Por Rodrigo Matana
Supervisão: Maíra Gioia
Agência Escola UFPR

Os Xetá foram um dos últimos povos contatados pela sociedade não indígena no Sul do Brasil. Originários do noroeste do Paraná, eles são um dos únicos no estado sem território demarcado ou qualquer outra forma de reparação. Crianças arrancadas dos pais, expulsões, assassinatos, aldeias inteiras massacradas – todas essas formas de violência já foram reconhecidas publicamente, mas, mesmo assim, são ignoradas pelo Estado brasileiro.
Leia as reportagens da série
Setenta anos após genocídio, povo Xetá segue sem reparação
Reencontro de sobreviventes reergueu povo quase exterminado
Governadores, empresas e café contribuíram para quase extermínio dos Xetá
Um legado político e econômico construído sobre o genocídio
Duas grandes batalhas marcam a história da etnia. A primeira foi sobreviver ao extermínio promovido por empresas de colonização e pelos governos paranaense e brasileiro a partir de 1950, quando essa população foi alcançada. A segunda é mais silenciosa, mas ainda assim cruel: a todo momento, os Xetá precisam provar à sociedade não indígena que ainda estão aqui e que querem ser reparados pelo genocídio que quase os levou ao fim de sua história milenar.
Na contramão de políticos, milionários e gigantes do agronegócio – que no Paraná andam quase sempre de mãos dadas –, as novas gerações do povo Xetá se articulam para lutar pela demarcação do território originário, interrompida por uma empresa dos herdeiros do Bradesco. São 75 anos de violência desde que a etnia foi atingida pela colonização. Há décadas, a Terra Indígena (TI) Herarekã Xetá enfrenta a burocracia demarcatória e a pressão política de ruralistas.
São Jerônimo da Serra
A Terra Indígena (TI) São Jerônimo da Serra fica no norte do Paraná, no município de mesmo nome. Três etnias convivem na área demarcada: Kaingang, Guarani e Xetá. A última, como inquilina. Nos anos 1980, Tikuein Nhagoraj e sua família foram acolhidos pelos dois outros povos. O indígena foi uma das crianças Xetá retiradas à força de sua região de origem, conhecida como Serra dos Dourados, no noroeste paranaense.
Sem direito ao território originário, os Xetá hoje vivem distantes uns dos outros. Alguns núcleos estão no interior ou em cidades do Paraná, Santa Catarina e São Paulo. A maioria está concentrada na TI São Jerônimo. Segundo as lideranças, a demarcação abriga hoje cerca de 40 famílias da etnia, número que continua crescendo.
Os filhos de Tikuein herdaram a luta por reparação. Após a morte do pai, em 2005, a liderança passou para as mãos de Claudemir da Silva, 46. Foram quinze anos na linha de frente. Seu nome indígena é Itakã, que quer dizer “pedrinha d’água”. No terreiro em frente à casa de madeira da família, debaixo de algumas árvores e de um casal de maritacas, ele não contém a insatisfação. “Hoje, nós estamos em uma terra que não é nossa”, resume.
“Eles pedem documentos e documentos, só que eles sabem, na realidade, o que aconteceu e o que está acontecendo”, afirma Claudemir. As denúncias e provas do que ocorreu aos Xetá constam no relatório da Comissão Estadual da Verdade do Paraná – Teresa Urban (CEV/PR), publicado em 2017. Assassinatos, sequestros, expulsão, chacinas e todos os métodos de violência colonial empregados no processo de ocupação da região estão registrados no documento.
Há alguns anos, Claudemir sofreu um acidente de moto e perdeu o movimento de um dos braços. Por isso, está aposentado – a paralisia de um dos membros impede qualquer emprego fixo ou registrado. Após tanto tempo na liderança, a missão foi passada aos irmãos. Mesmo assim, ele nunca deixou de acompanhar de perto a luta do próprio povo. “Somos os Xetá, uma prova viva que está aqui”, declara.
