Curitiba criou 14.189 empregos formais entre janeiro e abril de 2026 — saldo de 204.258 admissões contra 190.069 desligamentos, segundo os microdados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho, filtrados pela Plural. O resultado é 20,6% menor do que o do mesmo quadrimestre de 2025, quando o saldo bateu em +17.865 vagas. Mas a foto do quadrimestre esconde uma virada: depois de três meses fortes, abril fechou no vermelho — foram 3.221 desligamentos a mais do que admissões, o primeiro mês de saldo negativo do ano.
Considerando o conjunto de 178.197 contratos com salário declarado em base mensal — após excluir aprendizes e cinco mil registros com valores fora do intervalo de R$ 100 a R$ 200 mil, que correspondem a erros de preenchimento na fonte —, o salário médio de admissão no quadrimestre foi de R$ 2.376,54. O valor é 4,7% maior que o do mesmo período de 2025 (R$ 2.269,22) — apenas um pouquinho acima da inflação acumulada em 12 meses até abril, que ficou em 4,39%. Em poder de compra, portanto, o piso de contratação na capital praticamente empatou com 2025.
Há um dado que costuma surpreender quem olha o mercado pela primeira vez: o salário de quem é desligado é maior do que o de quem é contratado. No quadrimestre, a média de desligamento ficou em R$ 2.492,66 — 4,9% acima do salário de admissão. A diferença, conhecida pelos economistas como "rotatividade com perda salarial", é típica do mercado brasileiro e indica que, na média, as empresas substituem trabalhadores mais experientes por iniciantes ou recém-formados, com salários menores.
A diferença entre admissão e desligamento cresceu ao longo do quadrimestre: era de R$ 33 em janeiro e chegou a R$ 145 em abril. Em outras palavras, quanto mais o ano avançou, maior ficou o "desconto" para quem entrava no lugar de quem saía.
Os campeões do salário: atletas de futebol e gerentes
Quando se olha para as ocupações com maior salário médio de contratação (entre as que tiveram ao menos 50 admissões no quadrimestre, para evitar ruído), o pódio é dos atletas profissionais de futebol: R$ 20.374,41 de salário médio entre as 115 contratações registradas no período. O salário mais alto declarado em todo o quadrimestre também foi de um jogador: R$ 192 mil, contratado em janeiro. Nove dos dez maiores salários de admissão de 2026 em Curitiba foram para atletas de futebol — coincidência com o início da temporada do Athletico Paranaense, do Coritiba e do Paraná Clube.
Logo atrás do futebol, vêm os cargos executivos:
- Gerente de Recursos Humanos: R$ 14.322 (56 admissões)
- Engenheiro Civil: R$ 12.360 (82 admissões)
- Gerente de Marketing: R$ 8.836 (66 admissões)
- Gerente de Produção e Operações: R$ 8.001 (96 admissões)
- Administrador em Segurança da Informação: R$ 7.799 (52 admissões)
- Analista de Desenvolvimento de Sistemas: R$ 7.451 (628 admissões)
A presença de analista de desenvolvimento de sistemas com 628 admissões e salário médio acima dos R$ 7 mil é um dos sinais mais relevantes do quadrimestre: mesmo depois do ajuste salarial enfrentado pelo setor de tecnologia nos últimos anos, a ocupação segue sendo a porta de entrada melhor remunerada do mercado curitibano em termos de volume. Os dados são apenas de profissionais contratados formalmente pela CLT.
Fora do pódio, aparecem o Diretor Comercial (R$ 140.285 num único contrato no setor financeiro, em abril) e o Diretor Financeiro de uma indústria de transformação (R$ 121.028, em janeiro) entre os maiores valores individuais — patamares ainda assim distantes dos contratos dos atletas.
