Por Rodrigo Matana
Supervisão: Maíra Gioia
Agência Escola UFPR

No final dos anos 1940, o então governador paranaense Moysés Lupion (PSD) conseguiu tomar mais de 100 mil hectares das Terras Indígenas (TIs) demarcadas no estado. Na onda da “marcha para o oeste”, já na gestão de Bento Munhoz da Rocha Neto (Partido Republicano), a Companhia Brasileira de Imigração e Colonização (Cobrimco), do Bradesco, quase exterminou um povo originário do noroeste do Paraná para abrir caminho ao plantio do café.
Setenta anos se passaram e os Xetá continuam sem território, sem reparação e sem direito a perpetuar a história do próprio povo. Na presidência da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Pedro Lupion (PP-PR), bisneto do ex-governador, é porta-voz da tese do marco temporal, que impede a demarcação para esses indígenas.
Leia as reportagens da série:
Setenta anos após genocídio, povo Xetá segue sem reparação
Reencontro de sobreviventes reergueu povo quase exterminado
Governadores, empresas e café contribuíram para quase extermínio dos Xetá
A TI Herarekã Xetá está delimitada no município de Ivaté (PR). Sobre ela, estão as fazendas da Santa Maria Agropecuária Ltda. A empresa é administrada por Rubens Aguiar Alvarez, neto de Amador Aguiar, fundador do Bradesco. Lia Aguiar, filha do banqueiro, é sócia da agropecuária e tem uma fortuna avaliada em US$ 1,5 bilhão, segundo a Forbes.
Muita coisa mudou desde a metade do século passado, quando a população indígena do noroeste paranaense foi alvo do genocídio, mas as linhas de sucessão no poder continuam iguais. A agenda anti-indígena é uma das heranças políticas da família Lupion. Parte do patrimônio dos herdeiros do terceiro maior banco do Brasil é manchada com o sangue de um povo originário. O direito à memória, à dignidade e ao próprio território ainda não chegou para os Xetá.
O Bradesco e o agronegócio
“O Bradesco sempre esteve de portas abertas para o agro. O Bradesco nasceu no mundo rural”, declara Rubens Aguiar Alvarez. A entrevista aconteceu em 2023, na Agrishow, um dos maiores eventos do mundo no setor do agronegócio. Rubens é neto de Amador Aguiar e, desde 2021, integra o conselho administrativo do banco.
Além do cargo na empresa do avô, Alvarez é administrador da Santa Maria Agropecuária Ltda. Denise Aguiar Alvarez, também neta do banqueiro, é ligada à empresa através da Concialpa, que atua no setor imobiliário. Além dos dois netos, a agropecuária tem como sócia a bilionária Lia Maria Aguiar, com patrimônio estimado em R$ 9 bilhões.
De acordo com o relatório Os Invasores, do De Olho nos Ruralistas – Observatório do Agronegócio no Brasil, a fazenda São Francisco, que pertence à Santa Maria, cobre mais de 99% da delimitação da TI Herarekã Xetá. Em 1967, quando a empresa foi criada, os indígenas enfrentavam o auge da expansão cafeeira e violência colonial no noroeste do Paraná.
Na época, a região era desmatada e loteada pela Cobrimco, colonizadora que pertencia ao grupo Bradesco. Em 2017, o relatório da Comissão Estadual da Verdade – Teresa Urban (CEV/PR) apontou a companhia como responsável pelo rapto de indígenas e contratação de jagunços para exterminar a população originária da região.
Embora não estejam diretamente ligadas entre si, essas duas empresas, Cobrimco e Santa Maria Agropecuária, se conectam através do Bradesco e continuam influentes no passado e presente do povo Xetá. A primeira, por ter exterminado sistematicamente os indivíduos da etnia e se apossar de suas terras. A segunda, por interromper a demarcação da TI Herarekã com uma ação judicial no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4).
Os réus do processo movido pela Santa Maria são a União e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). A autora exige a anulação da demarcação da terra Herarekã Xetá com base na tese do marco temporal. Assim, os indígenas não teriam direito à área por não a ocuparem em 1988, quando a Constituição foi promulgada.