“Somos os Xetá, uma prova viva que está aqui.”– Claudemir da Silva, ex-liderança Xetá
Hoje, o líder da etnia é Julio Cesar da Silva, 43 (em Xetá, Tikuen Rararal, que significa “menino rato”). Ele ocupa a posição há dois anos. De acordo com a liderança, no começo, a TI São Jerônimo “tinha umas vinte famílias, o espaço era bem amplo”. A área era suficiente para que os três povos praticassem a agricultura. “O meu pai [Tikuein Nhagoraj] fazia as plantações dele, as outras etnias faziam também”, afirma o líder Xetá. “Com o passar do tempo, vem crescendo a população e a gente vê que o terreno vai diminuindo”, ressalva.
A geração de renda e até a subsistência dentro da TI são um desafio. “Mais da metade dessa aldeia é penhascão, mata e ribanceira”, afirma Claudemir, que cultiva alguns pés de mandioca e cria porcos e galinhas para o consumo da família. Boa parte dos empregos na região fica limitada ao corte de eucalipto. Os jovens da família precisaram buscar trabalho longe, em Curitiba e Umuarama (PR), e até em outros estados, como Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
Língua e resistência
Por anos, Julio trabalhou fichado fora da aldeia, ocupação que o obrigava a passar muito tempo viajando. “Era ruim, porque a gente perdia o crescimento das crianças”, lembra. Hoje, além de liderança, ele é professor no Colégio Estadual Cacique Koféj, que fica dentro da TI São Jerônimo. As aulas são de terça à sexta-feira, com cinco professores. “A gente tem um tempo para, durante o dia, conversar com os jovens. Falar com eles em prol da luta, da cultura”, afirma.
O colégio funciona o dia todo e atende às etnias Kaingang, Guarani e Xetá. Uma das salas da escola é dividida em duas partes: a primeira tem as paredes decoradas com grafismos e cartazes na língua guarani. Depois da divisória, os símbolos e palavras que estampam o ambiente são outros. Ali, dois homens dividem uma mesa para elaborar os materiais que serão usados em aula.
Os livros, imagens e atividades precisam ser feitos à mão, do zero, pelos próprios professores. Leandro da Silva, sobrinho de Julio, ensina a língua materna Xetá há dois anos. No colégio, o maior desafio do ensino é a falta de materiais didáticos que incluam a etnia. “Nós mesmos temos que preparar”, afirma Leandro. Naquele momento, eles desenhavam o calendário Xetá, que organiza o ano conforme as práticas do povo indígena em relação à natureza. Novembro é o mês da caça; junho é dedicado ao cultivo do jerivá e da erva-mate.
“A gente não tinha material pra começar, só tinha a memória que foi passada do pai [Tikuein Nhagoraj] pra gente”, conta Julio. A língua materna da etnia passou a ser lecionada no colégio por iniciativa dos próprios indígenas. “Eu comecei a trabalhar com o que tinha na memória”, recorda.
Os livros usados em aula foram elaborados a partir de uma parceria dos Xetá com a Universidade Estadual de Maringá (UEM). Aryon Rodrigues, um dos primeiros brasileiros dedicados ao estudo das línguas indígenas, contribuiu com dados coletados nos anos 1960, durante viagens ao território originário da etnia, no noroeste do Paraná.
Apesar da contribuição ao ensino, as publicações datam de 2013 e não são atualizadas há mais de uma década. “Esse vocabulário não é tão extenso”, afirma Julio. “A gente tem bastante ideias, bastante material que a gente queria por em cartilha, ter mais livros, até mesmo para os próximos professores”, diz.
Julio dá aulas de língua materna Xetá no período noturno, que atende do primeiro ao terceiro ano do ensino médio e vai até 23h. Com a chuva, a locomoção nas estradas de chão na TI fica difícil. Dois alunos compareceram nesse dia: José Adenilson e Júlia Ribeiro da Silva. Os dois têm 18 anos e estão prestes a se formar.
