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Resistência Xetá: reencontro entre sobreviventes do extermínio reergueu povo indígena

Eles foram tirados de suas famílias ainda na infância e, quarenta anos depois, se reuniram para resgatar o passado e lutar por reparação

Resistência Xetá: reencontro entre sobreviventes do extermínio reergueu povo indígena
Crianças indígenas foram raptadas por colonos e agentes do governo sem qualquer consequência aos brancos. Foto: Vladimir Kozák/MUPA
Publicado:

Por Rodrigo Matana
Supervisão: Maíra Gioia
Agência Escola UFPR

Durante o inverno de 1987, nas escadarias do ‘manicômio judicial’ de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, estavam sentados, lado a lado, José Luciano da Silva, conhecido também como Tikuein (em Xetá, Nhagoraj, que significa “cachorro-do-mato”), e a antropóloga Carmen Lúcia da Silva.

Leia a primeira reportagem da série aqui.

O indígena esperava ser chamado para uma perícia, parte do processo judicial que enfrentava na época. A pesquisadora, então funcionária da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), havia sido escalada para acompanhá-lo.

Ali, Carmen teve a primeira conversa direta com um dos sobreviventes do genocídio indígena empreendido na Serra dos Dourados, noroeste do Paraná, onde o povo Xetá beirou o total extermínio. A partir daquele contato, ela dedicaria os anos seguintes à história da população assassinada, expropriada e expulsa de seu território por empresas de colonização para dar lugar ao plantio do café e a loteamentos privados.

Até o encontro com Tikuein, a antropóloga conhecia apenas a versão mais “vendida” da história: para políticos, companhias colonizadoras e grandes proprietários da região, os Xetá, então resumidos a poucos indivíduos, estavam condenados à “extinção”. Sem pessoas, história ou memória.

“A voz corrente era: eles não têm memória, eles não se lembram de nada, como se criança não tivesse memória”, afirma Silva. Ela se refere aos meninos e meninas indígenas que sobreviveram ao avanço agrícola predatório sobre seu território originário, separados de seus pais e raptados por famílias brancas. “Criança tem memória, principalmente crianças que passam por trauma”, destaca. Entre tantas, estão Tucanambá (Anambu Guaka), Kaiuá, Ã (Moko), e Kuein Manhaai Nhaguakã, apresentados na primeira reportagem da série.

“A voz corrente era: eles não têm memória”. – Carmen Lúcia da Silva, antropóloga

A partir de 1950, população Xetá foi vítima da expansão agrícola predatória no noroeste do Paraná. Foto: Vladimir Kozák/MUPA.

Tikuein Nhagoraj

Aproximadamente aos sete anos de idade, Tikuein foi testemunha da política de extermínio promovida pelas frentes coloniais e pela expansão do café. Conforme o relatório da Comissão Estadual da Verdade – Teresa Urban (CEV/PR), empresas como a Companhia Brasileira de Imigração e Colonização (Cobrimco), do Grupo Bradesco, tinham carta branca do governo para lidar com os indígenas.

“Quando os Xetá foram contatados, a terra já estava loteada”, aponta a antropóloga Edilene Cofacci de Lima, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e uma das primeiras pessoas a ter contato com a pesquisa de Carmen. No período da expansão para o noroeste, o governo estadual já tinha conhecimento da presença indígena na região. “O [Moysés] Lupion não voltou atrás disso e o Bento Munhoz da Rocha deu continuidade”, afirma.

O contato de Tikuein Nhagoraj com os brancos aconteceu a partir da aproximação do grupo de seu pai, Haikumbay, com a fazenda Santa Rosa, propriedade do deputado estadual Antônio Lustosa de Oliveira (PSD). Instalado no território Xetá, o local serviu como ponto de atração dos indígenas da Serra dos Dourados.

Nhagoraj tinha dois irmãos. A mais nova dos três desapareceu durante as constantes fugas pela mata. Em depoimento a Carmen, Tikuein considera a possibilidade de ela ter sido sequestrada, assim como os outros. “Os brancos viviam roubando nossas crianças e pegando as mulheres”, conta.

Seu outro irmão era Guayrakã, nomeado pelos brancos como Geraldo Brasil. Ele foi raptado ainda criança por Antônio de Freitas, caseiro da fazenda Santa Rosa, entre 1956 e 1957. Seus pais tentaram recuperá-lo, sem sucesso. “A mãe dele ficou uns três ou quatro dias em redor [da fazenda] para ‘roubá-lo’ [...]. Foi quando eu peguei uma vara de bater em vaca e a ameacei”, relata Freitas, em entrevista ao Projeto Memória Indígena (PMI), de 1989.

