Pular para o conteúdo

Por que, mesmo com o frio intenso, os abrigos de Curitiba têm vagas sobrando?

O Plural ouviu os dois lados para entender a rejeição das pessoas em situação de rua aos serviços da FAS

Por que, mesmo com o frio intenso, os abrigos de Curitiba têm vagas sobrando?
Publicado:

Não é novidade que a população em situação de rua parece uma pedra no sapato de Rafael Greca, que volta e meia faz uma fala torta ou apresenta um projeto de lei que dificultaria a vida dessas pessoas. Nos últimos dias, em suas redes sociais, o prefeito lamentou algumas vezes os “leitos aquecidos livres” da Fundação de Ação Social (FAS). Na semana passada, o site da Prefeitura de Curitiba também anunciou que todas as noites sobram vagas nos abrigos do município, sem ouvir quem se nega a aceitar ajuda do serviço público.

“É muito complexo isso, né?”, avalia Vanessa Lima, do Projeto Mãos Invisíveis, que desde 2017 atende a população vulnerável da cidade. “Eu acho que a partir do momento que você tem a baixa adesão que a FAS tem, o mínimo que deveria acontecer é uma autocrítica. É preciso se questionar e efetivamente buscar saber por que o pessoal não adere ao serviço. Há todo um histórico de negação.”

O Plural quis saber por que, afinal, mesmo com as temperaturas baixas, sobram vagas nos abrigos. Fomos buscar respostas com quem entende do assunto: Soraia (nome fictício, a pedido da entrevistada), que vive em situação de rua em Curitiba há mais de três décadas; Vanessa, que além de liderar um projeto especializado e estar em contato com o público-alvo da FAS, já dormiu nos abrigos e pode dizer como eles funcionam; e a própria FAS, responsável por essas casas.

500 camas vazias por noite nos abrigos

A FAS nos disse que possui 27 unidades de atendimento - oficiais e parceiras - com capacidade para abrigar 2.047 pessoas em uma única noite. Três dessas unidades têm canis para atender os animais das pessoas em situação de rua, além de ração e água à disposição. São, ao todo, 18 vagas. “Os animais são levados para as unidades junto com seus donos e o transporte é feito em caixas para pets que existem em todas as kombis do Resgate Social”, fala a assessoria, ressaltando que os bichinhos recebem atendimento da Rede de Proteção Animal.

“Nas Unidades de Acolhimento Institucional (UAIs), os abrigados são acompanhados pelas equipes técnicas, que desenvolvem planos individuais de atendimento. O objetivo é fazer com que eles consigam fazer novos planos de vida e sair das ruas. Eles participam de atividades coletivas direcionadas ao processo de autonomia, participam de cursos e capacitações (neste momento on-line) para elaboração de currículo para busca de emprego”, segue o órgão.

Segundo a assessoria, em todas as UAIs são servidas quatro refeições por dia, com alimentos fornecidos por empresa contratada. “A FAS possui uma nutricionista que faz o controle nutricional dos alimentos servidos. Nos hotéis sociais, café da manhã e jantar (pessoas saem para trabalho durante o dia). Nas Casas de Passagem, café da manhã, almoço e jantar. Na UAI Boqueirão, por exemplo, a coordenação faz contato com empresas para auxiliar na busca do emprego, todos os usuários têm cama individual, armários individuais, recebem 4 refeições diárias e vale-transporte para busca de emprego.”

Mesmo assim, a recusa é grande. Em média, 500 camas ficam vazias por noite. Levantamentos internos da FAS apontam como principais motivos: a burocracia (normas das unidades, horários para chegada, alimentação, banho); vestuário; percurso até unidades; segurança (ameaça, brigas, inclusive de territórios); e alimentação.

Violência e sopa aguada nos abrigos

Soraia cita quase todas as razões mencionadas pela própria FAS para não buscar atendimento. Ela passou por várias unidades, mas teme principalmente pela falta de segurança. “Antes, na Conselheiro Laurindo, a Guarda Municipal ficava lá na frente. Hoje em dia nem isso tem mais. Se acontece alguma coisa, tem que ligar pra eles, então, resumindo, até a polícia chegar, já deu merda”, conta.

“Você não tem segurança nenhuma lá dentro. Se você quer acordar com o seu tênis, tem que colocar embaixo do travesseiro. Já vi várias ocorrências de pessoas que foram dormir em albergues e não acordaram mais. Por quê? Vamos dizer assim que eu tenho uma rixa com outra moradora de rua e a gente vai dormir no albergue. Na madrugada ela pode me matar sufocada. Ninguém vê nada. Já vi muitas situações desse tipo, principalmente na ala masculina.”