Ao entrar, cada um cumprimenta o professor: “mira'atxà”, que na língua Xetá quer dizer “boa noite”. Eles dão sequência na produção do calendário da etnia, iniciado à tarde pelos professores. “Por um tempo, eu estudei Kaingang e Guarani, porque no começo não tinha aula Xetá”, conta Júlia. “Agora, a gente está aprendendo a nossa cultura, da nossa etnia”, afirma.
Com a pandemia de covid-19, as formaturas no colégio só voltaram a acontecer em 2023, ano em que o ensino foi normalizado no Brasil. Apesar dos bloqueios da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e dos caciques, o coronavírus conseguiu penetrar na TI São Jerônimo da Serra. Um ancião guarani esteve entre as vítimas fatais da doença. A formatura da primeira turma pós-pandêmica foi em 2024. “Atrasou bastante o estudo, não só aqui dentro da aldeia”, afirma o professor.
Além da língua, as aulas abordam também os símbolos do povo indígena. Nas paredes, cada um dos grafismos Xetá tem um significado: um era usado no ritual de passagem masculino, outro era usado pelas meninas. “Esses grafismos eram usados na época de festividade, [...] quase foi esquecido”, conta o líder.
O Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) preserva um acervo de ornamentos, ferramentas e artefatos Xetá. Os objetos foram coletados durante expedições acadêmicas à Serra dos Dourados, especialmente as realizadas pelo antropólogo José Loureiro Fernandes e pelo cinetécnico Vladimir Kozák.
No entanto, os Xetá de São Jerônimo da Serra estão a uma distância de 300 km da coleção, que fica em Curitiba. Há algum tempo, Julio e outros indígenas visitaram a reserva técnica do MAE para reencontrar os objetos confeccionados pelos parentes no território originário. “Ali, passou um filme na cabeça. Eu imaginei como seria lá atrás, se a gente não fosse forçado à saída do território”, desabafa.
No colégio, o contato dos estudantes com os artefatos e ornamentos do próprio povo fica limitado às fotos que o professor mostra pelo celular. “O meu sonho era de levar os alunos para fazer essa visita. Eles vendo o material, fortaleceria a cultura”, diz.
De acordo com a liderança, alguns indígenas têm o desejo de retomar a posse dos materiais pilhados por trabalhadores e pesquisadores na época do contato violento com os Xetá. Por outro lado, ele reconhece a importância da proteção dos artefatos, especialmente diante da destruição e extermínio promovidos na região originária da etnia. “Com o que aconteceu com o nosso povo, se eles não fazem esse acervo e guardam em um lugar adequado, hoje não teria nem para a gente ver”, expressa.
Barreiras da distância
Os Xetá estão também em Curitiba, capital do estado. Indioara Luiz Paraná é integrante da Associação de Mulheres Indígenas Xetás (AMIX) e liderança na Aldeia Urbana Kakané Porã, onde vive há dezesseis anos. Seu pai era Tucanambá José Paraná (Anambu Guaka, em Xetá), falecido em 2007. Ele foi uma das primeiras crianças raptadas por não indígenas na época do contato da etnia com as frentes de colonização, nos anos 1950.
A 300 km de São Jerônimo da Serra, os parentes na Kakané Porã têm acesso limitado ao aprendizado da língua. “A gente sente falta de aprender a falar o Xetá”, afirma. A preocupação de Indioara é, em especial, com o aprendizado do idioma pelos filhos e netos, como Ryan, 17, caçula da família.
“O futuro é um sonho que a gente tem de, lá na frente, nossos filhos terem aprendido a falar [o idioma], meus netos, meus bisnetos”, diz. Hoje, o contato dos Xetá na capital com o aprendizado da língua materna fica restrito a mensagens e áudios trocados via celular com os familiares no norte do estado.
