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A decapitação de um jovem guarani mostra como o país se tornou um faroeste

Em Guaíra, filho de cacique av'[a guarani foi assassinado em conflito com fazendeiros por disputa de terras

A decapitação de um jovem guarani mostra como o país se tornou um faroeste
Foto: Reprodução/Redes Sociais
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O assassinato do menino Everton, de 21 anos, em Guaíra, é o mais fiel retrato do que se tornou o país após anos de discursos contra minorias. Indígena da etnia avá guarani, ele tinha ido jogar bola - a família achou estranha a demora e foi procurar o garoto. Encontraram a cabeça primeiro e a 150 metros de distância o corpo. Ao lado, uma carta dizendo que ele não seria o único.

A carta é nada menos que terrorista. Diz que caso os indígenas não saiam da região, vão tocar fogo em ônibus com as crianças guarani dentro. Simples assim: terrorismo. A própria Força Nacional, que no entendimento dos assassinos não está agindo como deveria, foi ameaçada. Por eles, a polícia já devia ter arrancado dali os indígenas, na força.

O discurso armamentista que dominou a cena política nacional nos anos Bolsonaro tinha como pano de fundo exatamente situações desse tipo. Embora na superfície se dissesse que as armas eram para caça, tiro esportivo e colecionadores, o objetivo sempre foi permitir que fazendeiros se armassem para reagir a ocupações, invasões e assaltos. Para reagir não só a criminosos, mas também ao MST, ao MTST e, sim, aos indígenas.

Everton não foi morto com arma de fogo, mas o recado é o mesmo: quem entra em conflito com a elite proprietária de terras (e nós sabemos muitas vezes como essas terras foram adquiridas) se arrisca a pagar não do modo civilizado. Não com processo, com contestação judicial. Se arrisca a pagar com a vida. Seja a tiro no na degola. Seja adulto ou uma singela criança num ônibus.

Décadas de espera

Para entender o quanto a situação dos indígenas é desesperadora, é preciso recuar no tempo. Desde que se inundou parte da região Oeste/Noroeste do Paraná para formar o lago da usina, quatro décadas atrás, essa população ficou sem suas terras. Existe a promessa eterna de demarcação de um novo território, mas a coisa nunca anda - imagina-se que, claro, por pressão do próprio agro.

Não foi Jair Bolsonaro quem prometeu que não se demarcaria nem um centímetro de terra indígena neste país?

Sem as terras, sem esperança de resolver isso só na base da espera, sem lobby, os indígenas passaram a ocupar terras em Guaíra e região. Para pressionar. Para não ficarem eternamente fadados a errarem pelo mundo sem um pedaço de chão que seja oficialmente seu. E aí começou o inferno.

Já em 2023, fazendeiros deram tiros para o alto, jogaram rojões, tacaram fogo nas casas e nos pertences dos indígenas. E de lá para cá a coisa só se deteriorou, até chegar na decapitação. Até chegar nas ameaças de terrorismo contra crianças. E tudo isso sob um silêncio pra lá de eloquente de todas as autoridades locais e federais.

Sem solução

Seria de esperar que com esse crime a situação fosse resolvida. Mas não parece que isso vá acontecer. O governador Ratinho Jr. (PSD), quando fala no assunto, é meramente para dizer que se precisa expulsar os indígenas da ocupação. O governo federal, por meio do Ministério dos Direitos Humanos, soltou uma nota lamentando o homicídio. Mas, de prático, para resolver a questão, nada.

Para os fazendeiros e para Ratinho, a "solução" é simples. Os indígenas que esperam. Que fiquem sem terras. Que se virem. Mas evidente que isso não resolve nada: a questão de fundo continua, e o conflito só vai se prolongar.

Mas com o desprezo que as autoridades mostram pelas questões indígenas (e pelos sem-terra em geral, pelos pobres como um todo), só o que se pode é torcer para que, na falta de juízo das autoridades, que corra a menor quantidade de sangue possível até que, um dia, quem sabe, daqui a muito tempo, os direitos daquelas comunidades sejam enfim atendidos.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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