A pedagoga Katia Sampaio conta que sente hoje uma mudança no comportamento dos pais quando vão conhecer uma escola. "Antes, a gente sempre ouvia os pais perguntarem se a escola tinha laboratório de informática. Hoje, isso não existe mais. Pelo contrário, eles querem saber qual é a política do colégio sobre o uso de telas", diz ela.
Orientadora pedagógica do Colégio Medianeira, em Curitiba, Katia acha que a preocupação dos pais com as telas faz sentido. Mais do que isso: pela experiência dela, as famílias hoje deveriam estar mais atentas ao espaço da escola e ao uso que se faz dele do que aos recursos tecnológicos disponíveis. Num mundo viciado em eletrônicos, o melhor caminho pode ser transformar a escola em um respiro, um momento de convivência e de atenção ao outro que está a seu lado.
"É na presença do outro que a gente aprende a ser humano", diz Kátia. "E essa é uma das grandes riquezas da escola: ser um momento de convivência, um espaço de encontro. A sala de aula, a natureza, o pátio, tudo isso enriquece a experiência. É importante deixar claro que a educação, assim como o mundo, não cabe em uma telinha", diz ela.
Para a orientadora pedagógica, essa preocupação com um ambiente escolar em que o convívio, e não os eletrônicos, seja prioritário, se torna ainda mais fundamental num mundo em que as famílias estão diminuindo, em que as crianças têm menos irmãos ou são filhos únicos. "A escola é a garantia de uma convivência social. E isso é decisivo para a trabalhar o aspecto socioemocional da criança, não só a dimensão cognitiva."
Telas e escola
A preocupação com o uso de telas pelos alunos, tanto dentro quanto fora da escola, está no radar dos estudiosos da educação e também da neurociência. Para Murilo Karasinski, professor do Programa de Pós-graduação em Bioética e membro do Observatório de Uso de Inteligência Artificial na Educação Superior da PUCPR, é inegável que os eletrônicos são parte do cotidiano das novas gerações. E não necessariamente isso é um problema.
"Quando bem utilizadas, as telas podem ser ferramentas poderosas para a aprendizagem", afirma. Segundo ele, tecnologias digitais ampliam o acesso à informação, permitem a personalização do ensino e favorecem o engajamento dos estudantes com linguagens que lhes são familiares. Além disso, favorecem a inclusão de alunos com diferentes perfis de aprendizagem, por meio de recursos interativos, audiovisuais e adaptativos.
"O grande desafio, no entanto, está em formar professores para mediar essas experiências, garantindo que o uso das tecnologias contribua para desenvolver o pensamento crítico, a autonomia e o senso ético dos estudantes", comenta Murilo. "O risco é que, sem mediação, essas ferramentas reforcem uma postura passiva e desconectada do mundo real."
Murilo diz que a preocupação é maior na primeira infância, fase em que o contato com o mundo real é fundamental. "É nessa fase que o cérebro está em plena construção, e ele precisa de estímulos vivos, variados e afetivos para se desenvolver de forma saudável. O que muitas vezes se esquece é que as telas não são apenas neutras. Quando usadas em excesso ou sem mediação, elas substituem o brincar livre, o contato com a natureza, a convivência com outras crianças e adultos presentes. Não se trata apenas de conteúdo, mas do tipo de atenção que se cultiva", opina.
Katia Sampaio, do Medianeira, também acredita que na primeira infância os eletrônicos, quando em excesso, são mais danosos. "A criança pequena, recém-chegada a este mundo, precisa interagir mais. Ela aprende com o corpo, tocando, cheirando, correndo. A aprendizagem nessa primeira infância acontece principalmente por meio do corpo, das trocas, da brincadeira, do sensorial", diz ela.
No Medianeira, segundo ela, a intenção é usar o espaço como um "terceiro educador", e por isso há grande vantagem em contar com uma área externa grande, coberta por verde e que conta com espaços livres para a convivência das crianças.
"O cérebro da criança nessa fase está limpo para receber as informações de todo tipo. E com certeza o uso excessivo das telas pode prejudicar esse desenvolvimento", afirma ela. Segundo Katia, o desenvolvimento da linguagem, por exemplo, que é um processo tipicamente dependente da interação com os outros, tem sido mais lento em crianças com excesso de tempo de tela. "Isso prejudica até a motricidade e as habilidades socioemocionais na primeira infância. O que os eletrônicos oferecem é uma interação unilateral, não há uma troca", diz
Murilo diz algo parecido, em outras palavras. "O desenvolvimento na infância exige tempo de qualidade, com presença física, afeto, narração de histórias e exploração concreta do mundo. O tempo da criança é valioso demais para ser entregue à velocidade de um algoritmo", diz.
Desconectando
A arquiteta Ana Claudia Marini, como tantos outros pais, levou um soco no estômago no começo deste ano ao assistir "Adolescência", no Netflix. A série conta a história de um menino que reage com um crime gravíssimo a uma humilhação que sofreu nas redes sociais. Várias vidas são destruídas por isso e o roteiro conta essa tragédia de forma bastante verossímil.
"Eu me dei conta que depois de uma certa idade, nossos filhos ganham celular, rede social e começam a conversar entre eles. E nós, as mães, que antes falávamos tanto, fomos perdendo contato", conta Ana, mãe de uma menina adolescente e dois meninos mais novos. Ela retomou o contato com as mães dos colegas de turma das crianças e descobriu que não era a única assustada com o que tinha visto na Netflix.
Talvez não seja coincidência que logo depois Ana Claudia tenha descoberto o Desconecta, um movimento que está começando a se espalhar pelo país justamente para ajudar pais e mães a pensar sobre a idade certa em que devem liberar os filhos para interagir mais livremente com a tecnologia. Ela foi vendo que havia mais gente com os mesmos receios, as mesmas dúvidas, e passou a conversar cada vez mais sobre o tema.
"O Desconecta diz que as crianças não deveriam ter celular antes dos 14 anos e que só deveriam ter redes sociais depois dos 16", diz ela. Mais do que dar balizas, a ideia é fazer com que os adultos responsáveis firmem uma espécie de "pacto" para não cederem a uma interação precoce.
"Todo pai, toda mãe que já tentou negar o acesso à tecnologia sabe como é. A criança diz que só ela não tem celular, só ela não tem Instagram, e que se você não deixar ela vai ficar isolada socialmente", diz Ana Claudia. "Se todos os pais de uma sala de aula atuam juntos e aderem a esse compromisso, fica muito mais fácil."
Ana se tornou a primeira representante do Desconecta no Paraná, e levou o projeto para dentro do Medianeira, onde estudam seus três filhos. Agora, está conseguindo apoio de pais e mães de alunos de outras séries, para divulgarem o projeto. E no colégio em breve será realizada a primeira palestra sobre o tema.
Segundo ela, pela experiência na própria casa, os resultados são muito bons. "No celular a brincadeira já vem pronta, é mais passiva. Com menos tempo de tela, eles são muito mais criativos, inventam mais brincadeiras, fazem coisas que não andavam fazendo", conta. Na escola, nas turmas que estão aderindo, também há indícios de uma volta ao "mundo real": gente levando jogos de tabuleiros, aprendendo a brincar de outras maneiras e interagindo mais. Em pleno 2025, não é pouca coisa.