Faz algum tempo que temos um clube do livro formado por nós dois: eu e meu filho. A gente escolhe o que vai ler, conversa um pouco ao longo da leitura e, depois que termina, senta para tomar um café e comparar anotações e impressões. Quando o livro já virou filme, às vezes a gente se dispõe a ver as adaptações (assistimos a duas de “Fahrenheit 451”). Às vezes, não (desistimos da versão para o cinema de “O sol é para todos”, lá pela metade do filme, mas curtimos o livro).
Quando a Todavia anunciou que publicaria uma nova tradução de “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger, o título imediatamente entrou na nossa lista. Fiquei curioso para ver o que o tradutor Caetano Galindo (que foi meu orientador na UFPR e é colunista deste Plural) faria com o texto e achei que meu filho poderia curtir o lance de ser um “livro de jovens”. A ideia de escrever sobre a experiência só veio depois de termos começado a leitura.
Eu tenho 41 anos e Francisco, 14. Imagineique nossas impressões renderiam uma espécie de “conflito de gerações”: elepoderia adorar o livro enquanto eu o encararia com um respeito distante (velhodemais para embarcar nos dramas do protagonista adolescente). Mas não foi bem issoo que aconteceu.
Com café, começamos a conversar epedi para ele começar resumindo o livro para mim. “É a história de umadolescente, quase adulto, narrando um pedaço da vida dele que já aconteceu.” Éuma sinopse livre de spoilers, coisade quem assiste a séries da Netflix.
O narrador é Holden Caulfield e ele escreve a história enquanto está num hospital tratando de uma tuberculose (e provavelmente de uma depressão). “Se você quer mesmo ouvir a história toda” é a frase que abre o livro e não se sabe quem é esse “você” para quem Holden escreve. Um terapeuta, talvez? E narrar a história seria uma forma de tratamento?
Nós dois concordamos que o livro élegal. E que a tradução é genial, ainda mais se você ler em voz alta com maisalguém (o próprio tradutor explica que leu o texto em voz alta quatro vezesantes de mandar para a revisão – a narrativa foi pensada para funcionar como sefosse alguém conversando com você, leitor). Para dar conta do jeito informalcom que Holden narra a história, a versão em português usa gírias e expressõesde antigamente – como “supimpa”, “fajuto” e “bocó”.
Fazer um texto falar como alguémfala é algo absurdamente difícil de se fazer em português – porque quaseninguém fez isso em toda a história da literatura brasileira. Quer dizer que afaçanha do tradutor não foi pequena. “Ele não fala de um jeito bonitinho, direito,certo”, disse Francisco. “Ele usa gíria, fala palavrão, fala de um jeito maisdesleixado. É como eu falo com os meus amigos. Às vezes é parecido. Bemparecido, na verdade.”
Perguntei para o Francisco quais asexpressões ditas pelo Holden de que ele mais gostou. “Pelamordedeus”, assim,tudo junto, para indicar surpresa, ficou em primeiro lugar, seguida de “pradiabo” e “pra burro”. Por algum motivo, ele também curtiu “mandando cascata”,quando alguém está exagerando naquilo que diz.
Eu, da minha parte, gostei dasvezes em que ele se diverte com alguma coisa – por exemplo, quando a irmã fazalguma coisa engraçada – e diz: “Aquela ali me matou”. Ou quando ele desprezaalguma coisa e diz: “grandes porcarias”.
É 1950 e Holden está com 17 anos,mas fala sobre o que aconteceu quando tinha 16 e admite às vezes ter ocomportamento de alguém com 13 (pouco depois, ele baixa para 12).
Perguntei: se o Holden fosse um dosmeninos da tua sala, como ele seria? “Acho que ele seria o menino quieto quefica no fundo da sala, que não tem muitos amigos”, disse Francisco.
A princípio, o que me irritou umpouco foi a postura do personagem de não querer nada com nada. Até a irmã maisnova dele, Phoebe, reclama que Holden não gosta de nada. Ele acaba de serexpulso da quarta escola e precisa esperar uns dias antes de voltar para casa,na semana antes do Natal. Então torra o dinheiro que tinha ganhado da avó embebida, mulher – numa tentativa desajeitada de perder a virgindade – e numhotel.
Quando ele conta que seu irmão maisnovo morreu (Allie, de leucemia), entendi que o problema dele é tristeza. E aívocê passa a olhar para Holden de um jeito diferente. Ele não é só umadolescente preguiçoso que não quer saber de responsabilidade. Ele é um guriprofundamente triste, que não faz ideia de como lidar com o que está sentindo.
Além disso, como é um jovem dosanos 1940, ele fuma muito. O hábito não passa despercebido. Na época, acho quefumar era como tomar café. A partir de uma certa idade, as pessoas começavam afumar. Era socialmente aceito, ou até estimulado. Hoje, chama atenção.
Foi quando Francisco perguntou paramim: “Não te incomodou ele ficar deprimido com tudo? Porque, em algum momento,isso começou a me deixar deprimido”.
É verdade. Holden se senteangustiado – sua tristeza vira ódio porque ele não sabe como lidar com ela – eisso vai te angustiando também. Ele nunca chega e diz: “Eu perdi meu irmão eestou triste e é por isso que, para mim, a vida não tem mais sentido”. Seriaótimo se ele falasse isso de maneira direta, mas não. Ele diz isso com ummilhão de voltas, deixando claro como não sabe o que fazer, como está perdido.
Para terminar, Francisco sugeriuque déssemos uma nota de zero a dez para o Salinger.
Eu disse sete.
Ele disse seis.
Ele disse que prefere Jack London. E eu entendo.