Joy Sangolete veio a Curitiba apresentar “12 horas” no 34º Festival de Curitiba. O espetáculo parte de uma história verídica vivida pela artista, um aborto, e entrou em cartaz na Mostra Baía de Vozes Insurgentes – com seis solos autorais em que arte contemporânea, corpo, memória e política ganham protagonismo nos palcos. Além de “12 horas", foram encenados: “Medeia Negra”, de Márcia Limma com direção de Tânia Farias; “Consolo”, de Alice Cunha; “Golpes no Ventre”, de Jane Santa Cruz, pela Sinuosa Companhia, com narrações de Zezé Motta e da Ialorixá Alda Vieira; “Isto Não É uma Mulata”, de Mônica Santana; e “Filipa”, de Camila Guilera, com montagem d’APanacéia GrupA de Teatro e direção de Elisa Mendes.
Joy Sangolete
Joy vem de uma trajetória consistente na academia e de trabalhos em facilitação de processos com histórias de outras pessoas. Mas, no curso de doutorado, a vontade de estar no papel de atriz a trouxe para os palcos novamente e, agora, com uma história autobiográfica. Ali surgiu “12 horas”, solo criado corajosamente a partir de toda a violência que sofreu em um hospital durante um aborto.
Ao Plural, ela falou sobre a hipocrisia de uma sociedade que condena a mulher que decide fazer um aborto e culpa as que sofrem abortamento espontâneo “nos mesmos requintes de crueldade”. A artista também explicou violências que não podem ser vistas como praxe da medicina porque são na prática “formas de punição” e como falar de aborto ainda gera “um silêncio”. Confira a entrevista exclusiva completa com Joy Sangolete a seguir.



Em “12 horas”, você é atriz e diretora?
Eu criei tudo. Tenho a orientação do Jorge Mascarenhas, que é o meu professor no doutorado, temos essa troca. E o diretor Maicon Alison também colaborou e deu assistência, porque a gente precisa de um olhar externo, que realmente faz toda diferença.
Quando você fala de histórias pessoais, é algo que você viveu?
Isso, o aborto aconteceu quando eu estava no mestrado, em 2017. Inclusive, o Alison era o pai. Foi uma situação bem violenta. Depois, eu sentei e escrevi tudo, minha forma de elaboração foi escrever tudo, então tenho várias notas que fui escrevendo do que aconteceu lá, dos meus sentimentos, enfim, de várias memórias. Na época, eu estava trabalhando com outro tipo de processo e deixei tudo isso guardado, porque era meu.
Mas, em vários momentos, quando eu comecei a voltar para o palco essa história voltava a aparecer como algo que precisa ser contado, que precisa ser dito. E, no doutorado, eu entrei num processo de criação artística a partir de material autobiográfico e o primeiro tema que veio forte foi falar do assunto do aborto.
Foi um aborto espontâneo?
Sim, foi um aborto espontâneo. Houve toda uma falta de cuidado em todas as consultas que eu fiz, exceto uma, em que a médica ficou olhando, tentando dar esperança, mas também tentando avisar as coisas. Eu tive um pequeno sangramento e já tinha sido avisada do descolamento, então existia um alerta. Mas, na verdade, fui para o hospital crente de que eu somente iria ver se estava tudo bem com a gravidez e aí me avisaram que tive um aborto espontâneo retido e que eu tinha que fazer uma curetagem e fizeram o processo.
Eu não fui pensando, eu não fui encaminhada e foram muito violentos na forma de lidar com tudo. Naquele momento, o que mais ressoou foi a hipocrisia de uma sociedade que condena uma mulher que decide fazer um aborto, mas – quando o aborto é espontâneo – é como se fosse nada ou ela é a grande culpada, a grande vilã, é tratada na mesma crueldade que uma mulher que decide, nos mesmos requintes de crueldade.
A maneira como eles [equipe do hospital] lidaram com isso, eu acredito que seja uma forma de punição. Não entendo isso como uma praxe, não é assim que deveria ser: mulheres que têm abortamento não podem ficar acompanhadas (pelo menos, naquela época, não podiam) e, depois que acontece o aborto, ficam na sala junto com mulheres que acabaram de parir. No meu caso, foram 12 horas de sangramento e cólicas intensas, é de onde vem o nome da peça. E eu também não entendo isso como uma necessidade médica, assim como esse lugar, amarraram minhas pernas… Tem toda uma série de situações que aconteceram e me fizeram dizer: “Aí tem coisa”. Então, eu vou trabalhar a questão da culpa, como culpabilizam a mulher e como a mulher vive essa culpa, e como as pessoas às vezes tratam isso como se não fosse nada.
Foram aprovados na Câmara dos Deputados e estão em tramitação no Senado dois projetos considerados retrocessos na proteção de menores e na área do direito reprodutivo: o PDL 3/2025, que dificulta o acesso ao aborto como previsto em lei para crianças e adolescentes vítimas de estupro, e o PL 1904/2024, que criminaliza o aborto após 22 semanas de gestação em todos os casos e equipara vítimas a criminosas. O espetáculo conversa com essas situações?
Sim. De fato, eu falo de uma experiência viva porque, como é uma pesquisa, estou em vários momentos elaborando. Nesta versão, apresentada no Festival de Curitiba, está mais escancarado o diálogo sobre como são tratados casos desses, há criminalização do mesmo jeito. Como dificulta, como é doloroso. Mesmo que de forma não tão explícita, eu já trago mais esse diálogo porque me interessa muito.



