O 34º Festival de Curitiba acabou. Mas as conversas sobre ele continuam no foyer dos teatros, nos cafés, nos restaurantes, nos bares e até no WhatsApp. Então, pegando carona no que se escuta aqui e ali, o Plural fez uma pergunta a quem mais entende do assunto – os artistas locais: “Qual foi o melhor espetáculo deste ano?” Ah, claro, o motivo da escolha também precisava ser revelado na resposta.
O júri foi selecionado de maneira aleatória, pois não dava para falar com todo mundo, seguindo duas regras: mínimo cinco espetáculos assistidos no Festival e ter um espacinho na agenda para conversar com a gente. O grupo completo teve sete nomes respeitados nos palcos de Curitiba, do Brasil e do exterior – Ana Rosa Genari Tezza, Marcos Damaceno, Maíra Lour, Kenni Rogers, Eduardo Ramos, Pablito Kucarz e Gilmar Kaminski.
Confira a seguir as montagens escolhidas, em lista organizada pelo número de peças que a jurada ou jurado viu. Aproveite para comparar, concordar ou discordar, afinal, opinião todo mundo tem (ou deveria ter).
“(Um) ensaio sobre a cegueira”
Escolhida por Kenni Rogers
Ator, diretor, escritor, professor, mediador de leitura e produtor cultural (trabalhos de destaque na Trupe Periferia, na Mostra Literatura Paraná e na companhia Vigor Mortis)
E também por Pablito Kucarz
Ator, dramaturgo e artista gráfico (trabalhos de destaque na Súbita Companhia)
A opinião dos dois artistas comprova que o espetáculo do Grupo Galpão foi uma das apostas ganhas do Festival de Curitiba. Para encarar o desafio de adaptar o livro do escritor José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, a companhia foi guiada pelo diretor Rodrigo Portella – que venceu a categoria de Melhor Direção no Prêmio Shell com a montagem. A peça também foi indicada nas categorias de Melhor Atriz, para Fernanda Vianna, e Melhor Música, para Federico Puppi.
Por quê? Segundo Kenni Rogers
Rogers diz que o Grupo Galpão tem um trabalho de pesquisa primoroso, com virtuosismo em cena e elenco que toca diversos instrumentos ao vivo. “A direção de Portella traz a questão social dessa cegueira e nos coloca integrados à obra para vermos coisas chocantes. Parece um caos pós-fim do mundo, mas é o agora”. Na sua avaliação, a cena mais ‘destruidora’ é quando as mulheres são levadas e os homens tiram as vendas.
Outro ponto é a incorporação do público como sociedade à obra. “Coloca alguns como participantes e depois nos fazendo ferver nessa liberdade, num grito urgente e explosivo. A gente sai em coro — sentido, doído, mas unido — gritando liberdade.” Ele ainda fala da sonoplastia e da iluminação. “Tem todo o refinamento do Galpão: os ruídos em cena, microfones nos adereços e no cenário, criando desconforto e ampliando a sonoridade, e a luz, que vem como um chicote nos olhos.”
Por quê? Segundo Pablito Kucarz
Pablito Kucarz concorda que o trabalho do Galpão é primoroso. O que mais o tocou nesta montagem foi a potência e a qualidade. “Assistir o Galpão é sempre uma experiência incrível. É um dos grupos mais longevos do nosso país e uma inspiração para quem, como eu, faz teatro de grupo. Além disso, o espetáculo é incrível, pensa sobre violências nos tempos atuais de uma maneira muito potente.”
“O motociclista no globo da morte”
Escolhida por Marcos Damaceno
Dramaturgo e diretor, da Cia. Stavis-Damaceno
Outra das grandes apostas do evento neste ano foi a eleita como melhor da programação por Marcos Damaceno. O solo “O motociclista no globo da morte” vem conquistando crítica e público desde que estreou em setembro de 2025, no Rio de Janeiro-RJ, com sessões lotadas e ingressos disputadíssimos. Em comum com a peça do Galpão, a montagem tem um Prêmio Shell, conquistado por Eduardo Moscovis como Melhor Ator, e o diretor do espetáculo. Sim, Rodrigo Portella emplacou dois espetáculos com sua direção no 34º Festival de Curitiba.
Por quê?
Damaceno diz que, sem dúvida, “O Motociclista no Globo da Morte” foi o espetáculo de maior impacto. “Uma peça refinada, no melhor estilo "banquinho e violão". A dramaturgia é ótima, bem escrita, uma dramaturgia de verdade, e o ator Eduardo Moscovis está excelente em uma interpretação ousada, sem grandes arroubos, sem grandes arrebatamentos. Uma peça de "olho no olho", em que a plateia ficou totalmente presa à história de violência de um homem tranquilo e ao magnetismo do ator.”
“Cabo Enrolado”
Escolhida por Eduardo Ramos
Diretor e dramaturgo (trabalhos de destaque no AP da 13)
O espetáculo é fruto da pesquisa cênica de Julio Lorosh, iniciada após seu irmão ser baleado em São Paulo e ficar paraplégico, em 2015. A tragédia, então, se transformou em arte a partir da experiência do sujeito periférico na capital paulista, com a proposta de deslocar certezas sobre a convivência urbana e revisar o olhar sobre o trabalho.
O enredo fala da trajetória de um jovem até a vida adulta, e também da urbanização das favelas paulistanas, da expansão das linhas de crédito e da reestruturação do trabalho com os aplicativos de delivery. Levando ao palco um gesto estético e também político, a montagem trabalha com humor, poesia, enfrentamento político, funk e hip-hop.
Por quê?
