Para muitos estudantes, e até para muitos pais e mães, a aula de Educação Física pode parecer um mero momento de distração — aquela hora em que as crianças e adolescentes podem se livrar do rigor das salas de aula e correrem para atividades que liberam suor e hormônios. Mas é importante saber: nem de longe se trata só disso.
Embora a correria possa mesmo ser divertida (e os esportes sempre terão essa parte lúdica, ainda bem), a ideia de fazer com que os alunos se exercitem, pratiquem esportes e eduquem seus corpos tem muitos outros benefícios e é mais relevante do que poderia parecer num primeiro momento.
De acordo com Raul Guilherme Reckelberg de Goes, professor de Educação Física do Ensino Médio do Colégio Medianeira, a atividade física apresenta diversos benefícios, inclusive em diferentes dimensões.
- Esfera cognitiva: melhoria da atenção e da capacidade de concentração.
- Esfera biológica: aquisição de comportamentos saudáveis, fortalecimento muscular e ósseo.
- Esfera psicológica: evita a depressão por conta da liberação hormonal e contribui para uma autoimagem mais positiva.
- Esfera social: aumenta o círculo de amizades e de convivência e estabelece vínculos.
"Esses são apenas alguns exemplos de como a atividade física pode ser importante para qualquer pessoa. Agora, imagine para uma criança ou adolescente que ainda está em desenvolvimento, não é? Por isso, a recomendação mundial é que essa faixa etária tenha, pelo menos, 300 minutos de atividade física moderada por semana", afirma o professor.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023), no Brasil, 84% dos jovens não atingem essa recomendação. E a escola tem papel fundamental para tentar elevar esse padrão.
"É preciso promover comportamentos saudáveis e conscientização corporal desde cedo, uma vez que diversos estudos indicam que os hábitos adquiridos na infância e na adolescência, boa parte das vezes, são aqueles que são levados para a vida adulta", afirma Raul Goes.
Mente sã
Para o personal trainer e professor de Educação Física da rede estadual de ensino do Paraná, Rafael Waldrigues Boiko, a expressão originada na Grécia, segundo a qual é preciso ter um corpo são para que haja mente sã, continua sempre atual.
"Na escola, percebemos que os alunos que se movimentam, expressam-se e interagem por meio da atividade física, desenvolvem não apenas o corpo, mas também habilidades emocionais, cognitivas e sociais. A Educação Física é uma aliada na construção de equilíbrio, autoestima e bem-estar, promovendo saúde integral e favorecendo o aprendizado em todas as áreas", afirma o professor.

Segundo ele, porém, nem sempre as famílias e as próprias escolas dão o devido valor à atividade física. "Sou professor há quase 20 anos e vejo um problema mais profundo, a desvalorização pedagógica da educação física. Isso acontece por diversas camadas do ambiente escolar: diretores, professores que não são da área, pais e alunos. Essas pessoas muitas vezes pensam que a educação física é aula vaga", conta.
Rafael lembra que nas discussões e propostas durante a implementação da Reforma do Novo Ensino Médio, houve uma tentativa de acabar gradualmente com a educação física dentro das escolas. "Felizmente, não aconteceu isso. Quero acreditar que, por ora, não existe risco de tirarem essa matéria do currículo escolar", diz.
Olimpíada
No Medianeira, uma das formas de promover a atividade física é a Olimpíada anual que já acontece há cinco décadas. Durante uma semana, as aulas normais param e os alunos de cada ano participam de diversas modalidades coletivas, como futebol, vôlei, basquete e queimada - há também modalidades individuais, como o xadrez.
"A Olimpíada envolve o colégio inteiro", conta Raul Goes. "Por meio das vivências proporcionadas, desde a preparação do evento, formação das equipes, definição de camisetas e cores, a abertura, as oficinas e, finalmente, os jogos. Os estudantes experienciam, interagem, frustram-se, aprendem a lidar com a vitória e com a derrota, a agir com empatia e fair play, entre outras várias coisas, sempre valorizando a educação cristã e o cuidado com o outro", conta o professor da Rede Jesuíta de Educação.

Por isso, a semana das olimpíadas é vista como um dos momentos mais ricos do ano. E os alunos também sabem do valor daquilo que é oferecido. É o que conta o aluno Marcelo Leyser, que participa dos jogos desde o sexto ano do Fundamental e neste ano se despede com a participação no terceiro ano do Ensino Médio.
"O clima de competição é bem engraçado na verdade, porque às vezes a gente se provoca, mas no fim de tudo está todo mundo brincando e se divertindo junto", conta Marcelo. Agora, como aluno do terceirão, ele participará de um momento peculiar: por estarem se despedindo do colégio, os estudantes do último ano do Médio fazem uma cerimônia na abertura das Olimpíadas em que relembram sua trajetória escolar e falam sobre o futuro.
"A gente está se preparando faz uns dois, três meses para organizar roteiro, preparar tudo. É triste saber que vai ser a última vez, mas também é bem emocionante", conta ele.