Já comentei aqui e em outros lugares onde escrevo que o Nobel atualmente parece um jogo de gato e rato: com forte presença do mercado editorial e não exatamente de uma pesquisa literária, o comitê prefere mirar num certo lugar do planeta e atirar num bicho que não era o mais lógico.
Alguns exemplos: escolheu Kazuo Ishiguro no lugar de John Banville (havia uma disputa acirrada entre ambos) ou Ian McEwan, que o comitê parece odiar. Escolheu Louise Glück e não Anne Carson, quando quase todo mundo apostava na poeta canadense (de mesma língua). Preferiu Abdulrazak Gurnah a Ngũgĩ Thiong´o, numa das grandes surpresas das últimas décadas. Preferiu Annie Ernaux a Houellebecq. E, recentemente, olhando para o Oriente Extremo, o que ocorre com muita raridade, escolheu a coreana Han Kang no lugar da chinesa Can Xie (apontada desde que foi traduzida no Ocidente por gente de peso como Susan Sontag como a merecedora do prêmio) ou no lugar de Haruki Murakami, para desespero de milhões de leitores do escritor japonês mundo afora.
Assim, bacana a língua coreana ser homenageada pela primeira vez. Curioso também que tenham escolhido Han Kang no lugar de Ko Un, considerado o maior poeta da Coreia. As escolhas apontadas acima sugerem autores mais palatáveis... mais isso é outro papo, para outros cafés.
Vamos dar uma olhadinha no mais famoso livro da autora coreana.
O livro se divide em três partes: a “vegetariana”, centrado em Yeonghye, a “mancha mongólica”, centrado em seu cunhado, e “árvores em chamas”, centrado em Inhye, irmã de Yeonghye. O nome dos homens ou não são ditos ou aparecem uma vez.
Temerário dizer que é um livro escrito por uma mulher sobre mulheres? Talvez seja uma leitura possível. Como essa seara é espinhosa, e não tenho lugar de fala, seguirei outro caminho.
Na primeira parte do livro, o leitor pode se perguntar se se trata de uma narrativa fantástica, daquele tipo de fantástico que Haruki Murakami faz em algumas de suas obras, como “Kafka à beira-mar”. Na segunda parte, há uma zona cinzenta, em que o leitor pensará em violências disfarçadas (pensei muito em “Jardim de cimento”, de McEwan, por motivos variados), pois o que ocorre ali está entre o terno, o sensual, mas também a um tipo de violência sexual (ao menos é assim que Inhye lerá). Já a terceira parte, o que era sonho, irrealidade, um universo fantástico caminha para os corredores dos hospitais psiquiátricos, em que tudo é médico, científico, explicável pela ciência. Juntando as três partes, o leitor poderá se perguntar se está diante de uma fábula, de uma história “real” (ou seja, diante de uma descrição que começa pela cabeça de Yeonghye e termina na visão de Inhye sobre as coisas), se está diante de uma fábula sobre as loucuras do mundo (e comer carne aí entraria como uma manifestação negativa do homem sobre a natureza) ou se está diante da narrativa que mostra como uma pessoa pode enlouquecer.
A loucura, velha conhecida da literatura, com nomes diferentes, existe desde sempre: Cassandra teria enlouquecido, Aquiles teria enlouquecido no Hades, guerreiros teriam enlouquecido ou ficado ensandecidos com o poder ou com o cheiro do sangue. De todo modo, loucura ou fábula sobre a loucura do mundo, alguns pontos são mais importantes que outros: a) o não que Yeonghye decide dizer ao mundo (ou a si mesma); b) a reação a esse não, uma vez que esse não quebra o ordenamento do mundo (tudo era bom quando ela era uma esposa “comum”, palavra que seu marido, Jeong, usa); c) a reação masculina ao não de Yeonghye, desde o marido, primeiro a sofrer os “danos” desse não, depois a família dela, em particular a irmã mais velha, sobre cujos ombros recai a obrigação de cuidar de Yeonghye; d) os sonhos de Yeonghye, sua insônia, depois a insônia da irmã, a ligação de sangue de ambas, um cordão umbilical entre duas irmãs; e e) que poderia estar junto ao ponto anterior, o sangue, elemento importante em todas as partes do livro, seja ele vermelho (o sangue ele mesmo), seja ele verde (a seiva vegetal).
