao longo de toda a rede, o esvaziamento da EJA e do noturno é uma tendência consistente, iniciada bem antes do programa cívico-militar e acelerada pela expansão do tempo integral. A diferença é que, nas cívico-militares, a exclusão foi usada como estratégia deliberada de maquiagem de indicadores. Na rede como um todo, o efeito foi colateral — mas igualmente real para os adultos que ficaram sem vaga.

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Fontes: Censo Escolar da Educação Básica 2007–2025, INEP. PNAD Contínua — Pessoas de 25 anos ou mais por nível de instrução, Paraná, 2016–2023, IBGE (Tabela 7189/SIDRA). Análise do Plural com base nos microdados da rede estadual paranaense.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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