As condições de higiene, na opinião de Soraia, são precárias. “Escova você tem que ter a sua. Se você não tiver pasta, eles dão um pouquinho. Kit higiene não tem. Você tem direito a um banho com um pedaço de sabonete. Eles cortam o sabonete no meio e aquela metade é dividida em mais três pedaços. Não tem xampu, condicionador, nada. Só o sabonete. A água é quente, mas depende do lugar e do horário. Tem um horário que a água está morna, praticamente fria.”

Ela ainda se queixa da péssima alimentação ofertada. “É só uma vez por dia. Comida boa que vai pra lá também não é dada pros moradores de rua, eles dividem entre eles. Se você comer a sopa que é dada, você fica de cara. Dava pra dar uma comida bem decente, um arroz e feijão bem bom, mas não, eles dão uma sopa aguada, com alguns legumes e sem tempero.”

É por isso que, para ela, vale mais a pena ficar na rua do que aderir ao serviço da FAS. “A gente que é morador de rua sempre procura ficar no mesmo lugar, pras pessoas saberem que a gente não é má influência. Aí a pessoa pega confiança em você e sempre vem perguntar se você almoçou, se tem agasalho… A gente trata o povo como o povo trata a gente. Quando começa a gear, como a gente já conhece algumas pessoas ali, chega e fala: você não sabe quem tem um colchão, um cobertor pra dar? Eles próprios dão pra gente.”

Foi a solidariedade da população que manteve Soraia viva durante todos esses anos. “Ajudar não faz mal a ninguém. Tem um velho ditado que diz assim, ó: fazer o bem sem olhar a quem. Importa que Deus conhece o seu coração e sabe que você fez na boa intenção. O que a pessoa faz com a sua ajuda vai te fazer deixar de ajudar?”

Desgosto e despreparo

“Quando a gente fala sobre a população em situação de rua, a gente tá falando sobre uma população que já vive todos esses percalços de não conseguir administrar o domicílio, de dormir na rua, o vento, o frio, o papelão molhado e todas essas peculiaridades”, começa Vanessa, responsável pelo Projeto Mãos Invisíveis.

Para ela, o principal problema da FAS é a falta de treinamento dos servidores para as necessidades reais do público-alvo. “As pessoas que são alocadas pra trabalhar como educadores sociais ou que estão dentro da FAS, não são pessoas que gostam da população em situação de rua ou que recebem algum tipo de treinamento pra que esse atendimento seja humanizado. Então é sempre muito truculento, né? Eles são vistos assim como a sociedade os vê, num senso comum que julga de uma maneira completamente errada e não tem nenhum tipo de treinamento que faça com que isso mude.”

As abordagens são o segundo ponto crítico apontado pela líder do projeto social. “Todas as abordagens são feitas em parceria e acompanhadas pela Guarda Municipal, que historicamente tem vários relatos de truculência e de violência contra a população em situação de rua. Então quando a Kombi chega, chega junto com a Guarda Municipal pra fazer a abordagem e ver se aquela pessoa quer ou não ir pro acolhimento”, diz, indicando que as pessoas se sentem intimidadas.

“Em Curitiba, não tem acolhimento, hoje, funcionando, que possa receber cachorros, por exemplo, de médio ou grande porte”, ressalta. “Tem, teoricamente, mas não está funcionando, e existem vagas lá no Bairro Novo pra pessoas em situação de rua que têm cachorro de pequeno porte, cinco vagas. Então, se você tem o seu animal, você não tem pra onde ir. Se você tem companheiro ou companheira, também não, porque não existe nenhum abrigo que contemple casais. Existem algumas vagas no Bairro Novo que são prédios no mesmo lugar, mas são prédios diferentes, onde fica o homem de um lado e a mulher do outro.”

Para Vanessa, os horários rígidos das casas terminam de dificultar o acesso. “Se você não for na abordagem espontânea, que é aquela que eles fazem nas ruas com a kombi, ou se não for alguém ligando pro 156 pra você ser abordado, você precisa ir pra uma fila e pegar um voucherzinho pra poder ter acesso a essa casa de passagem. Ela tem um horário pra entrar, que normalmente é até 18h, aí lá dentro servem uma sopa muito ruim ou pão com mortadela.”

O resultado é que as pessoas perdem as ações sociais da sociedade civil, que geralmente se organiza à noite, com maior qualidade. “Eles perdem a boca do rango, que é como eles chamam - tanto nas regiões centrais como periféricas - as comidas mais elaboradas, que a galera das ONGs e da sociedade civil leva, além de doação de roupas, enfim… Tudo isso pra chegar na FAS às 18h.”