O contralaudo encomendado pela empresa para fazer oposição à Funai diz que os Xetá foram vítimas de uma “geada”, apesar dos assassinatos, envenenamentos, sequestros de crianças e outras violências apontadas no relatório da Comissão Estadual da Verdade. Adauto Anderson Carneiro, já falecido, foi responsável pelo documento que “contra-argumenta” a demarcação. Ele se apresentava como “consultor independente em antropologia” e foi dono de uma serraria e sócio-administrador de uma empresa de medição de terras.
O advogado da Santa Maria Agropecuária no processo que interrompe a demarcação é Rudy Maia Ferraz, diretor jurídico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), gigante que trabalha em defesa dos interesses do agronegócio. Em 2014, o Ministério Público Federal (MPF) investigou o possível pagamento de R$ 30 mil a Ferraz para a elaboração do texto da PEC 215.
A proposta é de 2000 e pretendia passar o papel da Funai de demarcar terras indígenas para o Congresso Nacional, dominado pela bancada ruralista. O relator da proposição foi Osmar Serraglio, que hoje integra o Progressistas do Paraná, partido de Pedro Lupion. A região de Umuarama (PR), no mesmo noroeste em que os Xetá viveram e foram sistematicamente assassinados, é reduto eleitoral de Serraglio.
Em resposta ao Observatório do Agronegócio sobre a empresa em Ivaté, o Bradesco afirmou se tratar de um “assunto de caráter pessoal, sem relação com o banco”. Os Xetá não são o único povo indígena afetado por ações ligadas à instituição. Segundo a CEV, nos anos 1970, a empresa foi beneficiada pela captura e cativeiro dos Avá-Canoeiro do Araguaia, no Tocantins. Em parceria com a fazenda Canuanã, o grupo empresarial investiu nas terras originárias da etnia para a criação de gado.
Na cidade de Aquidauana (MS), indígenas do povo Kinikinau reivindicam a retomada das terras da fazenda Água Branca. De acordo com a imprensa sul-mato-grossense, o processo de interdito proibitório, que impediu a ocupação do povo originário, se refere ao antigo nome da propriedade como “Fazenda Bradesco”. A Fundação Bradesco ainda foi apontada como dona do imóvel, também voltado à pecuária.
De Lupion em Lupion
A agenda anti-indígena de uma das famílias mais tradicionais da política paranaense começa com o governo de Moysés Lupion, mas não termina ali. O império econômico do ex-governador foi erguido na fase de expansão da fronteira agrícola paranaense para os interiores “inexplorados” do estado, em meados de 1950, época de sua primeira gestão.
O processo era simples: desmatar, lotear e plantar café. Com a expansão das terras agricultáveis, a mata nativa foi rapidamente varrida do Paraná, hoje com 26% do território coberto por floresta, segundo dados do MapBiomas.
Lupion investiu pesado em um dos setores mais promissores de seu tempo: a atividade madeireira. “Ele está em 1930, quando se abre a fronteira agrária do norte do Paraná, está no negócio da madeira e serraria, que [na época] é o negócio mais lucrativo”, afirma o sociólogo, professor e decano do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo Costa de Oliveira.
Em 1947, quando foi eleito para o primeiro mandato no governo estadual, a fortuna do político já era uma das maiores do país. O livro “A Construção do Paraná Moderno”, organizado por Oliveira, elencou o capital diverso do empresário. “Fábrica de caixas em Ponta Grossa, indústria de ferro em Castro, fábrica de papel e celulose de Arapoti, fábrica de fósforos em Piraí do Sul, serraria do Rio do Peixe, [...] fornecimento de madeira à indústria de papel e celulose de Cachoeirinha”, entre uma lista de outros empreendimentos.
“No início da década de 1940, ele se torna um dos homens mais ricos não só do Paraná, mas do Brasil”, aponta o sociólogo. Ainda segundo o levantamento, o ex-governador investiu em petróleo, urânio, agências bancárias e veículos de imprensa. Ainda assim, o destaque ficou com o setor da madeira. Lupion foi dono de fazendas no oeste paranaense “com mais de um milhão e trezentos mil pinheiros”.
