Faleceu nesta quinta-feira (30), aos 60 anos, a benzedeira Ana Maria dos Santos, uma referência na luta dos direitos das benzedeiras do Paraná. Fundadora do Movimento Aprendizes da Sabedoria (MASA) e integrante da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais, Dona Ana Maria também integrava o Conselho Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais (CEPCT) desde 2013. Sua morte gerou comoção entre movimentos sociais.
O Movimento das Benzedeiras do Paraná comunicou seu falecimento com profunda tristeza e destacou a atuação de Dona Ana Maria na defesa dos territórios, na preservação dos saberes ancestrais e na proteção dos Olhos d’Água do Monge João Maria. “Sua trajetória é marcada pelo compromisso com a vida, com a justiça e com a continuidade das culturas tradicionais.”, escreveu o movimento.
Ana Maria dos Santos é natural do município de Rebouças, no sudeste do Paraná. Seu velório será realizado na Câmara de Vereadores do município e o sepultamento acontece amanhã (1).

Os saberes tradicionais de dona Ana foram registrados no livro Cantigas de Fé e Festa, publicado pela Editora UFPR. Ela contou que aprendeu o ofício de benzer com seu pai, na comunidade de Rio Bonito. De acordo com o livro, dona Ana participou do Mapeamento Social das Benzedeiras de Rebouças e lutou para aprovação da Lei Municipal 1.401/2010, do município de Rebouças, a primeira lei no Brasil a reconhecer a identidade étnica e coletiva das benzedeiras, bem como a regulamentar o livre acesso às plantas medicinais.
“As duas demandas que seguiremos acompanhando em nome da sua luta no CEPCT é referente ao tombamento das igrejinhas (Rebouças e irati especialmente) e a construção do portal na entrada da cidade reconhecendo Rebouças como território de benzedeiras”, conta a presidente do CEPCT, Laysmara Carneiro Edoardo.
Entre terça-feira e ontem (29), Dona Ana Maria participou da reunião do Conselho, em Curitiba, e vinha de outro encontro, em Brasília, reafirmando seu compromisso com a luta coletivo. Seu falecimento ocorreu logo no retorno para Rebouças.
A voz da benzedeira
Em 2021, o Museu Paranaense publicou entrevista com Ana Maria dos Santos sobre sua vida e atividade como benzedeira e defensora dos saberes tradicionais. No áudio, disponível no Youtube, dona Ana Maria revela sua luta em defesa da cultura dos antepassados.
“Venho de uma cultura dos povos tradicionais, que é a prática de benzimentos, orações, simpatias...todo tipo de prática de cura. Uma prática de cura histórica, que era dos meus bisavôs, meus avôs, meus pais também. Hoje em dia eu valorizo muito dentro do movimento das benzedeiras, porque na luta, nas conquistas que as benzedeiras tiveram, no reconhecimento das plantas medicinais, na valorização dos territórios - não só dos territorios faxinalenses, como de todos, porque os movimentos sociais dependem de seus territórios, de seus espaços”.
Mais homenagens
Em nota, o CEPCT destaca que a atuação firme e generosa de Dona Ana Maria “foi fundamental para dar visibilidade às benzedeiras enquanto sujeitas de direitos, fortalecendo a luta por respeito, dignidade e garantia de seus modos de vida, em diálogo com políticas públicas e espaços de controle social”.
“Seu legado se inscreve na história das resistências e na afirmação da diversidade de saberes que constituem nosso Estado.”
A organização Terra de Direitos publicou homenagem a dona Ana Maria dizendo que “Cada pessoa que a conheceu guarda uma lembrança carinhosa.”
A deputada estadual Luciana Rafagnin publicou foto ao lado de Dona Ana Maria e afirmou: “Que sua memória siga viva no legado de cuidado, acolhimento e resistência que deixou.”
O deputado federal Tadeu Veneri também prestou homenagem à benzedeira, a quem chamou de “uma valorosa companheira e uma referência na luta pelos direitos das benzedeiras no Paraná e dos Povos e Comunidades Tradicionais em Rebouças.”