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Duas senhoras

Interessante. Será que colhi na mesa ao lado uma crônica feminista?

Duas senhoras
Tela de Itchzak Tarkay
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Estou no Liquori Caffé, na Boca Maldita. A conversa de duas senhoras, sessenta e poucos anos de idade cada uma delas, me chama atenção e faz crescer minhas orelhas:

— Meus pretendentes são ousados, um quer me levar passear no México, acredita?. “Vamos nos divertir, querida, beber tequila e fazer amor ”, ele fala com voz de ginecologista apaixonado. Ixi, menina, não tenho tempo de ir nem até o Boqueirão visitar minha irmã pra um bolinho, vou de que jeito até o México?

— Aquele shopping do Boqueirão é um espetáculo, né, tem de tudo.

— Vou fazer o que no shopping, Regina, lamber vitrine e não poder comprar nada? Tô fora. Minha aposentadoria dá no limite. Não tenho como gastar um isso a mais no mês.

— Esse que quer te levar pro México é o gordo do carrinho de mão que passa na tua rua vendendo frutas?

— Claro que não. Esse aí é simpático mas não tem onde cair morto. Se deixo entrar pra um suco, não sai mais. Não vou correr o risco nem que a vaca tussa.

— E o ciumento?

— Reclama do gordo das frutas, mas morre de ciúme do cara do México. “O sujeitinho não veio mais te convidar pra passear de avião por aí, não né?”, fala todo brabinho. Ciumento e chato. “Vir, ele veio”, eu respondo, “mas eu não passeio com ninguém não, me respeite”, fazendo a escandalizada, que é pra ver se ele se toca.

— E o ciumento só reclama, mas não te convida pra nada?

— Convidar o quê, Regina? O negócio dele não é comigo não, é com os meus outros pretendentes. Só tem olhos pra eles. Não quer saber de mim, quer saber dos outros que querem saber de mim. Não é de nada o ciumento, se realiza com o tesão que o do México e o gordo das frutas sentem em mim.

— Esse teu ciumento tem vocação pra corno, isso sim.

— E diz que quer abrir um comércio comigo. Imagine se a essa altura do campeonato eu vou voltar a trabalhar e me incomodar com o homem ciumento. Nem a pau Juvenal.

— Esse aí está mais pra abrir um cornécio, um comércio de cornos, isso sim.

E gargalham as duas senhoras.

(…)

Pensei que se eu estivesse escrevendo um conto, terminaria a história ali, com as duas gargalhando. Porém, uma vez que sou um colunista deste refulgente periódico, acredito que seria de bom alvitre tentar achar a moral desta história. Será? Para mim ficou patente que se trata de mulheres maduras que não se deixam intimidar pelos avanços dos homens. Ao contrário, usam tais avanços como fonte de diversão e entretenimento. Pode então que, no final, celebram ali no Liquori sua liberdade e autonomia, escolhendo como querem viver suas vidas e quem querem ter ao lado.

Interessante. Será que colhi na mesa ao lado uma crônica feminista?

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