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Do que temos que proteger o Pe. Julio Lancellotti?

Arquidiocese decide silenciar pároco após ataques da extrema direita

Do que temos que proteger o Pe. Julio Lancellotti?
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Circulam na internet abaixo-assinado e notas de apoio e solidariedade ao Pe. Julio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo e um defensor dos direitos humanos. Além de assinar as petições, eu me solidarizei diretamente com ele, em mensagem de texto enviada por WhatsApp. Mas por que precisamos apoiar e defender uma figura como Pe. Julio? Ou melhor, do que precisamos protegê-lo?

As manifestações no momento reagem à decisão da Arquidiocese de São Paulo de não mais permitir transmissões ao vivo das missas celebradas na Paróquia São Miguel Arcanjo e de afastá-lo das redes sociais. A imposição do silêncio público visa, nas palavras de Dom Odilo Scherer, proteger Pe. Julio. Movimentos sociais e populares classificam o ato como censura.

Tudo isso ocorre após agressões verbais e tentativas de criminalização do trabalho de Pe. Julio junto à população de rua por políticos de extrema direita - o que não é novidade. Em 2020, escrevi o texto “Ódio a Pe. Julio é ódio à população de rua”. Nele, descrevia a reação a ataques do ex-politico Arthur do Val ao pároco e relatava sua proximidade com Londrina.

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Em outubro daquele ano, o dono de um restaurante na área central de Londrina havia sido filmado jogando água na calçada para afastar um homem em situação de rua que estava sentado próximo à porta do estabelecimento. O vídeo ganhou repercussão nacional após ser compartilhado nas redes por Pe. Julio Lancellotti. Eu estava fazendo a cobertura do caso e, qual não foi minha surpresa, quando recebi uma ligação do próprio pároco querendo entender a repercussão, pois havia sido procurado pelo dono do restaurante. Sem abandonar a causa dos vulnerabilizados, Pe. Julio também se preocupava com o impacto no negócio, que seria familiar. Após esse primeiro contato, cheguei a entrevistá-lo rapidamente outras vezes, motivo pelo qual tenho o número de seu WhatsApp pelo qual manifestei minha solidariedade hoje.

É difícil explicar esse nível de sensibilidade para uma sociedade classista, racista e higienista como a nossa. Para a parcela da população que concorda com esses discursos, quem vive na rua acaba reduzido a um bando de “nóia”. São pensamentos validados por parte dos integrantes do poder público e de representantes eleitos e que se materializam em projetos de lei que buscam limitar até mesmo acesso a comida - como tem acontecido em Londrina por parte de quem deveria prezar pela garantia de direitos a todos os cidadãos, especialmente aos privados do básico. E quando digo básico é básico mesmo: água, comida, higiene pessoal.

O ódio direcionado ao Pe. Julio Lancellotti é o ódio à população de rua; é a aporofobia feita discurso e ação. É disso que Pe. Julio e outros defensores e defensoras de direitos humanos precisam ser protegidos. Silêncio é conivência.

Cecília França

Cecília França

Jornalista há 20 anos, é especialista em Direitos Humanos.

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