Haikumbay (ou , pronome de tratamento para a figura paterna entre os Xetá) também se esforçou para resgatar a criança. “O Mã tentou, chegou a pegá-lo, mas eu fiz a mesma coisa”, afirma o caseiro. O menino cresce com a família de Antônio e, com o tempo, é “convertido” em peão para a prestação de serviços à propriedade.

A investigação de Carmen revela que Guayrakã faleceu em 1973, aos 25 anos, em decorrência de uma tuberculose. De acordo com seu atestado de óbito, ele está enterrado como indigente no cemitério da Lapa, no Paraná. Tikuein só descobriria a morte do irmão em 1993, durante um encontro entre sobreviventes do genocídio.

Em 1961, Nhagoraj é retirado sem os irmãos da Serra dos Dourados, junto do pai e de outro indígena, Nhengo. Eles são transferidos pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) – extinto em 1967 – para o Posto Indígena Pinhalzinho, em Tomazina (PR), a mais de 400 km do território Xetá.

Haikumbay falece em 1972 e, dois anos depois, morre Nhengo. “Deste modo, [Tikuein] perde as duas últimas referências pessoais de seu povo”, narra a pesquisa. “Fiquei sozinho, se foram os últimos de minha gente. Eu pensava que só tinha eu”, relata Tikuein, durante as entrevistas coletadas pelo trabalho de Carmen, no fim dos anos 1990.

“Fiquei sozinho, se foram os últimos de minha gente. Eu pensava que só tinha eu.” – Tikuein Nhagoraj

O (re)encontro de Tuca, Kuein e Tikuein

Mais de quarenta anos após o contato trágico com a sociedade não indígena, as conversas entre Tikuein e Carmen foram sucedidas pelo reencontro da memória de outros que haviam sobrevivido ao genocídio. Juntam-se a eles Tuca e Kuein

A partir de 1994, os três, em conversa com a antropóloga, passam a reviver a história e a identidade dos Xetá. Com um gravador de áudio em mãos e horas de conversa a fio, eles fizeram o resgate das lembranças de um povo indígena empurrado para o esquecimento.

No mesmo ano, após uma reunião entre os sobreviventes na Terra Indígena (TI) São Jerônimo da Serra, o grupo parte em busca do que restava da memória física da etnia: os acervos documental e material coletados durante expedições de pesquisadores na Serra dos Dourados a partir dos anos 1950.

Os Xetá vão a Paranaguá, no litoral paranaense, para visitar o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da UFPR. Na mesma viagem, conhecem os acervos do Museu Paranaense (MUPA) e do Círculo de Estudos Bandeirantes (CEB), em Curitiba. Carmen relembra uma cena simbólica durante as visitas, descrita por ela como o “afloramento da memória” dos Xetá reunidos. “Tikuein pegou um arco que estava exposto e falou: ‘esse arco foi meu pai que fez’”, recorda.

Ao questioná-lo sobre como reconhecia a origem do objeto, a pesquisadora ouve uma resposta certeira de Nhagoraj. “Ele me mostrou a ponta do arco e disse: ‘esse nó só meu pai sabia dar’”, conta.

“A memória emergiu ali, uma memória que eles tinham, mas que não tinham a oportunidade de falar [sobre] com ninguém”, conta a pesquisadora. Novamente reunidos, os Xetá dão início à articulação da luta por justiça e reparação pelas inúmeras formas de violência que sofreram a partir da metade do século passado.

Indígenas Xetá no Passeio Público, em Curitiba, entre as décadas de 1960 e 1970. Foto: Vladimir Kozák/MUPA.

Narrativa da "extinção"

O povo Xetá lutou contra o extermínio promovido na Serra dos Dourados a partir de 1950 e luta, ainda hoje, pelo direito de existir. Depois de serem expulsos de seu território originário e espalhados pelo Paraná e outros estados, passou a predominar no debate público a narrativa da “extinção” de sua população.

Na imprensa, o povo indígena marcou presença quase sempre ao se falar de seu “fim iminente”, como na manchete de 1985: “Xetás, uma tribo em extinção”, do jornal O Estado do Paraná. Outros noticiários já haviam decretado o “desfecho” da etnia. “Civilização extinguiu os Xetá”, publica o Estado de S. Paulo, em 1972.