Como tem sido o público? Você nota que está pregando para convertidos ou há pessoas na plateia que inesperadamente são tocadas pelo espetáculo?
Pela recepção que eu tive, são tocadas. Na primeira vez que eu apresentei, houve um bate-papo e alguns disseram que não conseguiram ficar olhando, um falou que precisou ficar se escondendo atrás da esposa. Mas também achei legal que as mulheres vêm e falam de como se identificaram, ou como um rapaz veio e contou que sua mãe não consegue falar sobre isso e que foi importante entender um pouco do que ela pode ter passado.
E o retorno está muito interessante, é sempre um silêncio. Você fala a palavra aborto, vem o silêncio, então tem um impacto. E o que mais usam, definindo a recepção, é: “Que forte.” Eu também brinco com esse “que forte”, levo ao extremo em cena para falar sobre isso de uma forma bem escancarada mesmo, bem crua.
Você veio para o Festival de Curitiba como participante da Baía de Vozes Insurgentes. Qual a importância dessa mostra?
É superimportante estar nessa mostra, até pelo nome Baía de Vozes Insurgentes, porque vem para quebrar esses silêncios mesmo. As mulheres com quem estou são mulheres fortíssimas, muito potentes, então é um privilégio estar junto com elas nesse lugar de não ficar no silenciamento. Ao contrário, são trabalhos para falar, ecoar, deixar a nossa voz reverberar. É lindo ver que todas trazem temas que se relacionam com o feminino e violências de diversas ordens. Eu espero ter um lugar de contribuição nessas vozes e realmente é mais presente estar aqui.
O Festival de Curitiba é plural e traz para os palcos questões sociais contemporâneas. Mesmo assim, ele acontece em uma cidade considerada tradicionalista e conservadora. Você tem algum receio da recepção da peça no evento?
Primeiro, é um presente estar aqui, porque eu morei muito tempo em Ponta Grossa, aqui pertinho. Por isso eu também entendo a realidade daqui e a diferença que é apresentar esse trabalho. Para mim, é interessante ver o que vai acontecer.
Mas tenho algum receio, até porque é uma proposta bem escancarada mesmo, bem crua. Pessoas podem se incomodar, mas este é o momento da necessidade de falar, se acontecer, vai servir para minha pesquisa.



34º Festival de Curitiba
De 30/3 até 12/4 de 2026
Ingressos gratuitos e pagos até R$85 (mais taxas administrativas), à venda no site www.festivaldecuritiba.com.br e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller - Piso L3 (Segunda a sábado, das 10h às 22h e, domingos e feriados, das 14h às 20h).
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