Assim como em São Jerônimo, também há uma escola indígena na Kakané Porã. No entanto, nela só se ensinam as línguas Guarani e Kaingang. Segundo Julio, a possibilidade de enviar professores a Curitiba chegou a ser cogitada. “Eles estão todos trabalhando aqui no colégio, então a gente não tem professor disponível para mandar para trabalhar com eles lá [em Curitiba]”, afirma.
De acordo com o professor, o ensino remoto também foi discutido, mas a falta de estrutura e de logística são um empecilho. “Não é igual o presencial, o tempo é muito escasso”, explica. O ensino da língua, para ele, exige contato direto. “Pessoalmente, a gente escreve, mostra como é a fonética de cada palavra”, afirma.
Apesar das barreiras geográficas, os Xetá fazem o possível para perpetuar a cultura originária. Tudo retorna à luta pela terra. Reunidos no território originário, os familiares hoje divididos pela distância poderiam reconstituir a história e a identidade da etnia. “Quando nasce uma criança lá, eles perguntam para a gente como se fala o nome, que eles querem por nome indígena”, comenta Julio.
Para o líder, a demarcação está no centro de todos os desafios. “A terra é o alicerce de tudo, desde a cultura até a língua”, afirma. A esperança de Indioara, é de, no futuro, “ter alguém para estar ensinando, para não ficar no esquecimento essa história”.
“A terra é o alicerce de tudo, desde a cultura até a língua”. – Julio Cesar da Silva, liderança Xetá
Luta pelo território
“O governo do estado do Paraná até hoje nunca assumiu que existe essa dívida”, afirma Adriano da Silva, indígena Xetá e historiador pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Ele integra o Conselho Estadual dos Povos Indígenas do Paraná (CEPI/PR), onde representa a etnia no diálogo com setores do governo e da sociedade civil. “O primeiro passo importante é o governo assumir que existe uma dívida, e essa dívida tem um preço”, afirma.
A articulação política para pressionar o poder público já é um desafio por si só, mas fica ainda mais difícil com a separação geográfica dos indígenas. “Para a gente criar um documento, tem que ligar para todos. Não é fácil, devido à distância”, conta Claudemir da Silva.
Em abril de 2024, os Xetá participaram de uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), onde exigiram reparação por parte da União e do governo estadual. A reunião foi promovida pelo deputado estadual Renato Freitas (PT), presidente da Comissão de Igualdade Racial da Alep. Julio da Silva e Indioara Paraná, ao lado de outros indígenas e demais pessoas ligadas à pauta, reiteraram o papel do governo no processo demarcatório.
“Por culpa do não índio, eu não conheci meus parentes por parte do meu pai”, afirma Indioara. Tucanambá contava à filha sobre as irmãs que desapareceram na época do genocídio, em meio aos sequestros e assassinatos praticados pelas frentes de colonização. “Eu não pude as conhecer, não sei se elas morreram ou se conseguiram se salvar”, diz.
Para o indigenista Mauro Leno Silvestrin, da Funai, “o Estado brasileiro, com essa demora, com a mora em demarcar essa terra, está empurrando os Xetá para se colocarem em risco novamente”. As lideranças, no entanto, não cogitam a retomada do território originário pela força, apesar das pressões. “Se fosse pelo povo Xetá, a gente estaria em cima dessa terra [...] Mas a gente sabe que, voltando lá, a gente vai correr um risco de vida”, explica Julio.
“Se eles não tivessem feito o que fizeram, não precisaríamos estar aqui mendigando uma terra que é nossa”, assegura Indioara. O advogado da Associação Indígena da Etnia Xetá (AIEX), Marco Alexandre Souza Serra, falou na Alep sobre as responsabilidades do governo estadual na reparação do povo indígena.
De acordo com ele, cabe ao governo paranaense, ainda antes da demarcação, a “imediata implementação de medidas tendentes a promover a melhoria das condições de vida das comunidades Xetá, [...] em especial, a que hoje divide a terra indígena de São Jerônimo com comunidades Guarani e Kaingang em condições muito adversas”.
