Em 2014, um professor dos Anos Finais das escolas estaduais do Paraná lecionava, em média, 4 horas e 22 minutos por dia. Em 2024, essa carga chegou a 5 horas e 38 minutos. Em dez anos, a jornada diária de aulas cresceu 29% — e quase toda essa alta aconteceu entre 2022 e 2024.
Os números são do Índice de Horas-Aula Diária (HAD), calculado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). O indicador mede a média de horas de aula efetivamente lecionadas pelos professores por dia de trabalho. Não inclui preparação de aula, correção de provas ou reuniões pedagógicas — apenas o tempo em sala.
No Ensino Médio, a série histórica começa em 2019, mas o movimento é o mesmo: de 4 horas e 27 minutos naquele ano para 5 horas e 30 minutos em 2024. Um salto de 23% em cinco anos, também concentrado a partir de 2022.
## O que mudou em 2022
A inflexão de 2022 coincide com a aceleração do modelo de escola de tempo integral na rede estadual paranaense. Naquele ano, o número de alunos matriculados no Ensino Médio integral passou de 10.975 para 15.873 — uma alta de 45%. Em 2023, com o impulso do Programa Escola em Tempo Integral (PETI) do governo federal, o número saltou para 22.463. Em 2024, chegou a 34.804: quase quatro vezes o patamar de 2019.
A relação entre a expansão integral e a alta do HAD é operacional, não apenas estatística. Uma escola de tempo integral funciona em dois turnos completos — manhã e tarde —, com aulas que se estendem até o final da tarde. Nesse modelo, os professores são contratados para cobrir a jornada ampliada da escola. A consequência direta é que cada docente, dentro de uma única unidade, assume um volume de horas-aula diárias significativamente maior do que o padrão do turno único.
## Menos escolas, mais horas na mesma
A análise do Índice de Esforço Docente (IED) — que classifica professores de 1 (menor complexidade) a 6 (maior) conforme o número de escolas, turnos e etapas em que atuam — revela um movimento paralelo e aparentemente contraditório.
Entre 2019 e 2024, a proporção de professores nas categorias de maior esforço caiu. No Ensino Fundamental, os docentes nas categorias 5 e 6 — que lecionam em três ou mais escolas, frequentemente em múltiplos turnos — passaram de 30,5% para 24,8% do total. No Ensino Médio, a queda foi ainda mais pronunciada: de 36,5% para 26,4%.
No lugar desses professores-itinerantes, cresceu a categoria 3 — docentes que atuam em duas escolas ou dois turnos: de 15,6% para 21,0% no Fundamental; de 13,1% para 19,2% no Médio.
A leitura superficial desse dado poderia sugerir melhora nas condições de trabalho: menos professores sobrecarregados, menos deslocamentos entre escolas, menos fragmentação. Mas o HAD mostra que a carga de trabalho diária aumentou. O que os dados revelam juntos é um fenômeno específico ao modelo integral: o professor que antes dividia seu tempo entre três escolas agora está ancorado em uma ou duas — mas essa escola exige muito mais horas por dia do que as antigas.
Troca-se a sobrecarga horizontal — vários endereços, vários trajetos — pela sobrecarga vertical: mais tempo contínuo diante das turmas.
## O que não mudou: a rotatividade
O Índice de Regularidade Docente (IRD) mede a frequência com que os mesmos professores retornam às mesmas escolas ao longo dos anos. Na rede estadual paranaense, ele permaneceu praticamente estático entre 2019 e 2025: variou entre 2,70 e 2,77 numa escala de 0 a 5, sem tendência de alta ou queda.
Isso indica que, apesar do aumento da jornada diária, não há um êxodo de professores da rede — ao menos não em escala suficiente para se manifestar no indicador de regularidade. Os mesmos docentes estão voltando para as mesmas escolas, trabalhando mais horas por dia, em menos endereços.
Do ponto de vista da gestão escolar, esse é um sinal ambíguo. A estabilidade dos professores favorece a continuidade pedagógica, o conhecimento dos alunos ao longo do tempo e a construção de vínculos com a comunidade escolar. Mas a permanência numa jornada mais extensa também pode mascarar o esgotamento docente, que costuma se manifestar não na saída imediata da rede, mas na queda gradual de engajamento e na licença de saúde.
## O pano de fundo: formação em declínio enquanto horas sobem
Os dados de esforço e regularidade docente ganham outro relevo quando postos ao lado de um terceiro indicador: a Adequação de Formação Docente (AFD).
Entre 2022 e 2025, a proporção de professores do Ensino Médio estadual paranaense com formação exatamente na disciplina que lecionam caiu de 83,2% para 80,0%. No mesmo período, o grupo de docentes sem ensino superior ensinando no Médio triplicou — de 0,8% para 2,6% do total. O percentual geral de docentes com nível superior, que era de 99% no Médio estadual em 2019, recuou para 95,5% em 2025.
O Paraná, portanto, está pedindo mais horas de aula por dia a professores que, em proporção crescente, não têm a formação prevista para as disciplinas que ensinam. São tendências que correm em paralelo, mas que raramente aparecem juntas na mesma análise.
A expansão do tempo integral, que responde pela maior parte do crescimento do HAD, foi desenhada para melhorar a qualidade da educação por meio de mais horas na escola. Mas os indicadores sugerem que essa ampliação de jornada está sendo executada sobre uma base docente que, simultaneamente, está encolhendo em qualificação específica para as disciplinas do currículo.
Mais horas de aula com professores progressivamente menos formados para as disciplinas que ministram é uma equação cujos efeitos sobre o aprendizado ainda levarão anos para aparecer no Ideb — mas cujos ingredientes já estão mensuráveis nos dados do INEP.
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Fontes: INEP — Indicadores Educacionais: Índice de Horas-Aula Diária (HAD), Índice de Esforço Docente (IED) e Índice de Regularidade Docente (IRD), séries 2014–2025; Adequação de Formação Docente (AFD), série 2019–2025. Censo Escolar da Educação Básica 2019–2025. Análise restrita às escolas estaduais do Paraná.