Texto de Marya Marcondes, aluna de Jornalismo da UFPR
Sob orientação de Rogerio Galindo
O juiz da 26.ª Vara Cível de São Paulo abriu prazo de 15 dias sucessivos para as alegações finais no processo da bailarina Cintia Mello contra o apresentador Ratinho, com os autos voltando para sentença. A audiência aconteceu na tarde de quarta-feira (28), no Foro Central Cível da capital paulista. O episódio que moveu a ação ocorreu em 1º de abril de 2024, em uma interação durante o Programa do Ratinho entre o apresentador e a bailarina Cintia Mello. Na ocasião, Ratinho tocou e fez comentários sobre o cabelo de Cintia.
A socióloga e coordenadora adjunta da Rede Mulheres Negras do Paraná, Camila Matos, explica que a atitude de Ratinho faz parte de um processo de objetificação racializada: “corpos negros são aceitos na cena pública, desde que eles ocupem um lugar de objeto, de subalterno. Cintia não é lida como uma sujeita plena, mas como um elemento da cena passível de controle, silenciada e desqualificada”. Veja o diálogo:
Ratinho: "Cintia, essa peruca sua é a mais bonita"
Bailarina: "Mas não é peruca, é meu cabelo. Hoje realmente é o meu"
Ratinho: "Não é seu cabelo! Eu vi um piolhinho aqui, puxa o cabelo dela, Milene"
Cintia diz ter procurado a direção do programa logo após a gravação, em busca de desculpas públicas, mas nega ter recebido retorno. Após pedido de demissão, a defesa da bailarina solicitou indenização de R$ 2 milhões e que Ratinho seja obrigado a ler um pedido de desculpas em programas diferentes e a publicar a sentença em jornais de grande circulação.
Na época do ocorrido, Ratinho negou ser racista e citou a presença de funcionários negros no programa e que tudo não passou de uma "brincadeira típica do formato humorístico do programa" como uma tentativa de justificar o ocorrido. A defesa foi rebatida por Cintia, que afirmou que conviver com pessoas negras não torna ninguém antirracista. Para Camila, a mídia brasileira — ainda tão perpetuada pelo racismo recreativo — reproduz essas desigualdades raciais e, de certa forma, contribui para a manutenção do racismo dentro de uma sociedade que hierarquiza tanto as vidas, quanto os corpos. “Infelizmente, elas [as mídias] reproduzem imaginários, reforçam e autorreforçam práticas raciais, cristalizam esses corpos num lugar de silenciamento, de apagamento e revitimizam as pessoas”, ressalta.
Em um vídeo publicado no Instagram em maio de 2025, a bailarina afirma que perfis promovem uma campanha de boicote contra ela, marcando empresas parceiras com as quais fechou acordos de trabalho. Tal retaliação, segundo ela, foi motivada por uma entrevista do apresentador no programa Pânico, da Jovem Pan, em abril de 2025. Durante sua participação, Ratinho reclamou que precisaria de uma mudança de postura por causa do "politicamente correto", mas que não a fará, e que as pessoas "vão pro quinto dos infernos". Ele também mencionou, em outra parte da entrevista, que o ambiente de trabalho no SBT ficou ruim após a polêmica envolvendo Cintia. “Não se trata do “politicamente correto”, a gente está falando de uma luta antirracista e que necessita sim de muito diálogo”, destaca a socióloga.
Ainda no início de janeiro deste ano, o apresentador do SBT foi absolvido por sugerir ataque à metralhadora contra a deputada federal Natália Bonavides (PT-RN). A decisão foi da 7ª Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5). A declaração ocorreu em 2021, e a ação foi movida pelo Ministério Público Federal (MPF). Durante uma entrevista à Rádio Massa, de sua propriedade, Ratinho reagiu a um projeto de lei apresentado por Natália Bonavides, que retira a expressão “declaro marido e mulher” do Código Civil. O apresentador insinuou também a “eliminação” de parlamentares que classificou como “loucos” e chamou a deputada de "feia do capeta".