Talvez não haja tarefa mais urgente do que formar uma geração capaz de ver de outro modo as nossas relações com a Natureza. A emergência climática é uma realidade inegável: relatórios recentes mostram que o planeta está aquecendo mais rápido do que o previsto, e que os patamares previstos pelo acordo de Paris podem logo ser ultrapassados; o desflorestamento no mundo chega a incríveis dez milhões de hectares anuais (o tamanho aproximado de Portugal); e a cada doze meses batemos o recorde de ano mais quente já registrado na Terra.
Os riscos que essas mudanças representam para a própria sobrevivência da espécie humana exigem que todos encarem o desafio de mudar paradigmas e de nos aproximarmos de uma convivência mais saudável com o meio ambiente. E a escola, claro, tem papel de destaque nessa transformação.
A tarefa dos educadores não é simples. Por um lado, é preciso ser claro sobre os problemas: o negacionismo seria a pior resposta possível. Como diz a velha sabedoria, o primeiro passo para resolver um problema é reconhecer que ele existe. Mas também é necessário estimular as crianças e os adolescentes a pensar em respostas, em ações práticas que possam ser adotadas para estarmos à altura do desafio; afinal, o derrotismo também não é uma opção.
O ponto de equilíbrio parece vir de uma ação dupla, que pode ser adotada pelos colégios com alunos de diferentes idades. Ao mesmo tempo em que as aulas de Ciências, Biologia, Geografia e outras áreas revelam a complexidade da Natureza e indicam formas mais responsáveis de nos relacionarmos com ela (necessariamente diferentes do que foi feito até aqui), projetos e desafios podem funcionar como meios de mostrar que nossas ações causam diferença no mundo.
Esperança e determinação
A educadora Suellen Oriana Kricky, professora de Ciências dos sextos anos do Colégio Medianeira, ressalta a importância de abordar o convívio com nossa “Casa Comum” (na expressão do Papa Francisco) como parte de um desafio maior, que é a formação integral dos estudantes. Para a pedagogia inaciana, que guia colégios jesuítas como o Medianeira, formação integral significa o desenvolvimento das potencialidades da pessoa nas dimensões cognitiva, socioemocional e espiritual-religiosa, por meio de um currículo integrado e integrador.

“Sendo um Colégio da Rede Jesuíta, buscamos a formação integral do ser humano”, diz ela. “Portanto, integrar a dimensão ambiental à educação incentiva os estudantes a enfrentarem os desafios de seu tempo, a buscarem soluções para problemas locais, a darem valor às ações individuais e coletivas para um futuro sustentável, a respeitarem as diversas formas de vida e a usarem conscientemente os serviços ecossistêmicos”, afirma.
Segundo Suellen, no Medianeira isso acontece por meio do debate de problemáticas atuais. “Temos o cuidado de abordar esses temas levantando hipóteses, pesquisando, unindo os saberes tradicionais e acadêmicos, promovendo a interdisciplinaridade entre os componentes e buscando as soluções possíveis, com esperança e determinação", afirma.
Discussões sobre o presente
A discussão sobre o que está acontecendo no planeta, conta Suellen, também é facilitada por eventos reais. Neste ano, por exemplo, o tema da Campanha da Fraternidade e a realização da COP30 no Brasil, em Belém, tornaram-se temas trabalhados com os alunos.
"Os estudantes do quinto ano do Ensino Fundamental, por exemplo, participaram em meados de março, de uma estratégia idealizada por um grupo de professores da série, em parceria com o Serviço de Orientação Pedagógica, que foi intitulada KIDSCOP, uma referência à Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas”, diz. A atividade, segundo Suellen, foi pensada como um evento de sensibilização e formação dentro da temática do projeto da série, que se chama Interconectados com a Casa Comum.
"É por meio desses exemplos e de tantos outros relatos de estudantes, como negar a sacola plástica na panificadora e cuidar para que todos na casa usem a água da mangueira com mais consciência, que afirmo que a escola exerce um papel fundamental na conscientização socioambiental de toda a comunidade educativa, pois é um espaço de diálogo, pesquisa e protagonismo", afirma Suellen.
Normose
As ações descritas por Suellen podem ser uma boa resposta para uma das principais críticas que Clóvis Borges, especialista em conservação da Natureza, fundador e diretor da ONG Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), faz à educação de cunho mais formalista. Segundo ele, é preciso evitar algumas armadilhas, entre elas aquilo que define como “normose”.
