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"Aqui é Rone preta": PMs podem ir a júri popular por morte cometida por engano em 2022

Agentes respondem por homicídio e teriam ameaçado mulher da vítima. Advogado diz que eles reagiram em legítima defensa

"Aqui é Rone preta": PMs podem ir a júri popular por morte cometida por engano em 2022
Foto: Divulgação/PMPR

Dois policias militares da Rone (Rondas Ostensivas de Natureza Especial) deverão ser julgados pelo Tribunal do Júri pela morte de um homem de 35 anos em Marechal Cândido Rondon, no Oeste do Paraná, em novembro de 2022. Ivano Schuster Vieira teria sido morto por engano durante uma operação autorizada pela Justiça contra um suspeito de tráfico de drogas que era seu vizinho.

Os policiais alegaram que o suspeito reagiu e que foram recebidos com tiros, versão contestada pela viúva de Vieira. Após os PMs entrarem no apartamento errado e matarem seu marido, ela foi levada em uma viatura da Rone e teria gravado a conversa com os policiais.

No áudio, um dos PMs teria ameaçado a mulher de simular um flagrante de 5 kg de maconha para incriminá-la, caso ela não mudasse a versão. O advogado dos policiais, Cláudio Dalledone Jr, nega a veracidade da gravação (veja abaixo o posicionamento da defesa).

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A primeira audiência de instrução do processo foi no dia 15 de junho, na Vara Criminal da comarca de Marechal Cândido Rondon. Ainda serão ouvidas testemunha, incluindo todas as indicadas pela defesa, e os réus serão interrogados. Após as manifestações finais do Ministério Público do Paraná (MPPR) e da defesa, o juiz Clairton Mario Spinassi vai definir se os réus serão julgados no Tribunal do Júri. Os policiais foram denunciados por homicídio qualificado pelo MPPR. Eles também respondem por fraude processual na Justiça Militar.

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"Perdeu o marido, mas era um bosta"

A polícia vinha monitorando uma lanchonete no bairro Ana Paula, em Marechal Cândido Rondon, onde funcionaria um ponto de tráfico de drogas. A Justiça autorizou uma ação de busca e apreensão contra o dono da lanchonete, que morava em cima do estabelecimento.

A Polícia Militar em Marechal Cândido Rondon solicitou apoio da Rone para cumprir mandados e a operação foi realizada no dia 8 de novembro. Segundo o processo, os policiais entraram no apartamento vizinho, onde Ivano Schuster morava com a mulher. Ele foi morto com três tiros.

Os policiais alegaram que foram recebidos com tiros e que dois deles reagiram. No local, teriam sido apreendidos 4 kg de maconha, uma quantidade de cocaína e um revólver calibre 38 milímetros.

A mulher de Vieira negou a versão: disse que Ivano não tinha arma em casa e que um dos agentes deu tiros na porta do apartamento, para simular uma resistência à ação policial.

Um áudio que consta do processo teria sido gravado pela mulher de Vieira após a ação, dentro uma viatura da Rone. Na gravação, um dos policiais teria ordenado a ela que afirmasse em juízo que não estava em casa no momento da operação:

"Você não tá entendendo, guria? Você não é 'cadeieira'? Não puxou a cadeia? Porra, mas você não entende a parada? Então eu te prendo. Pronto, quatro quilos de maconha e já era. Se você não se acalmar, 'nós vai arrochar' pra você também, caralho. Beleza? Se eu falo que você não tava na casa, você não tava na casa, você tá fora. Você é inocente. Beleza? Perdeu o marido? Perdeu o marido, mas era um bosta, um vagabundo, que tava fazendo pelas tuas costas coisas que você nem sabia. O cara que atirou nele podia chegar lá e atirar em você. Não tava nem aí, atirou nele e atirava em você também. Em vez de agradecer que tá viva. Vai, segue teu baile, segue teu caminho".

Em outro trecho, o agente teria ameaçado a mulher de prisão:

"Agora, se você for querer chorar hoje pra mamãe, pra qualquer outra coisa, o pau vai torar pro teu lado. Você tá me entendendo? Aqui é Rone preta, você não tá lidando com qualquer polícia não. Beleza? Estamos acertados ou não? Você abriu o bico você vai presa. E vai contar pra tua mãe que você chegou em casa e a polícia tava lá. Beleza? Pra mãe dele você não tem que falar nada. Você tava na rua, você não tava em casa."

Defesa contesta veracidade do áudio

Segundo o advogado Claudio Dalledone Jr, que defende os policiais, o áudio foi declarado como falso pela Justiça Militar e os policiais foram recebidos com tiros e o suspeito tinha envolvimento com o tráfico de drogas.

“O Serviço de Inteligência de Marechal Cândido Rondon, da P2 do batalhão de lá, levantou que existia um apartamento e um bar. Esse apartamento e esse bar foram alvo de busca e apreensão. Lá chegando, eles responderam a um ataque de um sujeito que tinha tido um confronto 15 dias antes, que estava com cinco disparos de arma de fogo, que sobreviveu devido à guerra de tráfico da região e que estava armado e tinha razões para estar armado para se defender e defender a guerra que ele estava entabulando com uma organização criminosa", disse o advogado.

De acordo com Dalledone, a mulher de Ivano mentiu. "Mente quando diz que os policiais efetivamente executaram o marido dela. Tanto mente que o próprio marido já registrou um boletim de ocorrência por falsa comunicação de crime. Ela é um habitué em faltar com a verdade perante a administração da Justiça", afirmou. "Ela está envolvida e menos ainda tem validade aquele áudio. Um áudio que ficou comprovado junto à auditoria da Justiça Militar que não tem procedência, não tem perícia. Os policiais negam que aquele padrão fonético seja deles. Esse áudio não corresponde com a realidade. Esse áudio não é dos policiais".

Dalledone disse ainda que os policiais agiram em legítima defesa. “Isso já ficou decretado pela Justiça Militar. Os policiais agiram em estrito de cumprimento do dever legal, agiram em legítima defesa e nós não vamos admitir que uma pessoa que visa buscar indenização do Estado venha com uma versão mentirosa, falseando a verdade, fazer com que a Polícia Militar do Estado do Paraná seja colocada no banco dos réus".

Em nota, a Polícia Militar do Paraná informou que vai aguardar a conclusão do processo:

A Polícia Militar do Paraná (PMPR) informa que não haverá manifestação sobre a decisão judicial neste momento. Eventuais posicionamentos oficiais serão realizados somente após o trânsito em julgado do processo, em respeito aos princípios legais e ao devido processo.

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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