Um terço da primeira sessão de debates e votações do ano na Câmara Municipal de Curitiba, nesta terça-feira (4), foi utilizada por vereadores de direita para discussão e aprovação de moções sem nenhuma ligação com a cidade. Das três horas de trabalho, mais de uma hora foi utilizada para debater e votar moções de repúdio à deputada federal Erica Hilton (PSOL-SP) e de apoio ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A Câmara voltou aos trabalhos na segunda-feira (3), quando não houve discussões sobre projetos nem votações. A sessão de segunda foi para instalação da Legislatura e teve a presença do prefeito Eduardo Pimentel (PSD), que falou por cerca de 25 minutos.
Nesta terça, o projeto de maior relevância aprovado foi de iniciativa do vereador Pier Petruzziello (PP), que alterou uma lei de 2002 que dispõe sobre a realização de eventos na cidade. O substitutivo geral aprovado reduz a burocracia para eventos com a participação de até 4 mil pessoas. A Câmara também aprovou uma moção de repúdio a um texto considerado sexista sobre a diplomação dos vereadores, publicado em dezembro por um blog de Curitiba.
A partir da segunda hora de sessão, teve início a discussão sobre a moção de repúdio à deputada federal Erika Hilton, que gravou um vídeo contestando outro vídeo, do também deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). No mês passado, Ferreira publicou em suas redes sociais uma fala com imprecisões sobre uma norma da Receita Federal, que acabou revogada no mês passado.
Segundo o deputado de Minas Gerais, haveria a possiblidade de microempreendedores individuais pagarem alíquotas semelhantes à do Imposto de Renda. Ele sugeriu ainda que poderia haver uma cobrança sobre transferências efetuadas via Pix – o que não constava da norma suspensa pelo governo federal após a repercussão do vídeo.
Para o vereador estreante Bruno Secco (PMB), no entanto, quem mentiu foi a deputada do PSOL. “A deputada Erika Hilton fez um vídeo visando unicamente ‘lacração’. Quer lacrar. Veio com desinformações, com mentiras, puramente para ganhar visualizações likes em cima do vídeo do Nikolas”, afirmou. Secco disse que o vídeo de Nikolas Ferreira, apesar de ter informações falsas, foi “muito esclarecedor, com muitas verdades”.
Líder da oposição na Câmara, Giorgia Prates (PT) disse que a moção apresentada por Secco é que merecia repúdio. “O vereador nos brinda com uma peça política digna de prêmio de desinformação. A lógica é simples: se você denuncia uma mentira, você vira alvo de perseguição. Se você espalha pânico e manipula a opinião pública, recebe palmas e moção de apoio. Que bela noção de verdade”. A moção acabou aprovada com cinco votos contrários.
"Mentalidade colonial"
Já a moção de apoio ao presidente norte-americano Donald Trump (cujo governo extraditou brasileiros acorrentados e algemados) foi apresentada pelo vereador Eder Borges (PL). “Essa moção vem parabenizar o povo americano pela eleição democrática e vem reforçar os laços do nosso país com os Estados Unidos”, disse Borges – que, apesar dos “laços de amizade”, não apresentou moção de apoio ao ex-presidente norte-americano Joe Biden).
Giorgia Prates perguntou a Borges se ele considera Trump um aliado. “Acha mesmo que Trump é um aliado? Acha que, se o senhor vereador desembarcasse nos Estados Unidos agora, seria recebido como um grande articulador internacional?”, questionou Giorgia, que classificou a moção como mostra de “síndrome de vira-lata”. “Essa obsessão de agradar a um político que nos despreza diz muito sobre a mentalidade colonial que ainda existe por aqui. Ao invés de debatermos projetos para Curitiba, estamos gastando energia com um presidente que nos deixaria do outro lado do muro que ele quer construir”.
“Um lado bajula e o outro nem sabe da existência de quem está bajulando.”
Giorgia Prates, vereadora
Aprovada com sete votos contrários, a moção foi ironizada pela vereadora Camilla Gonda (PSB).
“Imagino o Donald Trump se levantando hoje e falando ‘Eder Borges vai me dar aplausos na Câmara Municipal de Curitiba'. O dia dele certamente ficou emocionante”.
Camilla Gonda, vereadora