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Rogéria Dotti sentiu na pele os desafios que o Direito traz para a mulher

Advogada completa quatro anos como responsável pelo escritório construído pelo pai, René Dotti

Rogéria Dotti sentiu na pele os desafios que o Direito traz para a mulher
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Há quatro anos, Rogéria Dotti se viu com um duplo desafio. O primeiro era o drama pessoal de perder o pai, o advogado René Dotti; o segundo era ter de se tornar, a partir dali, a responsável pelo escritório que ele havia construído ao longo de décadas, um dos maiores e mais importantes do estado. Em entrevista ao Plural, falando sobre o Dia Internacional da Mulher, Rogéria diz que até 2021 não sentia resistência a seu trabalho, mas que a partir do momento em que se tornou a líder do escritório, sentiu na pele os resultados do machismo.

Eleita conselheira federal da OAB no fim do ano passado, agora a advogada terá de passar ainda mais tempo em Brasília e se dedicar à nova tarefa junto com todos os desafios de responder pelo escritório. Na conversa abaixo, a advogada fala sobre os problemas que as mulheres ainda enfrentam, prevê uma diminuição na desigualdade no Judiciário e dá conselho para as meninas que pretendem entrar na profissão.

  1. A gente sabe que os desafios para as mulheres são sempre maiores. Você sentiu resistências quando assumiu um escritório grande como o de vocês?

No meu caso não houve resistência interna porque eu comecei a trabalhar na Dotti muito tempo atrás, quando ainda era estudante de Direito. Então a transição foi natural e bastante tranquila. Eu e meus colegas de trabalho já tínhamos uma relação de profundo respeito e confiança. Mas, com a morte de meu pai, eu fiquei muito mais visada em relação ao público externo e tive que enfrentar toda sorte de preconceito. Até então, a liderança era exercida por um homem. Não é fácil para as pessoas aceitarem uma mudança como essa.

A principal diferença que percebo é a de tratamento. Muitas vezes os homens confiam mais no trabalho masculino ou, então, preferem ter uma interlocução com outros homens. Sempre que sinto isso, procuro estudar e me dedicar ainda mais, mostrando o equívoco desse pré-julgamento. Felizmente, as mulheres têm resiliência e, por meio da dedicação e seriedade no trabalho, conseguem superar esse preconceito inicial. Acredito muito nisso. Nossa força é demonstrada diariamente, com a reversão desse quadro.

O maior desafio é acreditar que o preconceito será superado pelo trabalho eficiente. Ao invés de apenas denunciar o tratamento desigual (o que, obviamente, é importante), as mulheres devem também se dedicar aos bons resultados. Devem mostrar, na prática, que o preconceito não se justifica. Meu conselho seria: estude, dedique-se com afinco às causas e não queira rivalizar ou aumentar o conflito com os homens. O sexismo é um movimento que traz infelicidade. Construa, com seu próprio esforço, o reconhecimento pelo seu trabalho. Afinal, os bons resultados são sempre festejados, independentemente do sexo da pessoa que os produziu.

A cada ano, cresce o número de mulheres nas faculdades de Direito. Na OAB já estamos vendo um número quase paritário entre homens e mulheres. Nos concursos públicos da magistratura também o número vem crescendo. Então, o que pode ser feito é sempre estimular as mulheres a estudar e a trabalhar. Em poucos anos não haverá mais essa disparidade.

Certamente terei que estar mais tempo em Brasília, mas estou habituada a viajar pois a advocacia exige esse contato com os Tribunais Superiores. O que muda agora é o enfoque nas lutas da classe, que são extremamente importantes. Uma das principais, a meu ver, é combater o formato de sustentações orais gravadas, lutando pelo diálogo em tempo real, durante os julgamentos no STJ e STF. A advocacia precisa ter voz, independentemente do volume de trabalho das Cortes. A tecnologia deve ser utilizada para aproximar, jamais para afastar os operadores do direito.

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