Apesar da fortuna acumulada, escândalos de corrupção fizeram o império do político decair com os anos. Em 1964, Moysés teve o mandato de deputado federal cassado pelo Ato Institucional nº 1, da ditadura militar. Ao contrário do patrimônio material, seu capital político teve sucessão. “A família não tem nem a sombra da grande fortuna do Lupion, mas continua com uma presença muito ativa na área do agronegócio ruralista”, afirma Oliveira.
Abelardo Lupion, neto do ex-governador, foi deputado federal pelo Paraná por seis mandatos e ocupou a presidência da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Em 2012, esteve entre os 29 deputados que votaram contra a PEC 438/01, que previa a expropriação de propriedades onde fosse identificada a ocorrência de trabalho escravo.
Na área dos direitos dos povos indígenas, Abelardo foi um dos coautores da PEC 215 (através da gêmea PEC 411, apensada), que tentou entregar ao Congresso Nacional a demarcação das TIs. No próprio canal do YouTube, o ex-deputado elogia a trajetória política da família e exalta o avô, responsável por grande parte dos conflitos fundiários no estado. “O Paraná deve muito a ele [...] Um dia, nós vamos montar o ‘museu Moysés Lupion’”, declara.
Para Rafael Pacheco, do Centro de Estudos Ameríndios (CEstA) da Universidade de São Paulo (USP), a participação da família na política ruralista não é coincidência. “Se você pegar os anos 1950 e pegar agora, você vê que é a mesma linha, são os mesmos personagens, mesmo agronegócio, mesmos políticos”, aponta.
Atualmente, quem carrega a herança política da linhagem no Congresso Nacional é Pedro Lupion (PP-PR), filho de Abelardo e bisneto do ex-governador. Ele foi reeleito para a presidência da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e deve comandar a entidade até 2027. “De Lupion a Lupion, você tem 70 anos de uma família que atua dentro da política brasileira contra as terras indígenas de maneira muito evidente”, aponta Pacheco.
Nas redes sociais e na Praça dos Três Poderes, o deputado tem sido porta-voz da tese do marco temporal. De acordo com ela, os Xetá, sistematicamente assassinados já a partir de 1950, deveriam estar sobre seu território originário em 1988, quando a Constituição foi promulgada.
“De Lupion a Lupion, você tem 70 anos de uma família que atua dentro da política brasileira contra as terras indígenas de maneira muito evidente”. – Rafael Pacheco, antropólogo e pesquisador da USP
Política anti-indígena
Em 2014, a TI Herarekã Xetá foi pauta da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). A Funai realizou, naquele ano, a etapa de delimitação da TI, uma das primeiras fases do processo demarcatório. O território fica em Ivaté (PR), no noroeste paranaense, região de origem da etnia. A movimentação para dar sequência à demarcação inflamou políticos paranaenses.
O então deputado estadual Fernando Scanavaca, à época do PDT, afirmou falar em defesa de “500 famílias produtoras de Ivaté, no noroeste do Paraná, que estão lá desde quando o governo do estado da década de 50 e 60 e a colonizadora Cobrimco povoaram aquela região”.
A terra delimitada para os Xetá, no entanto, está sob a propriedade de uma única empresa: a Santa Maria Agropecuária. A preocupação de Scavanaca com o agronegócio da região não é à toa – o reduto eleitoral do político fica a cerca de 50 km dali, em Umuarama (PR), onde ele foi prefeito de 1997 a 2004. Em 2024, o ex-deputado estadual foi eleito para o terceiro mandato no governo da cidade.
“A Funai é exímia em inventar índios, trazendo-os de outras tribos, de outras regiões do país, para fazer de conta que eles têm direitos de áreas que estão ocupadas por produtores rurais há décadas”, acusa Scanavaca. Valdir Rossoni (PSDB), então presidente da Alep, também aproveitou a sessão para fazer coro contra a Funai. “Revolta qualquer paranaense que produz para que esse país se desenvolva”, afirma.
Assim como Scanavaca, sem apresentar qualquer prova, ele acusa o órgão de “fabricar” indígenas, denunciando uma suposta estratégia de ocupação de propriedades no estado por populações originárias. “Estão fabricando índios, treinando pessoas do Paraguai para virem dizer que são índios, para ocupar propriedades produtivas”, alega.
