A editora Kotter anunciou o cancelamento de seu prêmio literário de 2025 em função de dificuldades para diferenciar os textos produzidos por Inteligência Artificial. De acordo com a editora, dos 900 textos inscritos, pelo menos 40 continham marcas evidentes de uso de máquinas.
Sálvio Kotter, proprietário da editora, diz que não quer passar por "purista", e diz imaginar que num futuro próximo o uso de inteligências artificiais generativas será mais comum na literatura, e talvez passe a ser visto como aceitável. Num concurso, porém, e no atual estágio da tecnologia, ele disse que não é possível aceitar o uso desses mecanismos.
A editora diz que é possível encontrar algumas marcas evidentes de uso de IA na produção de textos. "A detecção de textos gerados por Inteligência Artificial envolve a análise de múltiplos sinais, embora nenhum, isoladamente, seja conclusivo. O desafio não é apontar a mera possibilidade, mas alcançar a certeza", diz Sálvio.
Entre os sinais citados por Sálvio Kotter estão:
- A perfeição mecânica do texto: a ausência absoluta de erros ortográficos, sintáticos ou de digitação.
- Léxico "traduzido" do inglês: como as IAs operam a partir de modelos linguísticos predominantemente anglófonos, elas tendem a empregar termos como "multifacetado" ou "fascinante" com uma frequência e em contextos atípicos para o português corrente.
- Descuido: a confirmação, por vezes, surge de forma inadvertida, quando o "autor" se esquece de apagar comentários e artefatos deixados pela própria ferramenta durante a geração do texto.
Sálvio afima que a superação deste desafio imposto hoje pela IA acontecerá pelo "amadurecimento do seu uso e pela sua aceitação crítica".
"Não duvido que um autor talentoso, que domine as minúcias da engenharia de prompts, já consiga hoje produzir uma obra de valor integralmente com IA. Mas não nos enganemos: tal processo exigiria um empenho de talento e esforço análogo, ou quiçá superior, ao da escrita tradicional. A IA pode, com comandos básicos, gerar um romance medíocre capítulo por capítulo, mas é impossível que um procedimento simplista como este resulte em algo de verdadeiro valor literário", afirma.
Segundo Kotter, a intenção agora é discutir abertamente uma saída com os próprios inscritos e com especialistas da área. "Dentro do possível, gostaríamos de honrar o trabalho dos mais de oitocentos autores que já enviaram seus originais, considerando-os na reativação do concurso sob novas e mais claras diretrizes", diz.