Hoje, os últimos xetás só terão filhos ‘mestiços’ e a ‘raça’ estará acabada”, narra uma reportagem da revista Veja, de agosto de 1969. Esse discurso, veiculado pelos jornais e fortalecido por autoridades do governo, deu sustento ao interesse pela não reparação dos indígenas do noroeste paranaense.

“Era muito conveniente falar que os Xetá estavam extintos”, afirma a antropóloga Edilene de Lima. A esse povo, que foi vítima de assassinatos, envenenamentos, sequestros e expropriação do território originário, foi negado também o direito da identidade. Na visão dos governos federal e estadual, se eles não existiam mais, não havia por que se demarcar uma terra. “O problema acabou com esse convencimento de que eles haviam sido ‘extintos’”, aponta.

Sobre a cobertura da imprensa, Carmen da Silva critica o “discurso da extinção” construído pelos noticiários. As famílias mais tarde constituídas pelos Xetá que sobreviveram quase sempre foram ignoradas pelos jornais. “Um tratamento errôneo do próprio jornalismo, que considerava Xetá somente aqueles sobreviventes mais velhos”, diz.

Embora reduzidos a uma população muito menor do que a original, os sobreviventes e seus familiares reergueram, com o tempo, o povo Xetá. “Eles não estão em ‘extinção’, quem pode estar em estado de extinção é bicho. Eles não são bicho”, afirma Carmen. Hoje, eles somam mais de quarenta famílias, embora separados pela distância.

“Eles não estão em ‘extinção’, quem pode estar em estado de extinção é bicho.”
– Carmen Lúcia da Silva, antropóloga

A narrativa começa a ser revertida a partir de reencontros como o de Tikuein, Tuca e Kuein. A imprensa passa, então, a publicar o que considera o “ressurgimento” do povo indígena. “Oficialmente extintos, xetás reaparecem”, anuncia o Estado de S. Paulo, em 1999, quase trinta anos depois de veicular a “sentença final” dos indígenas.

Violência

Uma das práticas que marcaram o processo violento de extermínio e expulsão dos Xetá de seu território foi o rapto de crianças por famílias não indígenas. Kaiuá e Tuca foram os primeiros de que se tem registro, sequestrados por funcionários de uma empresa de colonização e “criados” em Curitiba, na pensão de um agente do SPI.

A menina à (em Xetá, Moko, que significa “tamanduá”) viveu as diversas faces da violência. Os não indígenas a registraram com os nomes de Maria Rosa Padilha e Maria Rosa à Xetá. Seu irmão, Kaiuá, foi a primeira criança raptada durante o genocídio de que se tem registro. Em entrevista a Carmen da Silva, Moko relembra a infância entre os seus. Ela esteve presente, por exemplo, na perfuração labial (ritual de passagem masculino) de Tucanambá, outro menino raptado.

A mãe de Moko, Itauirá, foi vítima de outra prática genocida usada com frequência pelos colonizadores: o envenenamento. “Os brancos, acho que os engenheiros, abriam picada com machado, picareta, e moravam numa fazenda lá perto”, lembra. Ela se refere à atividade das empresas de colonização que vinham se apossando cada vez mais do território indígena – como a Companhia Brasileira de Imigração e Colonização (Cobrimco), do Bradesco.

“Enquanto andávamos pela mata, via nosso mato ficar para trás [...] Tudo aquilo e minha gente ficavam para trás”, conta Moko. Foto: Vladimir Kozák/MAE.

“Deixaram carne de charque nos nossos ranchos [pontos de contato entre indígenas e não indígenas] para nós comermos [...] o grupo inteiro morreu com dor de barriga”, conta Ã. Nessa época, seu pai já havia falecido. Após a morte da mãe, ela ficou aos cuidados de Haikumbay, pai de Tikuein. “Apenas algumas crianças iguais a eu não comeram, foi assim que nos salvamos. Foi assim que minha mãe morreu”, relembra.

Com o tempo, o grupo do qual Moko fazia parte acabou se aproximando da fazenda Santa Rosa, administrada por Antônio Lustosa de Freitas, que já tinha contato com outros núcleos Xetá. Em 1955, uma expedição do SPI chega à propriedade. Com a comitiva, estavam Tuca e Kaiuá, os dois meninos indígenas retirados da Serra dos Dourados, que agora serviam como guias e intérpretes.

