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Abdellah Taïa e "Aquele que é digno de ser amado"

Sofrimento, submissão e liberdade

Abdellah Taïa e "Aquele que é digno de ser amado"
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Antes de enviar a segunda parte sobre Jon Fosse, uma pausa para discutir outro assunto que ando pesquisando.

Ao começar a segunda parte desse livro de Taïa, tive a impressão de estar lendo um Gide às avessas. Se Gide descrevia suas aventuras no Norte da África entre o XIX e o XX, aqui o narrador de “Aquele que é digno de ser amado” faria o mesmo na direção contrária: descreveria suas aventuras na França. Na terceira parte, o próprio autor dá essa pista, que de pista se transforma num fio condutor. Usei o itálico para “aventuras” porque se trata de aventuras bem distintas.

Eu diria que há bastante coisa aí a ser investigada. Autores, pintores, gente das altas rodas europeias deixaram escritos e trabalhos sobre a África árabe: do mesmo modo que o barão von Gloeden viajava para o sul da Itália (para fazer o que hoje chamamos de turismo sexual) para fotografar “efebos” morenos como fossem esculturas greco-romanas (seus trabalhos fazem sucesso até hoje, com objetivos distintos), Gide, Wilde, Evelyn Waugh, deixaram escritos (romances, notas, diários) bem claros sobre o que iam fazer seus personagens ou eles mesmos em países como Tunísia, Argélia e Marrocos, em particular. E não era exatamente um levantamento sobre a rica geometria dos azulejos ou, na falta de uma iconografia, proibida ali nessa região do Islã, a observação da arquitetura das Masājid (mesquitas). De modo mais sutil ou mais direto, sabe-se que o proibido em Paris ou Londres (pela força da lei ou das práticas morais) era facilmente encontrado em lugares pobres, com crianças, adolescentes e adultos facilmente dobráveis pelo poder do dinheiro do colonizador. O que digo serve para a Taormina de Gloeden e a Túnis de tantos outros.

Mas não discuto aqui, claro, a leitura que esses artistas todos tiveram dos países colonizados. Não falarei das imagens estereotipadas da rica pintura do período – ou de uma parte do que Said nomeia orientalismo (que, óbvio, também se estende à África) e sim da literatura produzida no período, que, a essas alturas, lidava com a adjetivação da época, imortalizada pelo próprio Wilde (“amor que não pode dizer seu nome”) e pelo próprio Gide, que entre 1911 e 1920 publica uma série de ensaios que resultou num livro bem estranho, que hoje seria considerado bastante equivocado, “Córidon”, em que ele propõe um nome que não pegou: amor urânico (com base provavelmente em Ulrichs). É o que se chama, hoje, homoafetividade.

É uma literatura amarga, quase nunca emancipatória, eivada de medo, e assim se seguiu nas décadas seguintes. As obras mais famosas sobre o tema, de autores dos dois lados do Atlântico (não se falava, como ainda pouco se faz, sobre Ásia, África, América Latina, com exceções curiosas como as de Adolfo Caminha) carregam – e por vezes exageram – nas tintas, não sem razão, das relações entre homens. É uma literatura que deixa herdeiros, por assim dizer, como Gore Vidal, James Baldwin, e mesmo Jean Genet, que escrevem obras emblemáticas e igualmente pesadas e tristes. Como poderia ser diferente? Como esses autores falariam da felicidade (embora Whitman já houvesse tentado) num mundo extremamente violento com gays?

Para quem deseja estudar essa literatura: “The city and the pillar”, “Giovanni’s room”, “Notre Dame des Fleurs”. Ah, você pensou em Mishima? O então ocidentalizado Mishima, que escreve romances autobiográficos como “Cores Proibidas”?  São obras sobre protagonistas torturados, perseguidos, incompreendidos, romances com desfechos tristes: o personagem morre, é preso, fica sozinho, sem esperança de redenção ou liberdade.

Demoraria muito tempo para que a literatura trouxesse personagens gays, livres, felizes, com uma “vida comum”, igual à de outro cidadão qualquer. Outras produções culturais, como o cinema, tiveram severas proibições para com o tema.