Na época da sessão, Pedro Lupion, filiado ao extinto Democratas, exercia o segundo mandato como deputado estadual pelo Paraná. Ele fez uso da palavra para, assim como Scanavaca e Rossoni, deturpar a luta dos Xetá pelo território. “Nós não estamos falando daquele índio de cocar, arco e flecha, que mora em oca. Nós estamos falando de pretensos descendentes indígenas, que hoje usam calção, camisa de time de futebol e estão andando de caminhonete Hilux e carabina na mão”, diz.
“Nós estamos falando de pretensos descendentes indígenas, que hoje usam calção, camisa de time de futebol e estão andando de caminhonete Hilux e carabina na mão”. – Pedro Lupion (PP-PR), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA)
Ao contrário da empresa Santa Maria Agropecuária, protegida por três políticos ligados ao agronegócio, os Xetá não tinham nenhuma representação em sua defesa na Alep. “O que me preocupa é que, mais uma vez, o produtor rural é quem paga a conta”, afirma Lupion.
A segunda parte do dossiê “Os Invasores”, do De Olho nos Ruralistas, expôs os políticos da FPA que receberam doações de fazendeiros com propriedades sobrepostas a demarcações indígenas. Em 2022, quando foi eleito pela primeira vez para a presidência da bancada ruralista, a campanha de Pedro Lupion recebeu R$ 20 mil do algodoeiro mato-grossense Cirineu de Aguiar, sócio Agropecuária Calupa.
“A empresa é a dona da Fazenda São Tomé, que tem a totalidade de seus 2.500,83 hectares sobrepostos à TI Apiaká do Pontal e Isolados, no município de Apiacás (MT)”, aponta o relatório. Paulo Sérgio Aguiar, irmão de Cirineu, possui outra fazenda de 3 mil hectares titulados dentro do mesmo território indígena.
Histórico da demarcação
De acordo com o indigenista da Funai Mauro Leno Silvestrin, a terra delimitada para os Xetá está avaliada, hoje, entre R$ 85 e R$ 105 milhões. O valor não chega a 1% da fortuna estimada de Lia Aguiar, herdeira do Bradesco e sócia da Santa Maria Agropecuária, que tem propriedade sobreposta à TI Herarekã.
A principal atividade da empresa é o plantio de cana-de-açúcar e de pinus. Em 2014, o Canal Rural entrevistou João Eduardo Meireles, gerente da fazenda São Francisco, uma das propriedades da agropecuária.
Na entrevista, ele se baseia no estudo feito “através de um antropólogo” – possivelmente Adauto Carneiro – para dizer que “esses índios [Xetá] vieram do Paraguai”. A hipótese é a mesma usada por Pedro Lupion a respeito do conflito instalado em Guaíra (PR), onde indígenas do povo Avá-Guarani reivindicam demarcação.
“Não tem nada que prove que teve índio um dia lá, como não tem até hoje. Nunca teve”, afirma Meireles a respeito dos Xetá, contrariando setenta anos de pesquisa e investigação que comprovam a origem do povo na região.
Segundo Mauro Leno, a TI Herarekã Xetá deveria ser um caso simples de demarcação, apesar de todo o esforço político e jurídico para barrar a Funai. “A terra indígena Herarekã Xetá é a mais fácil de demarcar hoje no Brasil”, afirma.
Um dos maiores desafios dos processos demarcatórios é a indenização de múltiplos proprietários que se sobrepõem a um território indígena delimitado. “A gente tem terra indígena como Rio dos Índios, de 700 hectares, no Rio Grande do Sul, que impactou 70 agricultores”, exemplifica. No caso da Santa Maria, a indenização seria uma só, o que teoricamente torna o processo mais fácil. “É uma única fazenda, um único dono absenteísta, ele não mora lá”, afirma Leno.
“A terra indígena Herarekã Xetá é a mais fácil de demarcar hoje no Brasil”.– Mauro Leno, indigenista da Funai
“É uma situação muito mais tranquila de se resolver do ponto de vista administrativo”, afirma o indigenista. O desafio maior está na pressão política da bancada ruralista, representada pela CNA no processo da Santa Maria contra a Funai e a União. O cenário político no noroeste do estado e em todo o Paraná também dificultam a reparação aos Xetá. “Do ponto de vista político, é muito complicado”, diz.