A pedido dos dois, Moko é levada pela expedição para a pensão onde os meninos moravam, em Curitiba. “Enquanto andávamos pela mata, via nosso mato ficar pra trás: as árvores com jaracatiá, guavirova, jerivá, macaúba [...] Tudo aquilo e minha gente ficavam para trás”, relata.

“Adoções” e o apagamento de identidades

A violência praticada contra os Xetá, além de física e psicológica, é simbólica. Moko sofreu para se adaptar à vida entre os brancos. Ao ser retirada da mata, ela ainda usava os adornos e ornamentos de seu povo. 

Um cordão de fibra de caraguatá (espécie de bromélia) enrolado no tornozelo. Em uma das orelhas, pendia um brinco de penas de papagaio e, na outra, um de couro de baitaca. O colar era feito de sementes e pequenos dentes de quati. “Bem pequeninho”, como ela lembra. Conforme relata ao trabalho de Carmen da Silva, Ã só deixaria de usar parte dos objetos quando fosse mais velha.

Já na pensão onde a indígena passou a viver com Kaiuá e Tuca, não havia direito à identidade. O inspetor do SPI e dono da casa “cortou, tirou tudo”. “Até o meu brinco e o meu amarrilho de minha perna foi tirado. Eles me deixaram nua, embora estivesse de vestido”, relembra. O confisco dos ornamentos da da própria cultura acompanhou a “conversão” forçada das crianças Xetá ao modo de vida não indígena.

“Eles me deixaram nua, embora estivesse de vestido”. – Moko

Segundo a antropóloga Carmen da Silva, as famílias não indígenas relatavam estar “salvando” os meninos e meninas indígenas da dizimação colonial. Ela destaca, no entanto, que os Xetá “adotados” nunca foram tratados como crianças brancas. “Todo mundo considerava como filho, mas filho que não tem nome, direito à herança, muitas vezes nem direito de dormir dentro de casa”, afirma.

A trajetória de Tiguá, outra menina Xetá raptada na época, revela como essas crianças foram “incluídas” na sociedade não indígena. Seu nome registrado pelos brancos é Maria Rosa Tiguá Brasil. A palavra “tiguá”, na verdade, era o pronome de tratamento usado entre os Xetá para se referir à criança do sexo feminino. 

Outras palavras também foram empregadas pelos não indígenas sem se respeitar o dialeto Xetá. Os termos “tikuein” e “kuein”, respectivamente, eram os pronomes para “criança do sexo masculino” e “menino iniciado”, que havia passado pelo ritual de perfuração labial.

à (Moko) sendo retirada da Serra dos Dourados por agentes do Serviço de Proteção aos Índios. Foto: Vladimir Kozák/MUPA.

Assim como Geraldo Brasil, Tiguá foi tirada de seus pais pela família de caseiros da fazenda Santa Rosa. Na época, por volta de 1956, ela tinha aproximadamente oito anos de idade. Longe dos parentes, ficou sem falar por cerca de um ano. A menina cresceu realizando trabalho doméstico na casa dos Freitas, onde cuidava do filho mais novo do casal. Trabalhou por cerca de dezessete anos em um restaurante-hotel da família.

“Tiguá não estudou, sempre trabalhou como doméstica na casa dos familiares daqueles que a criaram, porém não teve carteira assinada, nem contribuiu com a Previdência Social”, registra a pesquisa de Carmen da Silva. O trabalho na hotelaria da família durou até 1994. “Ela nunca foi registrada, nem como empregada e nem como filha”, aponta.

Por não se lembrar do nome dado por seus pais, Tiguá, durante um encontro entre os sobreviventes, solicitou um nome na língua materna da etnia. Em 1997, com Tuca, Kuein, Tikuein e outros reunidos, ela é nomeada como Irajo, que, em Xetá, significa “peixe”.

Memórias do genocídio

A maior parte dos artefatos, ornamentos e objetos Xetá que sobreviveram ao tempo e à violência na Serra dos Dourados está concentrada, hoje, em três lugares: o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE/UFPR), em Paranaguá, o Museu Paranaense (MUPA) e a reserva técnica do MAE, os dois últimos em Curitiba.

Brincos, machados, tembetás (adorno labial), pilões, arcos e flechas. Coleções inteiras retiradas do território originário enquanto a população indígena da região era tragicamente reduzida pela violência do avanço colonial. As principais expedições acadêmicas no território Xetá foram organizadas pelo antropólogo e professor José Loureiro Fernandes, primeira pessoa a dirigir o MAE.

