Pular para o conteúdo

Ópera de Arame: ícone da arquitetura curitibana nasceu junto com o Festival de Curitiba

“Teatro aberto” volta a receber a programação da Mostra Lucia Camargo com os espetáculos “A Máquina” e “Édipo REC”; construção foi uma corrida contra o tempo

Ópera de Arame: ícone da arquitetura curitibana nasceu junto com o Festival de Curitiba
Ópera de Arame, teatro volta a ser palco do Festival de Curitiba. Foto: Renata Terra/Divulgação

Por Sandoval Matheus

Antes de agosto de 1991, poucos curitibanos tinham botado os olhos no local onde hoje fica a incontornável Ópera de Arame, ponto turístico da cidade. O lugar era um buraco inacessível com um paredão de 25 metros, aberto por uma pedreira abandonada há mais de 20 anos, preenchido por lama e cercado e escondido pela mata. Foi o então secretário de Projetos Especiais, Constantino Viaro, que recebeu a dica e teve uma ideia meio tresloucada: erguer ali um teatro municipal, assunto com que andava às voltas o então prefeito Jaime Lerner.

A área era totalmente fora do padrão para receber uma construção desse tipo, mas Lerner conhecia o nome certo para empreitada: o arquiteto modernista Domingos Bongestabs, com quem tinha estudado, se formado e aberto um escritório, anos antes. Agora, Bongestabs trabalhava na Secretaria de Meio Ambiente.

“A paisagem era uma coisa linda. Depois que eu vi, cheguei pro Lerner e falei, literalmente: vou fazer uma gaiola”, brinca o arquiteto, mais de três décadas depois, em entrevista ao Fringe. A “gaiola” era uma referência ao que ele já havia imaginado: uma edificação totalmente aberta, transparente para aproveitar a paisagem ao redor, feita inteiramente com tubulações de aço, lembrando uma morada de passarinhos.

O gatilho pra colocar de uma vez em prática os planos do teatro municipal fora a primeira edição do Festival de Curitiba, que aconteceria poucos meses depois. Pelos anos subsequentes, a Ópera seria palco da programação do maior evento de artes cênicas da América Latina. Depois de um hiato de algumas edições, este ano ela volta a receber o Festival, com as peças “A Máquina”, que marcou a história da dramaturgia brasileira, e “Édipo REC”, uma releitura do clássico grego feita pelos pernambucanos do grupo Magiluth.

Em 1991, porém, a corrida era contra o tempo. Por um mês, Bongestabs trabalharia todos os dias – e algumas noites e feriados – numa série de croquis – folhas de papel A4 rabiscadas a lápis ou nanquim – idealizando a estrutura da Ópera de Arame, que mais tarde seria considerada por uma revista especializada uma das dez maiores obras da arquitetura brasileira no século 20. Feita a licitação, também às pressas, a construção começou no dia 15 de dezembro, e tinha apenas 75 dias pra ficar pronta. Seriam 4,5 mil metros quadrados, ao preço de US$ 300 mil.

Para agilizar os trabalhos, todo o esqueleto da Ópera foi forjado longe dali, numa fábrica de estruturas metálicas, e apenas montado no local. “Se não dava pra resolver durante as oito horas do dia, a gente resolvia de madrugada, com um esquema de iluminação que deixava tudo mais claro do que o Sol”, lembra o arquiteto, que acompanhava de perto a lida daquele exército de trabalhadores – depois de décadas, é difícil precisar quantos. Ele ficava a postos pra tirar dúvidas e mesmo tomar decisões de suma importância – como por exemplo onde ficariam os banheiros – para as quais não tinha tido tempo hábil antes. “Eu detalhei meu projeto na agenda do construtor. Ele seguiu tudo literalmente. Foi o tipo de obra que todo arquiteto adora.”

Na época, Ilana Lerner, filha do ex-prefeito Jaime Lerner, era uma jornalista recém-formada de 23 anos, e trabalhava na agência de comunicação Singular, coincidentemente responsável por cuidar da assessoria de imprensa nas primeiras edições do Festival. Ela acompanhou de perto as idas e vindas de Leandro Knopfholz, um dos jovens idealizadores – junto com Carlos Bittencourt, Cássio Chamecki e Victor Aronis – e até hoje diretor do evento. “Ele queria ir ver a construção toda hora. Naqueles dias, choveu muito, então foi meio estressante”, ri. “Ele estava sempre muito nervoso, e eu tentava acalmar, até porque a gente não tinha um plano B.”