No começo do século atual um conto meu ganhou o segundo lugar num prêmio literário de relevância. Chamava-se “Naumaquia”. Soube depois – e falo isso, hoje, sem pudores, dado que faz ¼ de século – que Moacyr Scliar, então presidente da banca avaliadora, não aceitou dar o primeiro prêmio a um conto com um personagem gay. O grande problema para Scliar não era o homem gay em si, mas a lógica do conto: nessa narrativa, meu personagem era um homem feliz e o problema residia no pai dele, que era infeliz por não “entender” a felicidade do filho. Scliar considerou falta de lógica. A pergunta que fez foi “como pode um homem gay ser feliz?”. Esse tom, acredito, o da dúvida de Scliar, ainda existe. Se Gide era torturado, se Gore Vidal era torturado, se Mishima era torturado, como um homem gay paranaense poderia ser feliz?

Mas era momento, mesmo, de uma escrita literária que tentasse resgatar os gays da culpa, do terreno do “feio” (uma questão, aqui, psicanalítica grave que discutirei outro dia) e do “errado”, do torto e do pecaminoso. Muitas obras, tanto literárias quanto não literárias, tentaram isso. Surgiram personagens que fizeram sucesso pela sua naturalidade em ser(em) gay(s), assim como seguiu-se o de sempre: a caricatura, velha conhecida nossa, desde a Antiguidade. Se Ang Lee filma “The Wedding Banket”, com um lindo final feliz, e James Ivory vem com um “Maurice” amenizado, os produtos televisivos trazem personagens gays “assumidos” mas caracterizados como fúteis, consumistas, vazios, sexualizados ao extremo, etc. Não pode? Pode: os homens gays são seres humanos que podem ter todas essas características, mas a indústria da cultura, como já disse aqui tantas vezes, sequestra as grandes pautas humanas, na pior maneira possível – o que é complicado ver até mesmo para pensadores e protagonistas do universo gay/queer/lgbt. O gay palatável, para grande parte das audiências, precisa ser uma caricatura.

Os anos passaram, a palavra “homossexualismo” foi banida, o adjetivo “gay” passou a abranger mulheres (e outras transversalidades), o adjetivo (ou seria um substantivo?) “queer” tem tentado ocupar um espaço problemático, fala-se em “performance” e certa sigla de uma (não) comunidade ganha de tempos em tempos uma letra a mais. Aquele amor que não dizia seu nome berra aos quatro cantos seu direito de existência, suas dores, contradições, conquistas. Mas, como muito bem apontado por um amigo doutorando, ainda é difícil encontrar obras que sejam o contraponto gay para a iniciação amorosa, tão comuns na produção heteroafetiva. “Me chame pelo seu nome” seria uma dessas obras? O final não é lá muito feliz...

A obra de Taïa está dentro desse contexto.

Tentarei mostrar o que há de interessante e necessário, do ponto de vista discursivo, o que há de problemático, do ponto de vista da fatura do romance.

Taïa discute a situação de um homem gay, e a situação de um homem gay que escolheu a França para viver, um homem que vem de uma ex-colônia francesa, um homem que abandona sua língua para adotar a língua do colonizador. Se por um lado ele foge da violência de seu país, muito simbolizada pela figura e presença de uma mãe controladora e amarga, no país de destino ele é apenas um refugiado ou um sujeito “da colônia”, um magrebino. Já há coisas suficientes aí para escrever mil romances – e há de fato no mercado diferentes autores que tentaram lidar com isso, fosse do ponto de vista francês para lidar com o “outro” que chega, fosse do ponto de vista desse “outro”, que vai (ou que recebe o francês em sua terra). O narrador de Taïa carrega um ódio imenso, de tanta coisa, algo que fica muito claro desde o começo do romance, que é a junção de diferentes cartas (não direi de diferentes vozes; isso é um problema da ordem da teoria da literatura que foge à maioria da crítica).