Confecção do tembetá, ornamento labial de resina e madeira utilizado pelos homens. Foto: Vladimir Kozák/MUPA.

O cinetécnico tcheco Vladimir Kozák acompanhou Loureiro durante as viagens e foi responsável pela mais importante documentação fotográfica do povo Xetá. Tanto o antropólogo quanto Kozák denunciaram o genocídio em curso no Paraná diante da comunidade científica nacional e internacional.

Apesar do amplo acervo, pouco se estudou sobre a cultura e história do povo Xetá na época do contato. “Tudo que a gente sabe sobre o modo de vida dos Xetás foi no momento final de genocídio dessa população”, afirma o arqueólogo e vice-diretor do MAE, Sady Pereira do Carmo Júnior.

A ação combinada de empresas e governantes destituiu em pouco anos o modo de vida milenar da sociedade indígena no noroeste do estado. “No momento em que essas peças foram coletadas, existia uma população branca invadindo, matando, destruindo, queimando a floresta”, afirma Pereira.

O trabalho de Carmen Lúcia da Silva, que serviu de base para pesquisas posteriores sobre os Xetá, buscou na memória dos sobreviventes levantar o conhecimento que se tem hoje sobre o povo indígena. O “afloramento” da memória a partir de reencontros como os de Tuca, Kuein e Tikuein esteve entre os primeiros passos para a reorganização da etnia após o extermínio.

Objetos do povo Xetá hoje fazem parte dos acervos do Museu Paranaense e do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR. Foto: Secretaria de Estado da Cultura/MUPA.

Os möu, esculturas de cera de abelha ligadas à espiritualidade do povo Xetá, são hoje parte da exposição do MUPA, na capital paranaense. As peças expostas não foram feitas na Serra dos Dourados, no tempo em que o povo ocupava seu território. A pedido de pesquisadores, os Xetá que se reencontraram após o genocídio remodelaram os artefatos a partir do resgate da própria memória.

Embora a coleção não seja original da região nativa dos indígenas, o acervo é símbolo da luta interminável dos Xetá, que se restituíram a partir do passado e da memória dos antigos para dar continuidade à luta por reparação, pelo território originário e pelo direito à própria história. O esforço das lideranças indígenas na busca por justiça atravessa mais de meio século e trava, hoje, uma disputa desequilibrada contra poderes bem maiores: banqueiros, fazendeiros e políticos aliados através do agronegócio brasileiro.

MUPA Minuto: Möu e cultura Xetá


A série "Resistência Xetá" é a união de dois pilares que julgamos serem fundamentais para a construção de uma sociedade justa, igualitária e democrática: jornalismo e ciência. Ambos tecem processos de investigação, cada um com seus métodos de apuração, análise e escrita. Mas são capazes, especialmente quando unidos, de reconstruir a história muitas vezes negada oficialmente, a exemplo do povo Xetá.

E é exatamente em um momento de reconstrução da história do nosso país sob várias vertentes, com a instalação de Comissões da Verdade e a elaboração de dossiês que nos provocam a pensar um outro viés daquilo que insistentemente nos foi apresentado, é que nos pautamos para oportunizar a você, cidadão, acesso à história de um povo indígena inserido dentro de uma evidente marginalidade e que luta para sair da sub-representação.

Dessa maneira, propomos uma socialização do conhecimento sobre as razões e as circunstâncias que levaram às violações de direitos e que, em várias situações, subtraíram a memória, a verdade e até mesmo a vida.

Fazemos isso por meio da Agência Escola UFPR, um projeto cujo foco é a formação de alunos de diferentes cursos para a reflexão crítica e a prática profissional da Divulgação Científica e a Comunicação Pública da Ciência em diferentes linguagens e formatos. Um dos resultados é a série que aqui está. O nascedouro das cinco reportagens que emolduram esse trabalho é uma dissertação de mestrado, o que nos mostra como o conhecimento científico nos guia e o jornalismo, ciente da sua responsabilidade, nos conduz à reflexão ao transformar o conhecimento gerado pela ciência em um formato palatável.


Arte gráfica (ilustração e selo): Chaiane Petroli da Silva, sob orientação de Naotake Fukushima
Pesquisa: Flávia Cé Steil e Rodrigo Matana
Projeto editorial: Alice Lima
Gestora de Desenvolvimento Institucional: Patricia G. Melo
Coordenação-geral: Regiane Ribeiro

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