Todas as críticas que li giram em torno de uma mulher que decidiu parar de comer carne, mas se a crítica assim entende o livro é porque só leu a parte um. Em verdade, do modo como o livro está dividido, e com as repetições que Han Kang escolheu para a estrutura do romance, há três livros dentro de um, como se três contos (em separado) fizessem um livro ou como se o romance fosse uma novela dividida em três capítulos (aqui obviamente me refiro à definição clássica de novela, que se opõe ao romance e ao conto). Então temos: a) a história de como Yeonghye resolveu parar de comer carne (e num país como a Coreia) e como tal decisão impacta a vida das pessoas, com pequena tendência ao fantástico (não pense apenas em Murakami aqui, mas como a literatura e o cinema coreanos têm recebido o fantástico ocidental, adaptando-o à sua cultura, mesclando-o a narrativas locais, sendo Murakami, justamente, o grande mestre disso); b) a relação entre Yeonghye e seu cunhado, valendo lembrar que seu cunhado a desejava e por sua vez o marido de Yeonghye desejava a irmã dela. Trata-se de um elemento que não pode passar despercebido: são os homens que desejam, eles que exploram, eles que se aproveitam, etc.; como disse acima, a relação sexual da segunda parte (num momento em que o primeiro casal já se separou e o segundo apenas tem relações se o marido vê na própria mulher a irmã desta) está entre o sensual e o estupro de vulnerável, parte que tende para uma fantasia erótica (a autora inclusive usa uma palavra da língua japonesa – não da coreana – que se refere à imagem erótica, muito comum no Japão), shunga; c) a finalização sobre o que Inhye fará com Yeonghye, embora essa parte mais próxima do chão também traga elementos do “estranho”, como os sonhos de Inhye e sua insônia, mal que acometeu Yeonghye desde o início.
O elemento vegetal é interessante de ser analisado. Se Yeonghye se curaria mais rápido de uma mordida de cachorro se comesse o cachorro, talvez se ela se alimentasse apenas de vegetais ela também absorveria a “vida vegetal”. Se algo anormal ocorre com ela, algo que a literatura não poderia explicar e sim apenas descrever, é isso que ocorre. No entanto, se ela está louca, se perdeu a razão, o vegetal aparece aí como um delírio. Aqui, abro um adendo: alguns grupos de estudos literários levaram ao extremo a “questão vegetal” no livro. Veja o que Stefano Mancuso diz logo no começo de “A planta do mundo”: “[as plantas] contam a história de cada de um nós”. Há uma certa leitura deste livro como “todos nós somos plantas” e, a partir daí, toda uma série de discursos sobre plantas, vegetação – e por extensão o meio ambiente, quando esses discursos alcançam outros, como os de Vandana Shiva – se constrói sobre o mundo atual e suas utopias. Wolff diz, em “Três utopias contemporâneas”: “[devemos morrer] e há algo nisso que deve mobilizar o que nos resta de esperança”. Junte esses discursos atuais todos e terá um bom caminho para ler e discutir “A vegetariana”.
Muita coisa poderia ser dita a partir do romance, afinal. No entanto, isso não retira suas fraquezas como romance, em particular a parte 3, justamente onde o romance desmonta. Como discurso, o romance de Han Kang permite várias entradas, mas talvez não como literatura. Confuso isso? Ou talvez seja hora de repensarmos o que é literatura. Falo sério quando digo isso. Não se trata de uma bravata.
A primeira parte tem traços daquele tipo de realismo mágico rebocado por Garcia Márquez e que teve como principais expoentes Laura Esquivel e Isabel Allende. Trata-se de uma literatura bem datada, mas a questão não cabe aqui discutir. É todo do romance que interessa e tenho tido a tendência a pensar que ela vai fazendo cada vez o mágico mais rarefeito nas duas partes seguintes, de modo a deixar mais espaço para outras discussões, como a psicanalítica ou ainda do direito ou da medicina.
Pode-se perguntar se se trata da história de uma doença galopante e a incapacidade de as pessoas ao redor do doente entendê-la (primeiro o marido, depois o pai violento, ainda a irmã, que toma uma decisão difícil, a de internar Yeonghye, talvez acelerando seu fim) ou se trata de uma fantasia/alegoria sobre a revolta da natureza. Colocado assim, “revolta da natureza”, pode parecer idiota, mas, além de ousado, teria tido uma resposta bem interessante em termos de discussão (já vi o livro, inclusive, discutido por quem estuda as relações entre literatura e meio ambiente: veja comentários acima: aproveito para sugerir a leitura de “Vozes vegetais”, da Editora Ubu).
De um ponto de vista psicanalítico, há várias entradas possíveis. Eu falaria da solidão e do desamparo ou discutiria o sono e a erótica do sono ou a insônia como oposto do sono e do dormir. O sono, por exemplo, é um elemento muito importante (senão na literatura oriental) na literatura de Murakami, por exemplo, autor japonês com quem Han Kang parece dialogar. Mas a psicanálise não é minha área e paro por aqui.