O termo "normose", afirma Borges, ajuda a explicar o fenômeno da inércia dos jovens frente a um cenário de ameaças percebido como impossível de enfrentar. "Desequilíbrios climáticos e a perda de biodiversidade, acrescidos de tudo que envolve a criação de um mundo cada vez mais hostil para a nossa sobrevivência, continuam sendo tratados, pela sociedade em geral, como questões de segunda prioridade. Isso é refletido em medidas superficiais e absolutamente insuficientes para enfrentar a gravidade do problema. Não há como delegar aos jovens, as ditas próximas gerações, a responsabilidade pelas mudanças urgentes. Essa negligência ajuda a explicar o sentimento de frustração e de impotência entre os jovens que começam agora a tomar consciência do que estamos fazendo com o planeta", diz.

Para Clóvis, a escola deveria cumprir um papel crítico em relação à incorporação de conceitos e valores envolvendo o tema do meio ambiente. "Nas últimas décadas, o tema da educação ambiental avançou bastante, embora dentro de uma perspectiva bastante reducionista. Grande parte dos esforços se concentrou em temas repetitivos, como controlar o consumo de água e reciclar o lixo. Esses dois aspectos, que são apenas marginais diante da complexidade da crise ambiental, acabaram dominando o debate, não permitindo uma compreensão mais ampla das múltiplas variáveis envolvidas nos problemas ambientais do nosso tempo”, afirma.
Mão na massa
Clóvis e Suellen também estão de acordo com a necessidade de os alunos desenvolverem atividades práticas. Suellen conta que, no Medianeira, uma das atividades práticas é o estudo anual do Rio Belém. O rio, que nasce em Curitiba, atravessa o terreno do Colégio e, ao longo do seu percurso pela cidade, recebe dejetos de fábricas e residências.
As turmas do Ensino Fundamental são convidadas a acompanhar o leito do Rio desde suas nascentes, coletando amostras de água, que, depois, são analisadas em laboratório. Critérios como a presença de certos poluentes, turbidez e os organismos vivos encontrados na água ajudam a compreender os impactos que o Rio Belém sofre ao longo de seu percurso urbano, justamente ao lado de onde as crianças estudam.
"A importância desse trabalho está em proporcionar aos estudantes a análise de problemas reais e a busca por soluções práticas e reflexivas, utilizando o método científico, que inclui a coleta de dados, a elaboração de hipóteses, a observação sistemática e a experimentação", diz a pedagoga, que é licenciada em Ciências Biológicas, especialista em Conservação da Natureza e Educação Ambiental pela PUCPR.
E eles?
Mas e do ponto de vista dos estudantes, como isso funciona? Segundo Henrique Beltrão, aluno do Ensino Médio do Colégio Medianeira, essas experiências têm sido fundamentais em sua formação.
"Ao longo do ano, fazemos um trabalho de pesquisa para apresentar na Feira do Conhecimento e muitos desses projetos são relacionados ao meio ambiente. Além disso, também temos aulas de campo e atividades na chácara do Medianeira, que é uma reserva e funciona como um Centro de Educação Ambiental. Essas experiências contribuem para a nossa formação, fortalecem nossa consciência ecológica e criam uma sensação de pertencimento à natureza", conta o estudante.
Henrique, por exemplo, faz parte de um projeto chamado “É PRA Ontem”, voltado para a preservação e o plantio de araucárias na Mata Atlântica paranaense. O projeto foi criado pela estudante Maria Paula Rehme, da 2a série do Ensino Médio, e conta também com a supervisão da professora Letícia Estela, responsável pelo Centro de Educação Ambiental e pelo laboratório de Biologia. E o fato de os próprios alunos criarem projetos ambientais e se interessarem pelo tema mostra que a estratégia está funcionando.
Cidadãos responsáveis
O objetivo da educação ambiental no Medianeira é garantir que os meninos e meninas se desenvolvam e se transformem em homens e mulheres responsáveis pelo cuidado com a “Casa Comum”. Que cheguem à vida adulta em condições não apenas em condição de discernir quais atitudes fazem melhor para o planeta como também dispostos a disseminar as informações para mais e mais pessoas.