“Conforme você vai ficando mais bonitinho, você tem acesso a serviços um pouco melhores. Você pode chegar, sei lá, até 21h na casa. De qualquer forma, você precisa sair no máximo até 7h30 da manhã”, aponta. “Então, por exemplo, a pessoa está com frio de madrugada no Centro. Chega a abordagem, pega essa pessoa, leva pra um dos abrigos da Prefeitura, ela toma um banho, deita, e invariavelmente vai ter que sair na manhã seguinte. Hoje, em Curitiba, não existe nenhum serviço aberto que atenda essa população durante o dia.”

Por todos esses fatores somados, ela critica a posição desinformada do prefeito. “Imagine só: a pessoa é abordada, vai parar no Bairro Novo, depois tem que voltar pro Centro, que é onde ela consegue dinheiro, bico, resto de comida, enfim, pra depois voltar pra lá?”, questiona. “É muito irônico você pensar que uma pessoa que passa por todos esses percalços ainda prefere ficar na rua do que se sujeitar a esse tipo de coisa.”

Serviço

Viu uma pessoa passando frio e quer ajudar? Pergunte a ela como ela gostaria de ser ajudada. Caso ela aceite a ajuda da Prefeitura, ligue para o 156. Senão, a melhor opção é oferecer cobertores e roupas de frio, além de alimentação.

O Projeto Mãos Invisíveis também recebe doações para viabilizar seu trabalho. Clique aqui e saiba como ajudar.

Contrapontos

Na segunda (1), após a repercussão, a FAS se posicionou sobre pontos mencionados na reportagem. Os tópicos abordados pela assessoria estão listados abaixo.

- A média diária de atendimento é de 1.200 pessoas em situação de rua.

- A média diária de recusas de acolhimento é de 80 pessoas, o que representa 6,6% do público abordado.

- Todos os acolhimentos do município possuem segurança da Guarda Municipal. São 2 servidores em cada turno que trabalham em turnos de 12x36 horas.

- Todos os acolhimentos possuem guarda-pertences, ofertando com segurança este serviço.

- Não existe registro de ocorrência de pessoas que foram dormir em abrigos e não acordaram mais.

- Todos os acolhimentos ofertam produtos de higiene pessoal, banho e roupas limpas.

- Através de programação de educação permanente, os servidores são capacitados para o serviço.

- Os horários nos acolhimentos são flexíveis e repassados ao conhecimento de todos. Todos funcionam 24 horas, sem a obrigatoriedade de desocupação com exceção dos hotéis sociais que funcionam diariamente das 18 às 9 da manhã (pernoite).

- Toda alimentação é ofertada por empresa terceirizada através de marmitex, sendo de uso exclusivo às pessoas acolhidas acompanhadas por nutricionista. Existe cardápio com programação mensal, com oferta de refeições especiais apenas para pessoas com necessidade de dietas especiais.

- Além disso, a o município desenvolve o programa Mesa Solidária que já garantiu 424 mil refeições gratuitas para a população em risco social desde o seu lançamento em dezembro de 2019. A iniciativa do município tem garantido dignidade à mesa para pessoas que vivem em situação de rua, desempregados e idosos carentes. No Mesa Solidária, todos podem se alimentar em lugares limpos e confortáveis.

- No dia a dia, as abordagens sociais da assistência social envolvem apenas educadores sociais da Fundação de Ação Social (FAS) e seguem solicitações que chegam à Central 156 ou por meio de busca ativa ou roteiros de busca em áreas pré-determinadas. As únicas abordagens acompanhadas pela Guarda Municipal acontecem durante as chamadas Ações Integradas, que são desencadeadas pelas Administrações Regionais e contam com a participação de representantes de outras políticas públicas, entre elas a Secretaria Municipal do Meio Ambiente.

- A FAS possui três unidades que possuem 18 vagas em canis, além de casinhas para cachorros produzidas pela marcenaria da fundação. Em função da caraterística do animal, os gatos podem ficar soltos. Nas unidades que possuem canis, os animais recebem ração e água e podem dormir com cobertores. Todos são periodicamente acompanhados pelas equipes da Rede de Proteção Animal, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, para vacinação, aplicação de vermífugo, antipulgas e chip, além de entrarem na fila para castração. Os animais são levados para as unidades com seus donos e o transporte é feito em caixas para pets que existem em todas as Kombis do Resgate Social. Mas há situações em que cachorros e gatos chegam aos abrigos com protetores que fazem busca espontânea ao serviço. Desde o início da Ação Inverno – Curitiba Que Acolhe, em 15 de maio, as unidades do município fizeram 485 atendimentos a animais de estimação.

Jess Carvalho

Jess Carvalho

Jornalista investigativa com foco na defesa dos direitos humanos. É formada em Jornalismo pela Universidade Positivo e mestre em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa

Todos os artigos

Mais em Vizinhança Curitiba

Ver todos

Mais de Jess Carvalho

Ver todos

De nossos parceiros