“Não apenas em razão da reduzida dimensão dessa determinada terra indígena [TI São Jerônimo] em relação à densidade populacional que lá hoje se experimenta, mas também pelo fato de os Xetá não se encontrarem naquela terra na condição de quem as têm para si”, afirma. As medidas, de acordo com Souza Serra, devem incluir acesso a “água potável, energia elétrica, condições sanitárias satisfatórias, fornecimento de cestas básicas, bem como serviços de saúde e serviços educacionais apropriados aos costumes e necessidades Xetá”.
Segundo o advogado, é também papel do governo estadual pressionar a União pelo avanço na demarcação da TI Herarekã Xetá e pela “emissão da portaria declaratória por parte do Ministério da Justiça, e a posterior homologação [...] por parte do presidente da república e sucessiva tramitação necessária à desintrusão da terra por parte dos atuais ocupantes”.
É responsabilidade do Paraná, conforme Serra, determinar uma política reparatória que contemple o pagamento de indenização por danos materiais e morais coletivos à etnia. A medida pode responsabilizar a Itaipu Binacional. Nos anos 1980, a área do Parque Nacional de Sete Quedas, que deveria ter abrigado os Xetá após sua expulsão do noroeste, foi inundada pela construção da hidrelétrica.
Entre as demais reivindicações, estão o custeio de “trabalho de prospecção arqueológica para localização e preservação de eventuais sítios arqueológicos existentes na região da TI Herarekã Xetá”. A advogado da AIEX também demanda que o governo paranaense implemente “ações educativas para a população em geral, na educação básica, inclusive, visando o resgate e a valorização da cultura Xetá”.
A luta pelo território originário é acompanhada por receio das famílias da etnia. Hoje, a área delimitada para a TI Herarekã Xetá, em Ivaté (PR), é sobreposta pelas fazendas da Santa Maria Agropecuária Ltda. A empresa é ligada aos herdeiros do Bradesco, Rubens Alvarez Aguiar e Lia Maria Aguiar, a última com patrimônio estimado em R$ 9 bilhões.
O banco era proprietário da Companhia Brasileira de Imigração e Colonização (Cobrimco). De acordo com a Comissão Estadual da Verdade – Teresa Urban (CEV/PR), a empresa foi responsável pelo extermínio sistemático dos Xetá, no noroeste do estado, durante a expansão colonial.
“O medo da gente é que a gente vá nesse lugar, levar nossos filhos para lá, e aconteça alguma coisa de pior”, ressalta Indioara. O processo não passou da fase de delimitação, realizada pela Funai em 2014. Desde então, a TI enfrenta pressões de ruralistas que compõem a política paranaense. “A gente não conhece essas pessoas, como eles vão reagir”, diz.
Marco temporal
Em setembro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou como inconstitucional, por 9 votos a 2, a tese do marco temporal. Segundo ela, os povos indígenas teriam direito apenas ao território que ocupassem ou disputassem no dia 5 de outubro de 1988, quando a Constituição foi promulgada.
Ainda assim, o Congresso Nacional e o Senado aprovaram a Lei 14.701/2023, que regulamenta a tese do marco. O governo federal, em respeito ao entendimento do STF, vetou o trecho da lei que fixa a data para as demarcações em 1988. No final do ano, os deputados federais derrubaram o veto presidencial e a lei entrou em vigor.
Já em abril de 2024, o Supremo suspendeu todos os processos judiciais que discutem a constitucionalidade do marco temporal. Com o objetivo de “pacificar” a disputa, o ministro Gilmar Mendes convocou uma mesa de “conciliação” entre povos originários e ruralistas. Na primeira reunião, apenas 6 das 24 cadeiras foram ocupadas por representantes indígenas. “É um absurdo, porque não se concilia direito constitucional. Um direito claro, líquido e certo não tem por que se conciliar”, afirma Mauro Leno, da Funai.
