Ela foi “batizada” como “Fatinha do Samba” por Arlindo Cruz — e essa e muitas outras peripécias da paranaense-carioca-pernambucana Maria de Fátima Barbosa agora viram biografia escrita pela própria filha, que será lançada na semana em que se celebra o Dia da Consciência Negra, no bairro que Fatinha mais amava: Madureira (Rio de Janeiro). Um enredo que merece “nota 10” dita em alto e bom tom, tal qual o da apuração das notas das escolas de samba. A autora é a professora de Relações Públicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Juliana Barbosa, pesquisadora sobre samba e jurada do prêmio Estandarte de Ouro.
O lançamento da biografia “Fatinha do Samba” acontece durante o Primeiro Festival Literário da Igualdade Racial (FLIIR), realizado de 20 a 23 de novembro na sede da Central Central Única das Favelas (Cufa) — evento nacional que reúne cem histórias de mulheres negras do Brasil e marca o mês da Consciência Negra com uma programação inédita e gratuita.
Juliana Barbosa lembra como acompanhou as discussões e o fortalecimento do que representa o 20 de novembro, que tem Zumbi de Palmares como grande protagonista, diferentemente das celebrações de 13 de maio, Dia da “Lei Áurea”, pautadas em uma liberdade “concedida”. Para ela, o mês já é sempre carregado de importância e significado, mas este será o novembro mais importante da sua vida. “Ser autora da biografia da minha mãe, em um livro que dá visibilidade a diversas mulheres negras do Brasil, eu nunca imaginei. Está muito além do que planejei ou almejei”.
A obra sobre Fatinha foi uma das 110 biografias selecionadas na chamada pública da segunda edição do Dicionário Biográfico: Histórias Entrelaçadas de Mulheres Afrodiaspóricas, iniciativa financiada pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR) e pelo CNPq, publicada pela Malê Editora. O texto narra a trajetória da sambista pernambucana criada no Rio e radicada em Londrina, onde se tornou uma pessoa essencial para a cultura local, como uma verdadeira rainha e madrinha do samba londrinense. Quando soube que seria retratada pela filha, Fatinha ficou “toda prosa e curiosa pra saber o que eu iria contar”, lembra a professora Juliana, entre risos.

O livro também conta com as biografias de outras duas paranaenses: Megg Rayara, pró-reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe/UFPR), e Dalzira Maria Aparecida, a Yagunã, uma das mais célebres Iyalorixás do estado e doutora em Educação pela UFPR. Yagunã defendeu sua tese em 2022, aos 81 anos de idade.
Multiplicar histórias de mulheres negras
Além do lançamento nacional, a professora também participará do início oficial do projeto Dicionários de Mulheres Amefricanas que, a partir de 2026, vai incentivar mulheres negras de todo o país a escreverem biografias de outras mulheres negras, multiplicando narrativas historicamente silenciadas. A coordenação da iniciativa no Paraná será responsabilidade de Juliana em parceria com a escritora e doutora em Letras Amanda Crispim, professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e coautora no volume 1 do Dicionário, com a biografia de Conceição Evaristo.
“As mulheres negras tiveram um papel decisivo na cultura do samba e na formação cultural brasileira, mas esse protagonismo foi historicamente ocultado por vivermos em uma sociedade marcada pelo racismo. Estamos escrevendo um novo passado, contando histórias que a História não contou”, explica Juliana Barbosa.
Fatinha “dos sambas”
Fatinha, que partiu em 2024, sempre se considerou “meio carioca e meio londrinense” e tinha grande afeto por Madureira. “Ela amava Madureira e sempre pedia para eu levá-la lá. De alguma forma, estou indo com ela mais uma vez”, conta a filha.
O livro também terá lançamentos no Paraná. Em 26 de dezembro, Londrina receberá o evento com roda do Samba da Padaria, encontro de amigos em homenagem à Madrinha do Samba. Será no bar Villa Conteiner. Em Curitiba, uma data será anunciada nas próximas semanas.
Festival Literário da Igualdade Racial (FLIIR)
Realizado de 20 a 23 de novembro, em Madureira (RJ), o FLIIR é o primeiro festival literário do país dedicado integralmente às narrativas negras e pan-africanas. Com o tema “Entrelaçando Letras e Lutas: Escrevivências Pan-Africanas e Igualdade Racial”, o evento reúne escritoras, pesquisadoras, artistas e lideranças de todo o Brasil para discutir literatura, justiça racial, memória, feminismo negro e diásporas.
A programação inclui palestras, oficinas, rodas de conversa, exibições de filmes, debates com especialistas e a final do SLAM BR, campeonato brasileiro de poesia falada, que pela primeira vez ocorre dentro da agenda de um festival literário.
Entre as homenageadas estão as irmãs Jeanne e Paulette Nardal, pioneiras do pensamento negro francófono, e a escritora Conceição Evaristo, referência da literatura brasileira contemporânea. Para a curadora e idealizadora, Thais Marinho, o festival “conecta passado e presente para afirmar que a igualdade racial não é utopia, mas prática, pesquisa e cuidado”.
Financiado pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR) e pelo CNPq, e realizado pela PUC Goiás e Kilombo Áyàn, o FLIIR coloca a literatura como instrumento de transformação social e de visibilidade para populações historicamente marginalizadas. A entrada é gratuita.