Em 2022, 83% das aulas no Ensino Médio das escolas estaduais do Paraná eram ministradas por professores com formação na área que ensinavam. Em 2025, esse índice havia caído para 80%. A diferença de 3 pontos percentuais, modesta na média, esconde uma transformação bem mais intensa nos extremos: em 41% das escolas — 644 unidades — a queda foi superior a 5 pontos percentuais. Em 407 delas, a perda foi superior a 10 pontos.
Os dados são do Índice de Adequação de Formação Docente (AFD), calculado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). O indicador classifica os professores em cinco grupos, do mais ao menos adequado: o Grupo 1 reúne os docentes com licenciatura exatamente na disciplina que ministram; o Grupo 5, no extremo oposto, agrupa professores que não têm diploma de nível superior — apenas o ensino médio completo.
É o Grupo 5 que mais cresceu nas escolas estaduais paranaenses do Ensino Médio.
O crescimento do Grupo 5: professores sem ensino superior
Em 2020, apenas 0,8% das aulas do Ensino Médio estadual no Paraná era ministrada por professores sem diploma universitário. Em 2022, essa proporção havia pulado para 2,0%; em 2024, para 2,6%. Em quatro anos, o índice triplicou.
Em paralelo, o número de escolas com ao menos um professor nessa situação passou de 247, em 2020, para 629 em 2024 — um aumento de 155% nas unidades afetadas. Não se trata, portanto, de um fenômeno concentrado em poucos colégios: a presença de docentes sem ensino superior no Ensino Médio se espalhou por mais de 600 escolas estaduais paranaenses.
Os casos extremos são ilustrativos. O Colégio Estadual Sebastião L. da Silva, em Ribeirão Claro, tinha 91% de adequação de formação em 2022 e fechou 2025 com 33% — queda de 58 pontos percentuais. O Colégio Estadual Centrão, em Querência do Norte, saiu de 65% para 9%. Em Curitiba, o Colégio Santa Gemma Galgani — que em 2022 tinha 99% de adequação, uma das maiores da rede — caiu para 54% em 2025. No interior, municípios inteiros registraram derretas dramáticas: Ribeirão Claro acumulou queda média de 43,6 pontos percentuais entre suas escolas estaduais de Ensino Médio; Santa Maria do Oeste, 23,7 pontos.
O que o crescimento do Grupo 5 representa
O Grupo 5 é a categoria mais crítica da Adequação Docente porque representa a quebra da linha mínima de formação esperada para um professor do Ensino Médio. No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) exige, para o exercício da docência nessa etapa, licenciatura plena em nível superior. A presença crescente de docentes sem essa formação é, ao mesmo tempo, um indicador de escassez de professores em determinadas áreas e um descumprimento das exigências legais.
As disciplinas mais afetadas tendem a ser aquelas com menor oferta de licenciados: Física, Matemática, Química. São áreas em que a demanda das escolas excede historicamente o número de profissionais formados no país. Quando não há candidatos com licenciatura para uma vaga, a escola recorre a quem tem o ensino médio e, às vezes, experiência na área — mas sem a formação pedagógica e o aprofundamento teórico exigidos.
O que está em jogo quando o professor não tem formação na área
A adequação de formação docente não é um requisito burocrático. Ela está associada, na literatura educacional, à profundidade com que o professor domina o conteúdo que ensina — o que influencia diretamente a qualidade das explicações, a capacidade de responder a perguntas não previstas e a habilidade de conectar o conteúdo a contextos mais amplos.
Um professor sem ensino superior ensinando Física, por exemplo, pode ter dificuldade para tratar de conceitos que exigem base matemática avançada, para contextualizar os fenômenos em relação à física moderna ou para preparar os estudantes para as questões do Enem e do vestibular, que exigem aplicação de conhecimento, não apenas memorização.
Para os alunos do Ensino Médio público — que em sua maioria dependerão desses professores para acessar o ensino superior —, a escassez de formação docente adequada representa uma desvantagem competitiva real em relação a colegas de escolas com corpo docente mais qualificado. Não por acaso, estudos do próprio INEP mostram que a formação do professor está entre os fatores com maior efeito sobre o aprendizado dos alunos — mais até do que infraestrutura ou número de alunos por turma.
No Paraná, o crescimento do Grupo 5 ocorre em paralelo à implantação do Novo Ensino Médio (NEM), que criou componentes curriculares inteiramente novos — como os itinerários formativos e o componente "Projeto de Vida" — para os quais não existe sequer uma licenciatura específica no sistema universitário brasileiro. Esse descompasso entre a reforma curricular e a formação disponível no mercado de trabalho docente amplia a pressão sobre as escolas para alocar professores fora da sua área.
Um problema estrutural sem solução fácil
A queda do AFD no Ensino Médio estadual paranaense aponta para um problema que o próprio governo federal reconhece, mas enfrenta com dificuldade: o Brasil forma poucos licenciados em Física, Química e Matemática, e menos ainda os retém na carreira docente pública.
No Paraná, o fenômeno é agravado pela extensão territorial e pela dispersão de escolas em municípios pequenos, onde um único professor aposentado pode deixar uma escola inteira sem cobertura adequada em sua disciplina. Cidades como Ribeirão Claro, Santa Maria do Oeste e Querência do Norte — que aparecem no topo do ranking de piora no estado — ilustram esse problema: são municípios com poucos colégios, nos quais a saída de um docente qualificado representa uma perda imediata e de difícil reposição.
A implantação do Novo Ensino Médio adicionou uma camada a esse desafio. Ao criar itinerários formativos que rompem a divisão tradicional entre disciplinas, a reforma exigiu professores para componentes que não existiam antes — e para os quais o sistema de formação docente, baseado em licenciaturas específicas, ainda não produziu profissionais em número suficiente. O resultado prático é que mais escolas precisam de mais professores em mais áreas, enquanto o número de licenciados disponíveis não acompanhou esse crescimento.
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Fontes: INEP — Indicadores Educacionais: Adequação de Formação Docente (AFD) e Índice de Regularidade Docente (IRD), séries 2019–2025; Percentual de Docentes com Nível Superior (DSU), séries 2015–2025. Censo Escolar da Educação Básica 2023. Análise restrita às escolas estaduais do Paraná com dados de Ensino Médio.