A partir de 1950, os Xetá estiveram na mira de chacinas, envenenamentos, sequestros e outras de violência colonial – processo que, em cerca de uma década, varreu a população de seu território ancestral, no noroeste do Paraná. Quem defende a tese do marco temporal exige que, para ter direito à terra, esses indígenas deveriam estar sobre ela em 1988, quase quarenta anos após seu povo ser alvo do genocídio.
“A maioria foi assassinada, foram expulsos, saiu caminhão de indígenas de lá. Como é que a gente vai estar lá?”, questiona Claudemir. A violência contra os Xetá, além de documentada pela Comissão Estadual da Verdade, foi denunciada ainda na época do contato por entidades nacionais e internacionais, além da cobertura feita pela imprensa e dos apelos de pesquisadores como José Loureiro Fernandes.
Entre os representantes do Congresso na mesa de conciliação do marco temporal, está Pedro Lupion (PP-PR), líder da bancada ruralista e presidente da Federação Parlamentar da Agropecuária (FPA). Ele é bisneto do ex-governador paranaense Moysés Lupion (PSD), responsável pelo esbulho de terras indígenas em todo Paraná na década de 1950.
“Gerações atrás dessa família foram responsáveis pela retirada de diversas comunidades de suas terras, de suas aldeias, e agora o bisneto quer impedir que os indígenas que não estavam nesses lugares em 1988 possam retornar”, afirma Rafael Pacheco, antropólogo do Centro de Estudos Ameríndios (CEsTA) da Universidade de São Paulo (USP).
“Antigamente, eles matavam os indígenas na bala. Hoje, é na caneta”, assinala Claudemir da Silva. Para ele, não há interesse político pela proteção dos direitos dos povos indígenas. “Eles dão muita prioridade para os grandes fazendeiros, que exportam grãos. [...] O governo nos vê como um peso”, diz.
A demarcação da TI Herarekã Xetá já passou por uma redução: de cerca de 12 mil hectares para 2,6 mil hectares. “Quase perdemos a memória dos nossos antigos. Perdemos nosso povo, foi dizimado”, afirma o líder Julio da Silva. “Foi sofrimento demais para, hoje, o governo negar um direito nosso”, reitera.
“Se a gente quer começar a trilhar algum caminho que nos permita reverter parte do que o Lupion fez para os povos indígenas, tem que começar pelo território Xetá”, afirma o indigenista Mauro Leno.
“Antigamente, eles matavam os indígenas na bala. Hoje, é na caneta”. – Claudemir da Silva, ex-liderança Xetá
Identidade
Sueli da Silva, 42, vive com o esposo não indígena, filhos e netos no interior de São Jerônimo da Serra, fora da TI onde moram os irmãos. Seu nome indígena é Arikã (em Xetá, significa “côco de jerivá"). Ela foi a primeira professora a lecionar a língua materna Xetá no Colégio Estadual Cacique Koféj, onde trabalhou por quatro anos.
Mais tarde, abriu mão das aulas para ver os netos crescerem. Sueli conversa com o mais novo deles no colo. Enquanto isso, outros dois meninos brincam no pátio. Os mais velhos estão estudando. “Todos eles se identificam como Xetá”, faz questão de lembrar.
Transmitir a história dos antigos para as novas gerações é fundamental. No colégio ou em casa, com as crianças, a ex-professora mantém os jovens a par de tudo que envolve a etnia. “Eu conto para eles, tem vez que eu sento com eles para brincar no terreiro e começo a contar”, diz.
Embora ainda não estejam no território originário, a vida das crianças Xetá hoje é menos trágica do que a vivida pelas meninas e meninos raptados à época do genocídio, na Serra dos Dourados. “O meu pai contava para nós que pegaram eles que nem cachorro. Foram dando para uns e para outros. É muito triste o que aconteceu com o povo da gente ", recorda.