A relação que o personagem central tem com os homens franceses é catastrófica. Por um lado, ele se sente aquele “outro”, o magrebino, destroçado pelo poder francês, por melhor que sua vida fosse em termos de tranquilidade financeira e bem-estar. Para ele, a falta de amor materno tem “culpa” nesse processo, ter sido preterido pelo irmão (“aquele que merece ser amador”, a certa altura do romance; depois o leitor perceberá que o título do romance é mais amplo). Mas, ao mesmo tempo, o tipo de relação que ele tem com os homens (em particular um, com quem vive uma longa relação) é um problema. Não há e nunca haverá paridade de armas na relação entre um homem francês (passivo ou ativo) e um marroquino, ou um tunisiano ou um líbio. Sempre a relação será mediada pelo binômio colonizador/colonizado. O protagonista “absorve” essa destrutiva forma de relação e a transfere para outras.

Do ponto de vista de uma teoria queer, do ponto de vista psicanalítico (tão expandido na França...), do ponto de vista histórico, sociológico, político, há muito o que ser discutido em Taïa.

O que não funciona? Primeiramente as pistas que Taïa escancara. Ele fala abertamente de Gide e de Wilde no Norte da África, mas o que poderia ser apenas uma referência história ou mesmo literária – ou ambas – fica óbvio, sem margem para a dúvida. Ele não deixa que os leitores tirem suas próprias conclusões. Veja: não se trata de um artigo ou de uma avaliação sociológica. É um romance. O narrador, a certa altura de uma carta, diz abertamente ao seu companheiro: “você não teve escrúpulo em reproduzir em mim, no meu corpo, no meu coração, tudo o que a França se recusa a ver: o neocolonialismo”, para, mais abaixo, falar em “ideologia”. Parafraseando Marguerite Duras: quem escreveria isso numa carta, gente? Sim, claro, isso não é uma carta. Há diferença entre uma carta e um romance epistolar e mesmo um romance feito apenas com missivas e mesmo um romance que tem aqui e ali cartas. Mas as cartas, aqui, embora lidem com problemas tão espinhosos e por isso mesmo importantes, perdem bastante como escrita literária. Falta Taïa desenhar um esqueminha de colonizado/colonizador e apontar com setas as palavras da moda.

Outro ponto é a semelhança da voz que fala em todas as cartas. Lógico: nem entrarei aqui na diferença entre um romance monológico e um romance polifônico (coisa para escritores muito raros e muito especiais em relação à escrita literária). Ok, durante séculos e ainda hoje a maioria dos romances é monológica (ou seja, tem a consciência de um ente que liga todos os personagens), mas há modos e modos de se fazer isso. Outro ponto, ainda ligado às cartas, é que elas têm diferenças de tamanho tão grandes (o que não seria um problema, certo?), mas que acabam criando a sensação, por exemplo, de que uma questão é bastante discutida e outras, não. A última carta, por exemplo, finaliza de modo abrupto, quase irregular com o restante do romance, dando a impressão de algo apressado e mal-acabado mesmo. Caso se argumente que é porque a personagem morre, eu direi que ela teria tido toda a vida pregressa para ser um pouco mais generosa com as páginas escritas.

Mas essa literatura tem feito muito sucesso no mundo atual (líquido, pós-qualquer-coisa-que-caiba-aqui, hiper-real, do cansaço, das IA?), um mundo de pressa e de abordagens de grandes questões pelas beiradas. Em nenhum momento eu diria que os discursos trazidos pelo autor não são relevantes (assim como as questões trazidas por Édouard Louis ou Annie Ernoux), mas mentiria se dissesse que se trata de uma “alta literatura”, proposta dessa coluna. Não estou sozinho nessa discussão: de modo direto ou indireto, há gente tão distinta como Luís Felipe Miguel, Rodinesco, Miskolci, Finkielkraut, trazendo interessantes discussões, ainda em andamento e, espero, jamais com um ponto final.

Não posso negar uma ousadia: “aquele que é digno de ser amado” é um dos nomes de Allah. Taïa talvez goste de andar na beira de abismos.

P.S.: a) falo em “África árabe” aqui, mas sabemos da diversidade de povos no Norte da África, certo? b) A obra ganha relevância com o crescimento da direita na Europa; não nego. c) Sobre ser exótico em terras estrangeiras, bem... falo disso outro dia. d) Logo, logo, trarei outros exemplos de romances atuais sobre o tema: trabalho em andamento.

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