Então trata-se de um livro muito rico, certo? Mas a pergunta que poderíamos fazer é: trata-se de um autor ao nível do Prêmio Nobel? Muita gente me perguntou isso. Não gostaria de voltar aqui às mesmas explicações de sempre sobre o Prêmio Nobel. Mas uma observação importante eu preciso fazer: não é de hoje que o Nobel premia certa região (ou país ou ainda um idioma), escolhendo aquele candidato que ninguém esperava (como tentei mostrar acima, com exemplos bem claros). Isso não é novidade e já ocorreu inúmeras vezes. Num ano em que grande parte dos interessados no prêmio aguardavam ansiosos pela premiação de Can Xie, a escolhida foi Han Kan.
Conversando com outros amigos especializados em literatura (não outro leitores de literatura, e sim estudiosos da literatura), falamos sobre a tendência do Prêmio Nobel de se aproximar de outros prêmios como o Booker Prizer Internacional (que premia obras traduzidas para o inglês). É um grande jabutizão esse prêmio. É um meio que vale-tudo do mundo dos prêmios internacionais literários: cabe meio de tudo ali e a tradução, óbvio, pesa muito mais que o livro original, até pelo simples fato de o comitê que escolhe o vencedor não ler as vinte línguas (dentre 6.000 existentes) que concorrem a esses prêmios. Foi um modo de o mercado internacional abranger um escritor cingalês ou um escritor búlgaro...
O grande problema desses prêmios é que, a despeito de haver grandes nomes da literatura atual mundial e realmente grandes e impressionantes obras, como as de Kraznahorkai ou Cărtărescu , o prêmio premia um autor do momento. A grande maioria dos premiados desaparece como uma nuvem de verão. Afinal, como disse Borges sobre a poesia: “não é incomum que um escritor COMETA ao menos uma vez na vida um bom poema”. E é isso.
Em paralelo, essas obras “pequenas”, de momento e da moda, premiadas, no geral têm a ver com – também – discursos da moda e eu temo dizer apanhados no susto, meio que pela superfície. Já disse aqui tantas vezes que os discursos são importantes (negritude e branquitude, causa lgbt, xenofobia, meio ambiente, etc.), mas algumas obras (ou grande parte delas) é apenas um respiro de toda a realidade possível de ser discutida, algo que caberia mais ao meio acadêmico especializado do que ao autor discutir? A literatura, ao menos era para ser assim, seria a manifestação artística desses discursos todos – e não é que o tem acontecido. Ou, como disse acima, a ideia de literatura precisa ser repensada.
Han Kang não foi a primeira autora/autor agraciada com o Nobel a ganhar o Boozer Prizer Internacional. A autora polonesa Olga Tokarczuk também e autores como Annie Ernaux ou já o ganharam ou foram indicados(as). Han Kang, por exemplo, é uma das mais jovens pessoas a ganhar o Nobel, ainda sem uma obra, digamos, consolidada. Não se confunda “obra consolidada” com número de leitores e likes nos canais que vc conhece.
Talvez todo mundo saia perdendo, em verdade, exceto as grandes editoras (e hoje as plataformas) que vendem os livros dos premiados. Por incrível que pareça, aquela grande literatura, uma das formas de arte mais antigas da cultura geral humana, vai ficando de escanteio – e seus estudiosos parecem loucos, como eu, rancorosos, que berram no meio de milhares de “especialistas” numa área sobre a qual nunca leram uma linha sequer, um troço chamado “teoria literária”.
Só para fechar, ao menos hoje, li coisas do tipo “esse livro foi a melhor coisa que li na vida” (disse o jovem de 20 anos”. “Ah, esse livro mexeu muito comigo. Eu me vi nele” (processo narcísico longe de um analista que talvez pudesse ajudar). Meu exemplar, ganho de alguém, foi comprado num sebo. Veio com “comentários” de alguém. Comentários do tipo “conheço isso mais ou menos”, “aqui aparece a culpa dela”, “estranho o modo como os homens são tratados nesse livro”, e ainda caretinhas de espanto para as cenas “eróticas”. A caretinha mais horrorizada foi desenhada quando um personagem diz ao outro “quero comer vc”. Acho que era isso.
P.S.: Já levei dois puxões de orelha numa rede social aí: o primeiro foi sobre falar "mal" de escritoras mulheres. Para quem se formou como leitor lendo mulheres, talvez seja um puxão de orelha indevido; o segundo foi sobre reclamar de premiados orientais; para quem já viajou ao Extremo Oriente só para ter exemplares de autores orientais, também é uma reclamação curiosa. Há grandes escritoras no Extremo Oriente, e talvez fosse interessante lembrar de pelo menos duas, que, após conhecidas, mudaram o que se entende por literatura: Murasaki e Shonagon. Enquanto pensava sobre Han Kang, eu estava a ler Ono no Komachi. Então, sei lá.