Texto de Giovani Sella, aluno de Jornalismo da UFPR
Sob a orientação de Rogerio Galindo
A prefeitura de Curitiba custou a fazer a divulgação dos estudos das emissões de gases do efeito estufa do município em 2019. Nesse contexto, um grupo de ativistas jovens montou a campanha popular Libera os dados Marilza, que pressionou a Secretaria Municipal do Meio Ambiente — então sob a coordenação da secretária Marilza Dias — a tornar públicos os dados ainda naquele mesmo ano. O último estudo lançado havia sido em 2013.
A partir dessa mobilização inicial, outros ativistas se juntaram na formação da Rede Curitiba Climática(Recc).
A Recc atualmente é uma das ONGs mais relevantes no combate às mudanças climáticas em Curitiba, trabalhando com ações diretas, formação e educação de pessoas críticas e atentas às mudanças climáticas no município.
Os integrantes da Recc são jovens e compõem uma equipe multidisciplinar. São advogados, engenheiros ambientais, comunicadores e professores que se organizam de maneira horizontal, ou seja, não há um único diretor ou coordenador da rede.
A Recc possui atualmente um núcleo duro de 22 integrantes. No entanto, a organização completa construiu, ao longo de mais de cinco anos de trabalho, uma rede com quase 200 colaboradores, entre ativistas e integrantes da sociedade civil.
Uma das ativistas que estão presentes desde sua fundação, em 2020, é Carolina Efing, advogada e mestranda em Sociologia na Universidade Federal do Paraná. Segundo ela, o momento que o grupo se formou era desafiador. “Tava tendo uma crise hídrica fortíssima, ao mesmo tempo que estava tendo as queimadas no Pantanal e a pandemia”.
“Existia um sentimento muito forte de fim do mundo mesmo.” - Carolina Elfing

As atividades que começaram remotas e com a mobilização digital devido à pandemia, com a análise do Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas (Planclima) de Curitiba, evoluíram para ações práticas e efetivas.
Na atuação, são três frentes que se complementam: educação, na aplicação de oficinas em escolas e comunidades; ações diretas, como o plantio de árvores; e auditoria social, também conhecida como advocacy, que é o incentivo a discussão e o diálogo com o poder público para que demandas e deveres sejam cumpridos.
Importância do ativismo ambiental
Rodolfo Lobato, professor do Departamento de Sociologia da UFPR e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento (PPGMade), explica que o discurso ambiental não se distribui de forma homogênea pelo território. “Basta transitar por Curitiba para ver que esse verde, as áreas de parques, elas não estão localizadas na cidade como um todo. É uma cidade que não respeita, por exemplo, determinadas áreas e que corta todas as árvores”, afirma.
Nesse ponto a Recc possui uma atuação muito relevante. A organização promove oficinas ambientais em diversos bairros, como as que foram organizadas no Parolin, que é uma das regiões historicamente mais vulneráveis da cidade. As atividades incluíram plantação de árvores, orientação sobre demandas de finalização de obras públicas e conscientização ambiental do bairro e do mundo como um todo.

Segundo o professor Rodolfo, o próprio conceito de cidade sustentável revela limites estruturais quando ele não considera a escala metropolitana e nacional. “Eu acho que não existe mais um modelo de cidade em que ela consegue ser verde enquanto uma região metropolitana toda, não é”, avalia. Para ele, não é possível dissociar políticas locais do contexto mais amplo. “Não dá para você ter uma cidade dentro de um país em que ela é verde e o país não é.”
Conquistas
Além das oficinas no boqueirão, cajuru e a já citada no Parolin, uma das ações de que Carollina relata com orgulho é a colaboração na organização do ato “Chega de fumaça”, realizado em setembro de 2024. A mobilização reuniu diversos movimentos sociais, organizações ambientais e moradores da cidade, levando um número expressivo de pessoas às ruas para chamar atenção para o aumento alarmante dos incêndios florestais no Brasil.
Além disso, a Recc é a ONG responsável, em Curitiba, por contribuir com pesquisas que integram o Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP). A ferramenta, desenvolvida pela Transparência Internacional, avalia de forma regular a transparência dos poderes subnacionais brasileiros. A participação da Recc reforça o papel da sociedade civil no monitoramento das políticas públicas e na cobrança por dados abertos e governança ambiental efetiva.