Quando o grupo Ornitorrinco do diretor Cacá Rosset chegou para a ensaiar a peça de abertura, ainda havia operários trabalhando com solda, instalando poltronas e mexendo na cobertura. E Cacá comentou, com o tipo de bom humor que costuma disfarçar a apreensão lancinante: “Vocês estão sabendo que o Festival começa amanhã, não estão?”.

“Meu pai mesmo nunca duvidou que a obra fosse ficar pronta a tempo. Ele era sempre otimista”, garante Ilana. “Ele gostava muito dos meninos que pensaram o Festival. Ele sempre gostou de pessoas corajosas, que criavam. E via neles esse poder.”

Quem também garante que tinha certeza do sucesso é Domingos Bongestabs, e por experiência. “O Jaime era acostumado a me ligar na sexta-feira à noite pedindo projetos pra segunda de manhã”, conta. “É claro que eu exagero um pouco, mas era mais ou menos assim que a banda tocava.”

A inauguração aconteceu no dia e hora marcados, 31 de março de 1992, e com um toque que pode ter surpreendido os desavisados: “Sonho de uma Noite de Verão”, a peça escolhida para abrir o primeiro Festival, tem como cenário um bosque onírico, repleto de criaturas encantadas. Para a plateia, a sonoplastia e o cenário se mesclavam aos barulhos da área verde em volta. A Lua, que podia ser facilmente avistada das cadeiras, terminou de dar a tudo um toque meio mágico.

Bongestabs lembra de se impressionar com a iluminação refletida pelos insetos voadores que, saídos da mata, passeavam pelo palco. É que no projeto original, a Ópera era realmente aberta, sem nenhum anteparo, contando apenas com uma cobertura de lona. Pouco tempo depois, ela adquiriu a atual configuração, com vidros nas laterais e a cúpula de acrílico, para sediar o Fórum das Cidades da Eco 92, em julho daquele mesmo ano. “Ninguém iria aguentar o frio, se a gente não tivesse feito isso”, constata.

Outra mudança: as poltronas, inicialmente teladas, para aumentar ainda mais a transparência de tudo, foram substituídas pelas convencionais. É que, além de desconfortáveis, elas marcavam as roupas e podiam ser indiscretas para as senhoras, o que fez com que não demorasse muito pra que ambulantes aparecessem vendendo almofadas na entrada da casa.

Naquela primeira edição, a Ópera ainda recebeu outra duas encenações: “A Vida é Sonho”, com Regina Duarte, e “The Flash and Crash Days”, dirigido por Gerald Thomas, com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres no elenco.

Ilana Lerner lembra daqueles tempos com carinho. “As pessoas ficaram muito emocionadas, foi maravilhoso. Foi também uma época de muito trabalho, estávamos fazendo algo inédito em Curitiba”, lembra ela. “A gente precisava conversar até com os restaurantes, pra eles ficarem abertos e as pessoas poderem comer depois das peças. Era como desbravar mato, mas já existia esse frenesi na cidade. Isso aconteceu lá e segue acontecendo hoje, mais de trinta anos depois.”

A Mostra Lucia Camargo é apresentada por Petrobras, Sanepar e Governo do Estado do Paraná, Prefeitura de Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba, Renault e Geely, com patrocínio de EBANX, Viaje Paraná, Itaipu Binacional e Copel, com realização do Ministério da Cultura e Governo Federal - Do lado do povo brasileiro e Paraná Festivais - Governo do Paraná. Confira no site oficial todos os espetáculos que contam com acessibilidade em Audiodescrição e intérpretes de Libras.

Serviço

34.º Festival de Curitiba
Data: De 30/3 até 12/4 de 2026
Valores: Os ingressos vão de R$00 até R$85  (mais taxas administrativas).
Ingressos: www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller - Piso L3 (Segunda a sábado, das 10h às 22h e, domingos e feriados, das 14h às 20h).
Verifique a classificação indicativa e orientações de cada espetáculo. Confira também todos os espetáculos que contam com acessibilidade em Audiodescrição e intérpretes de Libras. Descontos especiais para colaboradores de empresas apoiadoras, clubes de desconto e associações.

Mais em Festival de Curitiba

Ver todos

Mais de Redação Plural

Ver todos

De nossos parceiros