Assim como os irmãos, ela considera a vida do pai, Tikuein Nhagoraj, símbolo da luta dos Xetá por justiça. “Ele morreu lutando, querendo nossa terra de volta”, afirma. Apesar da dor, o legado do indígena é motivação para os jovens. “Eu quero que eles não deixem de lutar. Se a gente não conseguir realizar o sonho do pai, que pelo menos eles realizem. Que eles não deixem de lutar pelo direito que nós temos”, manifesta Sueli.
O futuro das novas gerações também preocupa Benedita da Silva, 46. Seu nome indígena, Kawá, significa “vespa”. Casada com um homem Kaingang, cria o neto Francisco desde o falecimento da filha. Os outros dois filhos estudam no Cacique Koféj, como as crianças de Sueli.
A narrativa de que apenas os sobreviventes diretos do genocídio, como Tikuein e Tuca, podem ser considerados Xetá ainda afeta a busca da etnia por reconhecimento e pela demarcação do território. “Eles falam que eram só os oito [sobreviventes]. Eles não sabiam que, dos oito, eles iam multiplicar, iam ter filhos, ter netos, e que iam precisar dessa terra?”, indaga Benedita.
“Nós já fomos escondidos demais, hoje queremos mostrar que nós existimos”.– Benedita da Silva, indígena Xetá
Só na TI São Jerônimo da Serra, vivem cerca de 40 famílias do povo Xetá, segundo as lideranças. Crianças, jovens, adultos, idosos, homens e mulheres. Velhas e novas gerações que aguardam por reparação. “Nós já fomos escondidos demais, hoje nós queremos mostrar que nós existimos. Não somos uma lenda, não morreu o [povo] Xetá”, destaca.
No dialeto da etnia, a palavra “xetá” significa “muitos”, explica o líder e professor Julio. “Ela é simbólica porque a gente sabe que, anos atrás, tinha muitas pessoas da etnia”, conta. O processo de extermínio na Serra dos Dourados, empreendido em pouco mais de dez anos, colocou a população à beira do fim, mas o tempo e a resistência dos Xetá têm garantido a recuperação demográfica da população. “A gente está recomeçando”, diz.
Seja em casa, durante as festividades ou na escola, o esforço para cultivar a história, cultura e memória é grande. Sempre que possível, os mais velhos reúnem a juventude para fortalecer a identidade da etnia. “A gente sempre faz um esforcinho de reunir a criançada para contar a história”, afirma Claudemir, ex-liderança. Separados e sem o território originário, tudo se torna um desafio. “Se a gente estivesse na terra da gente, todo dia a gente ia fazer isso”, reitera.
“Antigamente, existia até um pouco de vergonha, porque a gente não tinha muita visibilidade”, conta Claudemir. Mesmo frente a todas as dificuldades, o indígena reconhece que o povo Xetá resgatou forças para superar a narrativa da “extinção”, usada ainda hoje para desqualificar as reivindicações por reparação. “Hoje, eles batem no peito e falam: ‘nós somos Xetá, nós estamos aqui para lutar’”, destaca.
“Mestiço e descendente não existe. Ou você é, ou você não é”.– Claudemir da Silva, ex-líder Xetá
Por muito tempo, políticos, jornais e pessoas interessadas na invisibilidade da população originária fortaleceram a ideia que os Xetá “originais” foram “extintos” na Serra dos Dourados, ainda na metade do século passado. O casamento com não indígenas ou com indígenas de outras etnias é usado como argumento por quem desqualifica os Xetá, mas a identidade do povo indígena persiste. “Mestiço e descendente não existe. Ou você é ou você não é”, esclarece Claudemir. A etnia se reconhece hoje como restituída, apesar de todo o sofrimento por que passaram.
Legado dos sobreviventes
Tikuein Nhagoraj representa para os filhos a resistência do povo Xetá. “A gente sentia uma certa tristeza no tom de voz dele”, afirma Julio Cesar da Silva, caçula dos irmãos. “Mas, ao mesmo tempo, ele arrumava uma força, não sei de onde. O desejo dele era de não deixar desaparecer junto com ele”, rememora.