Os campeões do volume: faxineiros, alimentadores de linha e atendentes
No outro extremo do mercado, as ocupações que mais contrataram em Curitiba seguem sendo as de base — exatamente as que historicamente puxam o salário médio para baixo. Faxineiro liderou com 10.479 admissões e salário médio de R$ 1.797. Em seguida vêm:
- Alimentador de Linha de Produção: 9.447 admissões (R$ 2.113)
- Assistente Administrativo: 7.601 (R$ 2.424)
- Vendedor de Comércio Varejista: 6.803 (R$ 2.044)
- Trabalhador de Serviços de Limpeza e Conservação: 6.715 (R$ 1.705)
- Auxiliar de Logística: 6.103 (R$ 2.149)
- Atendente de Lojas e Mercados: 5.567 (R$ 1.886)
As 10 ocupações com mais contratações somam 66.948 admissões — pouco mais de 37% do total do quadrimestre, contra um salário médio combinado de R$ 2.044. É esse contingente que define, na prática, qual é o "piso real" do mercado curitibano: o trabalhador que entra agora numa das ocupações campeãs de volume ganha, em média, 14% a menos do que o salário médio geral da cidade.
Por setor: serviços administrativos lideram em volume; tecnologia paga mais
Quando o recorte muda para o setor econômico do empregador (seção CNAE), o desenho do mercado de Curitiba fica explícito.
Atividades Administrativas e Serviços Complementares foi disparado o setor que mais contratou: 73.255 admissões — algo como 41% de todas as contratações do quadrimestre. O bloco reúne empresas de terceirização (limpeza, segurança, recepção, telemarketing) e ajuda a explicar por que faxineiro e operador de telemarketing aparecem entre as ocupações mais frequentes. O salário médio do setor é também o mais baixo entre os grandes: R$ 2.099,77.
Comércio vem em segundo, com 34.544 contratações e salário médio de R$ 2.244,87. Alojamento e Alimentação abriu 13.352 vagas pagando, em média, R$ 2.014,22 — o setor com menor remuneração de admissão entre os grandes.
No outro extremo, Informação e Comunicação (em que entram tecnologia, software, telecom e mídia) abriu 3.937 vagas pagando, em média, R$ 4.367,51 — o salário médio mais alto entre os setores com volume relevante. Atividades Financeiras ficou em R$ 4.194,77 e Indústrias de Transformação, em R$ 2.997,02 — mas a indústria foi um dos poucos grandes setores a fechar o quadrimestre com saldo negativo (-294 vagas).
A Construção Civil segue como uma das estrelas do quadrimestre: 9.143 admissões, saldo de +1.276 vagas e salário médio de R$ 2.725,82.
Por porte: empresas médias pagam melhor; grandes contratam mais
Outro corte interessante é o tamanho da empresa que está contratando. Ao contrário do que a intuição sugere, não são as gigantes que pagam os melhores salários iniciais em Curitiba.
Empresas com 250 a 499 funcionários lideraram o ranking de remuneração de admissão no quadrimestre — pagaram, em média, R$ 2.993,50. Em seguida vieram as de 500 a 999 (R$ 2.615) e as de 50 a 99 (R$ 2.437).
As empresas com 1.000 ou mais funcionários — categoria em que estão as gigantes da capital, como hospitais, universidades, redes de supermercado e indústrias automotivas — foram responsáveis pelo maior volume de admissões (45.528, ou 25% do total) e pelo menor salário médio entre os portes com volume relevante: R$ 2.226,50. Esse padrão é parcialmente explicado pelo peso que vagas de base (auxiliares, operadores, atendentes) têm na composição das contratações em organizações dessa escala.
As empresas de até 4 funcionários, na ponta oposta, pagaram em média R$ 2.247 — basicamente o mesmo patamar das gigantes.
Por que o saldo despencou em abril?
Os três primeiros meses do ano foram de mercado aquecido em Curitiba: saldo positivo de +6.919 em janeiro, +7.184 em fevereiro e +3.307 em março. Em abril, porém, foram 45.578 admissões contra 48.799 desligamentos, fechando em -3.221 vagas. É o primeiro mês negativo do ano.
O resultado coincide com a desaceleração nacional do mercado de trabalho relatada pelo IBGE para o início do segundo trimestre e com o aumento da Selic ao longo de março. Olhando os microdados, a maior parte da virada veio de dois setores: indústrias de transformação (-294 no quadrimestre, concentrados em abril) e transporte e armazenagem (-33). Os setores de construção, educação e saúde seguiram contratando.
Metodologia
Essa análise usou os microdados do Novo Caged (Ministério do Trabalho e Previdência), Curitiba, competências de janeiro a abril de 2026. Foram consideradas as admissões e desligamentos com salário declarado em base mensal , valores entre R$ 100 e R$ 200.000, com exclusão de contratos de aprendizagem.