Resistência e luta
Em 2024, o relatório que identificou a terra índigena Xetá completou uma década. De lá para cá, o processo não caminhou. Desde 1949, época dos primeiros contatos com a etnia, são mais de 75 anos sem qualquer reparação pelo genocídio.
Entre as recomendações finais da Comissão Estadual da Verdade, estão a “apuração e responsabilização dos agentes públicos e privados – particularmente da Itaipu e da empresa Cobrimco – que se envolveram direta ou indiretamente nas graves violações de direitos humanos impostas aos povos indígenas no Paraná”.
Até hoje, nenhuma das medidas exigidas pela CEV em relação aos povos originários saiu do papel. “A terra, hoje, é sobretudo reparação. Uma das primeiras coisas na Comissão Nacional era um pedido oficial de desculpas do Estado. Não houve”, afirma a antropóloga Edilene Cofacci de Lima, que integrou os trabalhos da comissão.
Quase todas as pessoas diretamente ligadas às chacinas, envenenamentos, sequestros de crianças e demais agressões contra essa população originária já morreram. Mas as consequências da violência colonial continuam vivas no presente e no futuro do povo Xetá. O que também persiste, tanto tempo depois, é a proteção a empresas e políticos ligados à história trágica dos indígenas do noroeste paranaense.
“É isso que constitui o ruralismo: você tem uma estrutura que é simultaneamente política e econômica, que ocupa tanto os espaços de deliberação sobre as políticas públicas como os grupos econômicos que são interessados”, avalia o antropólogo Rafael Pacheco, da USP.
No final dos anos 1990, a antropóloga Carmen Lúcia da Silva entrevistou os indígenas que sobreviveram ao genocídio na Serra dos Dourados. Uma das testemunhas do extermínio foi Tikuein Nhagoraj. “Às vezes, as pessoas pensam que só as armas matam, mas o medo, as doenças, a perseguição e a tristeza também matam”, afirma Nhagoraj, em depoimento à pesquisa.
Na contramão de quem afirma que os Xetá foram “extintos”, são “índios do Paraguai” ou que nunca passaram perto da região que um dia foi seu território originário, lideranças se articulam para resistir. De Curitiba a São Jerônimo da Serra, no norte do Paraná. Das terras indígenas à Assembleia Legislativa do estado. A luta do último povo originário paranaense a ser atingido pela colonização continua.
A série "Resistência Xetá" é a união de dois pilares que julgamos serem fundamentais para a construção de uma sociedade justa, igualitária e democrática: jornalismo e ciência. Ambos tecem processos de investigação, cada um com seus métodos de apuração, análise e escrita. Mas são capazes, especialmente quando unidos, de reconstruir a história muitas vezes negada oficialmente, a exemplo do povo Xetá.
E é exatamente em um momento de reconstrução da história do nosso país sob várias vertentes, com a instalação de Comissões da Verdade e a elaboração de dossiês que nos provocam a pensar um outro viés daquilo que insistentemente nos foi apresentado, é que nos pautamos para oportunizar a você, cidadão, acesso à história de um povo indígena inserido dentro de uma evidente marginalidade e que luta para sair da sub-representação.
Dessa maneira, propomos uma socialização do conhecimento sobre as razões e as circunstâncias que levaram às violações de direitos e que, em várias situações, subtraíram a memória, a verdade e até mesmo a vida.
Fazemos isso por meio da Agência Escola UFPR, um projeto cujo foco é a formação de alunos de diferentes cursos para a reflexão crítica e a prática profissional da Divulgação Científica e a Comunicação Pública da Ciência em diferentes linguagens e formatos. Um dos resultados é a série que aqui está. O nascedouro das cinco reportagens que emolduram esse trabalho é uma dissertação de mestrado, o que nos mostra como o conhecimento científico nos guia e o jornalismo, ciente da sua responsabilidade, nos conduz à reflexão ao transformar o conhecimento gerado pela ciência em um formato palatável.
Arte gráfica (ilustração e selo): Chaiane Petroli da Silva, sob orientação de Naotake Fukushima
Pesquisa: Flávia Cé Steil e Rodrigo Matana
Projeto editorial: Alice Lima
Gestora de Desenvolvimento Institucional: Patricia G. Melo
Coordenação-geral: Regiane Ribeiro