Também conhecido pelo nome de José Luciano da Silva, ele deu início, ao lado de Tuca e Kuein, à luta por justiça aos Xetá. “Por mais que ele estivesse enfraquecido espiritualmente, o corpo dele dava um jeito de mostrar um semblante de guerreiro pra gente, pra gente não desistir”, conta Julio.
Outros sobreviventes diretos do genocídio ainda aguardam por justiça aos Xetá. A menina à (em Xetá, Moko, que quer dizer “tamanduá”), retirada dos pais aos oito anos, hoje vive em Umuarama. No Museu Paranaense (MUPA), em Curitiba, ela reencontrou os brincos que as meninas usavam no tempo em que os Xetá ocupavam seu território originário.
“Tia Ô, como diz Julio, conta as histórias da vida na mata, antes da chegada das frentes de colonização. “A gente ia na casa dela, sentava lá para tomar um chimarrão”, recorda. “Tinha algumas coisas que ela contava, algumas que ela preferia não contar”. Kuein, que acompanhou Tuca e Tikuein durante as entrevistas com a antropóloga Carmen Lúcia da Silva, hoje vive na TI Marrecas, em estado debilitado de saúde.
A jornada de Tucanambá, pai de Indioara, também é continuada pelos filhos, netos e futuras gerações Xetá. “Eu acredito que, onde meu pai estiver, se ele estivesse vendo isso, ia dizer: ‘que bom que eles deram continuidade’”, afirma Indioara. “A gente está aqui, a gente existe. Nós, Xetá”, lembra a liderança da Kakané Porã. A luta desse povo indígena, mesmo diante de todas as dificuldades, vai continuar. “Eles têm que saber disso”.
“A gente está aqui, a gente existe. Nós, Xetá”. – Indioara Luiz Paraná, liderança na Kakané Porã
A série "Resistência Xetá" é a união de dois pilares que julgamos serem fundamentais para a construção de uma sociedade justa, igualitária e democrática: jornalismo e ciência. Ambos tecem processos de investigação, cada um com seus métodos de apuração, análise e escrita. Mas são capazes, especialmente quando unidos, de reconstruir a história muitas vezes negada oficialmente, a exemplo do povo Xetá.
E é exatamente em um momento de reconstrução da história do nosso país sob várias vertentes, com a instalação de Comissões da Verdade e a elaboração de dossiês que nos provocam a pensar um outro viés daquilo que insistentemente nos foi apresentado, é que nos pautamos para oportunizar a você, cidadão, acesso à história de um povo indígena inserido dentro de uma evidente marginalidade e que luta para sair da sub-representação.
Dessa maneira, propomos uma socialização do conhecimento sobre as razões e as circunstâncias que levaram às violações de direitos e que, em várias situações, subtraíram a memória, a verdade e até mesmo a vida.
Fazemos isso por meio da Agência Escola UFPR, um projeto cujo foco é a formação de alunos de diferentes cursos para a reflexão crítica e a prática profissional da Divulgação Científica e a Comunicação Pública da Ciência em diferentes linguagens e formatos. Um dos resultados é a série que aqui está. O nascedouro das cinco reportagens que emolduram esse trabalho é uma dissertação de mestrado, o que nos mostra como o conhecimento científico nos guia e o jornalismo, ciente da sua responsabilidade, nos conduz à reflexão ao transformar o conhecimento gerado pela ciência em um formato palatável.
Arte gráfica (ilustração e selo): Chaiane Petroli da Silva, sob orientação de Naotake Fukushima
Pesquisa: Flávia Cé Steil e Rodrigo Matana
Projeto editorial: Alice Lima
Gestora de Desenvolvimento Institucional: Patricia G. Melo
Coordenação-geral: Regiane Ribeiro