Texto de Breno Gallina, aluno de Jornalismo da PUCPR
Sob orientação de Rogerio Galindo
Num mundo tomado pela música popular, são poucas as oportunidades que aparecem na vida de um cidadão comum de conhecer uma orquestra de perto. A música clássica pode soar para muita gente como objeto de museu. Por isso, a volta da Orquestra Didática a Curitiba, após dois anos de turnê, é em certo sentido a abertura de uma dessas raras portas que levam ao mundo de Bach, Mozart e Beethoven.
Eu mesmo não ouço com frequência música clássica. De fato, sou do Rock de coração, e não tenho muito tempo para apreciar esse mundo cultural. Porém, só porque eu tenho pouco tempo, não quer dizer que não posso tentar. Até porque, a música clássica não é tão dissimilar ao Rock; querendo ou não, ambos os gêneros são inerentemente associados, pois um é o “neto” do outro. Com isso em mente, decidi visitar a Orquestra Didática e começar essa jornada.
A Orquestra se encontra no Teatro Cleon Jacques, que por sua vez fica dentro do Memorial Paranista. Entrando no parque, dá para perceber que muita gente está ali para passear ou correr. Mas, além dos curiosos eventuais como eu, que vão até lá para saber mais sobre o funcionamento de uma orquestra, há também as escolas que levam as crianças. Na minha visita, convivi com uma dessas turminhas.

Quem me avisou dos meus colegas de visita foi meu "guia", o músico Rodrigo Barros Del Rei, que idealizou a Orquestra ao lado de Samuel Lago. Comecei a me perguntar como seria a dinâmica entre as crianças e a música; até porque a presença da internet e a preponderância do conteúdo de consumo rápido tornaram a atenção de muito do público infantil irregular nas melhores das hipóteses.
Mas isso teria que ficar para depois. Porque, neste momento, era minha vez de descobrir como a minha atenção se adaptaria a um estilo musical conhecido por demandar tempo e paciência. Entrando na sala, fui recebido por uma forte neblina, obscurecendo boa parte da sala; junto de um tremendo som vindo dos alto-falantes do pequeno teatro. Uma máquina de fumaça em conjunto com uma iluminação mínima torna o ambiente uma caverna; ou um misterioso saguão de um castelo do século XIV.
A Orquestra Didática pretende mostrar o papel de cada um dos instrumentos em uma peça, desenvolvendo a capacidade do ouvinte de compreender a música como um todo. Na minha frente, uma pletora de monitores demonstrando instrumentos, e no final do corredor, a logo da orquestra projetada contra a parede por um holofote. A sinfonia de Brahms sendo tocada consumia todo o ar, e mesmo estando já em plena execução, consigo começar a acompanhá-la. A música “caminhava”, quase como se estivesse contando uma história. Admito que não sei muitos termos técnicos da área, porém rapidamente associei isso àquilo que chamam de “movimentos”.
Os diversos instrumentos pareciam debater entre si, com grupos aprovando um som, e outros protestando contra; porém, juntos pareciam todos estar criando um tremendo discurso, projetando sua “voz” até ao ouvinte, que se for pego de surpresa pode ficar completamente perdido em meio ao exército sonoro.
Todos os instrumentos da orquestra se encontram em exposição em monitores organizados no chão do teatro. Eles são a flauta, tímpanos, clarinete, trompa, oboé, violoncelo, viola, trombone, tuba, violinos, trompete, corne inglês e fagote. Ao se aproximar das telas, o som dos respectivos instrumentos se tornam plenos, facilmente diferenciados, porém não isolados do resto da obra. Enquanto isso, os séculos de história desses instrumentos são expostos nas telas.
Prestando atenção a cada um dos instrumentos evidenciados, tive uma epifania. A união de sons presentes na música clássica é exatamente igual à do rock. Na música “Layla”, do Derek and the Dominos, cinco guitarras (todas tocadas por Eric Clapton e Duane Allman) trabalham em harmonia, cada uma acrescentando seu pequeno detalhe, criando uma das introduções mais icônicas da história do rock; da mesma forma que a trompa adiciona os graves em momentos vitais da obra de Brahms, enquanto os violinos mantém a música progredindo.
Enquanto eu pensava nisso, as crianças da escola chegaram. Inicialmente, a energia aparentemente infinita dos pequeninos era demais para acompanhar: algumas corriam em torno da sala, enquanto outras cutucavam colegas e até mesmo gritavam entre si. Porém, quando Rodrigo entrou na sala e chamou para acompanhar a música, elas impressionantemente obedeceram e passaram a observar silenciosamente cada palavra dele.
Nesse estado de transe, meninos e meninas passaram dezenas de minutos ouvindo a diferenciação entre os instrumentos. O silêncio era tão eloquente que até eu me peguei sentado ao lado deles ponderando sobre a composição atenciosamente. Isso me leva a acreditar que a música clássica não tem barreiras que impedem a audiência de aproveitá-la - basta que se dê às pessoas a oportunidade.
E para quem quiser aproveitar essa chance, este é o melhor fim de semana: a Orquestra continua no parque até domingo (5), tendo em seu repertório também a Sinfonia Nº3 de Ludwig van Beethoven, a “Eroica”, capaz de prender a atenção por horas.
Serviço
Orquestra Didática em Curitiba
Local: Teatro Cleon Jacques
Endereço: R. Prof. Nilo Brandão, 710 (Parque São Lourenço)
Datas: até 5/10, de terça a domingo
Horários: das 10h às 12h e das 12h30 às 17h30
Informações e agendamento de grupos: (41) 98882-1853
Entrada gratuita