O artista Eduardo Ramos foi ver o espetáculo sem saber nada a respeito e ficou surpreso. “O ator inicia mencionando Plínio Marcos; quando tece as primeiras palavras diz que, ao começar a tocar o tema, o teatro será reduzido. E é tamanha a generosidade da equipe e do ator, dramaturgo e diretor Julio Lorosh que, felizmente, isso não acontece. É uma obra simples e primorosa, que pinta imagens do nosso entorno, afagando dores e alimentando esperanças em um mundo que nos empurra fatalismo, mas nos dá possibilidades de – ainda – enxergar beleza nas delicadezas da nossa existência.”
“Bailarinas Incendiadas”
Escolhida por Maíra Lour
Diretora, dramaturga, arte educadora, atriz e pesquisadora em artes cênicas (trabalhos de destaque na Súbita Companhia)
A peça performática “Bailarinas Incendiadas”, do Grupo Krapp de Buenos Aires, com direção de Luciana Acuña, mistura dança, teatro, música e cinema, além de pedir a participação ativa do público. O ponto de partida são as histórias de acidentes que vitimaram bailarinas nos teatros durante o século 19, mortes trágicas e frequentes, resultantes da combinação perigosa da iluminação com lampiões a gás e os tutus (saias dos figurinos) feitos de tecidos inflamáveis.
Por quê?
A Súbita estreou na Mostra Lúcia Camargo desta 34ª edição do Festival de Curitiba com o espetáculo "Deriva". E, mesmo com sua agenda apertada, a fundadora e diretora da companhia Maíra Lour fez um esforço a mais e assistiu várias peças em cartaz no evento. Ela diz que gostou muito da programação deste ano. “Meu preferido foi o espetáculo Bailarinas Incendiadas, fiquei extasiada com o trabalho maravilhoso e impecável do Grupo Krapp de Teatro, com direção da argentina Luciana Acuña. E também ressalto a ótima dramaturgia e atuação dos espetáculos “Jonathan” e “O motociclista no globo da morte”.
“Piracema”
Escolhida por Ana Rosa Genari Tezza
Diretora, dramaturga, atriz e fundadora da Trupe Ave Lola
“Piracema” celebra os 50 anos de atividade da companhia mineira, considerada a mais importante de dança contemporânea no Brasil. O espetáculo foi criado em 2025, inspirado no movimento migratório dos peixes com coreografia de Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches; a trilha sonora é de Clarice Assad.
Por quê?
Para Ana Rosa, o Grupo Corpo tem uma pesquisa de linguagem que é impecável. “Eles trabalham com os ritmos brasileiros, fazem a gente se sentir muito próximos deles e com uma técnica incrível, o que faz a gente entender que não é capaz de fazer aquilo. Ao mesmo tempo que eles fazem a gente se sentir parte, também nos deixam abismados com tamanha dedicação dos bailarinos”.
Ela também destaca a genialidade de Paulo Pederneiras. “As coreografias deste trabalho são de tirar o fôlego, evocam as nossas raízes e de um jeito que não nega a nossa construção enquanto país, ou seja, as influências do balé clássico e do balé contemporâneo estão lá – mas tem a nossa mão, o nosso jeito de mover, corpos que são brasileiros, com as curvas e as cores do nosso povo.” Para finalizar, ela diz que o Grupo Corpo é um exemplo de companhia: “Dá orgulho saber que eles rodam o mundo todo com esse nível de excelência, levando a nossa cultura tão primorosa para os estrangeiros verem. É legal imaginar que a gente está um pouquinho no mundo também com algo tão espetacular quanto o que eles fazem.”
“Édipo REC”
Escolhida por Gilmar Kaminski
Produtor e diretor de produção (trabalhos de destaque na Súbita Companhia e Flutua Produções)
A peça celebra 20 anos de estrada e pesquisa do Magiluth. A direção é do parceiro de longa data da companhia Lubi (Luiz Fernando Marques - indicado ao 36º Prêmio Shell por “Um Clássico: Matou a Família e Foi ao Cinema”, que esteve no Festival em 2025). Com festa, teatro imersivo, cinema (inspirado em obra de Pasolini), comédia e tragédia, o espetáculo parte do texto clássico de Sófocles “Édipo Rei” para levar ao palco a potência e o experimentalismo que são assinaturas do grupo do Recife-PE.
A peça começa com uma festa em um reino que vive seu momento de renascimento, marcado pelo exagero e a produção excessiva de imagens, de câmeras de segurança e de celulares para redes sociais. Por isso, o Corifeu é a câmera. Durante momentos de descontração, pequenas tragédias podem acontecer e alguém pode estar gravando. Num jogo cruzado entre tempo e espaço, Tebas (ou a Ópera de Arame) transforma-se em uma Recife fantasmagórica e presentificada onde Édipo tem esperança de fugir do próprio destino.
Por quê?
Para Kaminski, o mais encantador foi o inusitado. “Do recorte que pude assistir no Festival de Curitiba, uma das peças que mais me pegou foi Édipo REC, dos pernambucanos do Magiluth. Além da roupagem contemporânea dada à tragédia clássica, o que principalmente impressiona é a forma com que o público é inserido em cena na primeira metade do espetáculo.”
Festival de Curitiba 2026
A 34ª edição do evento foi realizada entre os dias 30 de março e 12 de abril, com programação dividida entre mostras e eventos paralelos. A Mostra Lúcia Camargo apresentou 28 espetáculos selecionados pelos curadores Giovana Soar, Danielle Sampaio e Patrick Pessoa, e no Fringe, foram cerca de 300 atrações, divididas entre espetáculos gratuitos, mostras e ações formativas.
Outras informações no site oficial do evento.