A Universidade Federal do Paraná (UFPR) divulgou as mudanças do vestibular nesta terça-feira (27). Além de alterações estruturais, como modelo da redação, quantidade de questões e de alternativas, a lista de leituras obrigatórias inclui novidades.
As obras obrigatórias compõem quatro disciplinas: Literatura Brasileira, Filosofia, Sociologia e Música. Enquanto a última não teve mudanças, as demais receberam alterações significativas.
A reportagem ouviu professores de cada área para avaliarem as mudanças, desde as possíveis motivações até os resultados práticos das novidades. O vestibular está previsto para 15 de novembro, ofertando cerca de 5.300 vagas para 143 cursos de graduação.
Literatura Brasileira
Composta por oito obras, a disciplina teve alteração de três delas. Saíram “Liras de Marília de Dirceu” (Tomás Antônio Gonzaga), “O livro das semelhanças” (Ana Martins Marques) e “Quarto de despejo” (de Carolina Maria de Jesus). As entradas foram de “Eu” (Augusto dos Anjos), “O demônio familiar” (José de Alencar) e “O quinze” (Rachel de Queiroz).
Doutora em Estudos Literários, Gisele Thiel pontua que a instituição tem o costume de alterar parte das obras de Literatura Brasileira a cada três anos. A abrangência de gêneros e estilo é proposital, segundo ela. “A ideia é passar necessariamente pelos diversos gêneros para que o aluno tenha em mãos, ao longo da formação [do ensino médio], um conhecimento amplo da literatura”, afirma.
Essa variedade também pode ser vista na temporalidade dos títulos, que compreendem diferentes séculos, do romantismo à literatura contemporânea. A abordagem é compreendida pela professora de Letras como uma forma de aproximar os alunos de uma análise crítica da obra dentro de contextos reais, para além de sua importância histórica e narrativa.
Apesar disso, Gisele reconhece que as realidades dos estudantes são diversas. Somente na edição do último vestibular, 39 mil candidatos, de diferentes regiões do Brasil, prestaram a prova. Para ela, as diferenças se manifestam de variadas formas, do tempo dedicado à leitura nas escolas até seu tipo de gestão.
“Os repertórios variam, dependendo da caminhada que esse aluno faz dentro da escola e de outras possibilidades de leitura ao longo do tempo. Particularmente, não acredito que o tempo de existência da obra distancie o aluno dela. Os temas estão lá: o amor, o ódio, as vinganças, as tramoias, as mentiras. O que acho que dificulta é o repertório de vocabulário. É fundamental que os professores não simplesmente deem um resumo para o aluno, do que se trata a obra, mas que o ensine a fazer essas leituras”, complementa.
A atemporalidade de temas das obras escolhidas, de acordo com a professora, é ampla e relevante o suficiente para inserir os alunos nos contextos retratados. A variação das situações sociais vistas em cada obra possibilita o pensamento crítico traduzido para os dias de hoje.
“A Federal, ao escolher abrir esse leque, dá conta desse equilíbrio entre obras do presente e do passado”, finaliza.
Filosofia
Quatro das cinco obras que integram o eixo de Filosofia foram alteradas. Essa também é uma prática recorrente da universidade, que, em outros anos, chegou a trocar todas as obras da disciplina. O primeiro capítulo de “A lógica da pesquisa científica” (Karl Popper) manteve-se na lista, enquanto “Dispositivo de racialidade” (Sueli Carneiro), “Participação e Teoria Democrática” (Carole Pateman), “A república” (Platão) e “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” (Rousseau) passaram a integrar o panteão.
Para o professor Daniel Medeiros, a ação é benéfica, uma vez que amplia o repertório formativo dos alunos. Essas novidades introduzem os estudantes a temas que refletem a dimensão e os movimentos da área, com obras que resgatam 2.500 anos do pensamento ocidental.
Por outro lado, a prática exige um esforço constante de alunos e professores na atualização dos títulos. “Pessoalmente, vejo mais vantagens que desvantagens. Gosto dessa ‘mexida’, dessa abrangência, dessa diversidade. É um desafio bastante interessante”, afirma o doutor em Educação e especialista em Filosofia.
A diversidade ainda permite a inclusão de obras fora do cânone tradicional da área, refletindo urgências do mundo atual. A lista inclui textos extraídos de revistas e artigos de opinião, por exemplo, não priorizando artigos científicos e obras consagradas.
“Isso aproxima a filosofia das questões que devem interessar ao jovem cidadão com temas que dizem respeito a nossa realidade. Neste ano, a lista inclui discussões como racismo, democracia e desigualdade”, complementa Medeiros.
Nesse sentido, o professor enxerga as obras capazes de arejar o momento político do Brasil e do mundo, marcados por dicotomias e extremismos. “A filosofia, por excelência, é questionadora. Ela cria espaços de debate, com momentos de adesão e de divergência no campo das ideias.”
Já o professor Robson Gaievski aponta que a manutenção do mesmo número de questões da disciplina na prova (5) valoriza a área, dentro e fora do vestibular. “Quando o vestibular reforça esses temas, a disciplina ganha espaço no ensino médio. Isso impacta positivamente na formação acadêmica, na perspectiva de mundo, de reflexão dos universitários”, avalia.
Sociologia
As cinco obras de Sociologia tiveram as saídas de “Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva" (Silvia Federici) e "Ideias para Adiar o Fim do Mundo" (Ailton Krenak). Os novos integrantes são “Sobre o autoritarismo brasileiro” (Lilia Schwarcz) e “Quem tem medo do gênero?” (Judith Butler).
O professor de Sociologia Rogério Vieira enxerga as alterações em dois caminhos: o primeiro como uma reflexão da instituição em renovar o ensino da disciplina nas escolas e o segundo como uma reação às demandas sociais em pauta no mundo, como gênero e raça.
“As decisões da lista refletem a diversidade e o programa de Sociologia do ensino médio, em consonância com o ensinado dentro das salas de aula e com a representatividade”, diz.
Os novos títulos, ainda segundo Vieira, trazem a disciplina para a realidade dos alunos. “Indica uma necessidade da Sociologia do ensino médio ultrapassar a fronteira dos temas mais acadêmicos e clássicos para trazer temas importantes para o debate das relações sociais. São questões importantes debatidas com intensidade atualmente e não tornam a Sociologia uma disciplina excessivamente acadêmica, pensando principalmente no jovem do ensino médio”, finaliza.