Por João Vítor Corrêa
Supervisão: Maíra Gioia
Rodas de conversa sobre preservação da biodiversidade, apresentações culturais, uma feira repleta de produtos agroecológicos e respeito ao meio-ambiente. Mais do que celebrar a produção de alimentos saudáveis, a 22ª Jornada de Agroecologia também revelou como a ciência tem um papel essencial no fortalecimento da agroecologia.
Realizado entre os dias 6 e 10 de agosto, no câmpus Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o evento reuniu organizações sociais, povos indígenas, quilombolas, assentados, acampados, movimentos populares e instituições de ensino para discutir caminhos que fortaleçam a produção de alimentos saudáveis, defendam territórios e integrem tecnologia à sabedoria popular.
Para Priscila Monnerat, engenheira florestal e produtora agroecológica do Assentamento Contestado na Lapa, o que diferencia a agroecologia é sua filosofia de vida e de respeito à natureza. Ela destaca que, além de resgatar a sabedoria dos povos tradicionais e preservar a biodiversidade, os alimentos produzidos por esse sistema são mais nutritivos e livres de venenos. Para ela, a agroecologia é um modo de viver que promove a saúde das pessoas e do planeta, cuidando do solo, do ar e da água, e ampliando a diversidade das espécies nas regiões cultivadas. “A agroecologia vai nesse caminho de cuidar desses bens comuns, de reflorestar o que foi desmatado, de cuidar do que a gente tem e de recuperar o que a gente perdeu”, destaca Priscila.
E a ciência está presente nesse contexto, a academia adentra essa temática sistematizando a agroecologia, sem excluir as raízes culturais. O encontro entre o saber popular e a ciência gera inovação tecnológica. Durante seu mestrado, Priscila estudou a participação feminina na agroecologia, destacando o trabalho invisível das mulheres na recuperação de terras, praticando a agroecologia intuitivamente, mesmo sem conhecer o termo, fato que demonstra a importância de valorizar e dar visibilidade a esse tipo de trabalho.

Nesse cenário, o EKOA, Núcleo de Pesquisa e Extensão do Setor de Direito da UFPR, assume papel fundamental ao aproximar o conhecimento jurídico das comunidades. Coordenado por Katya Regina Isaguirre, professora do Departamento de Direito Público da UFPR, o Núcleo atua junto a agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais, auxiliando-os a compreender e exercer seus direitos ambientais. “A Universidade Pública é um espaço para isso, para que a gente tenha como fazer esse encontro de saberes e ter um espaço igual para a gente dialogar sobre temas que são relevantes e construir junto”, destaca Katya.
Garantir o acesso à informação legal é essencial para fortalecer as lutas pela preservação dos territórios e pela sustentabilidade. O Núcleo já obteve resultados significativos como, por exemplo, a assessoria jurídica junto a Associação de Agricultura Orgânica do Paraná (AOPA) na criação da primeira cooperativa de agricultores agroecológicos em rede nacional e a inclusão de uma cláusula contra a violência de gênero nos estatutos de associação agroecológica. Trabalhos que só obtiveram sucesso graças à colaboração mútua entre a comunidade e o Núcleo.

Mas apesar desses resultados, a temática ainda sofre resistência no meio jurídico e acadêmico. A área do Direito é rígida e eurocêntrica, com dificuldade de apreciar os saberes tradicionais, outro impeditivo para os temas socioambientais se dá pelo fato desses não gerarem um retorno financeiro imediato, fazendo com que sejam pouco valorizados. Para combater essa desvalorização, Luíza Guimarães, estudante de Direito e integrante do EKOA, acredita no Direito como uma ferramenta de emancipação. “A gente precisa acreditar que o Direito possa ser essa ferramenta, que ele possa trazer instrumentos que libertem as pessoas, que ajudem a sociedade”, afirma a graduanda.
Muitas vezes a agroecologia é vista apenas como um método produtivo alternativo, sendo uma versão orgânica da agricultura. Em um mundo onde o clima e a questão alimentar são preocupações de toda uma população, transformar essa visão da agroecologia, demonstrando todos os benefícios da agroecologia, pode ser um caminho central no combate a crise ambiental e alimentar do nosso planeta, mostrando que comer bem e preservar o meio-ambiente podem sim fazer parte do mesmo prato.