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Ratinho inaugurou uma ponte. Não é mais do que a obrigação dele

Ratinho foi às redes sociais, à tevê, gastou fortunas em anúncios em jornais - e os jornais foram camaradas e retribuíram muitas vezes com manchetes mais espetaculares do que os mais otimistas assessores de imprensa seriam capazes de esperar

Ratinho inaugurou uma ponte. Não é mais do que a obrigação dele
Ilustração: Benett/Plural

O vestibular é um momento decisivo na vida de quase todo estudante, e por isso é comum que os pais façam uma festa e cubram de elogios os filhos quando conseguem a sonhada vaga na universidade. Mas de vez em quando surge um casal rabugento com uma reação diferente. Ficou famosa a foto de uma família que segurava a faixa: "Leandra, você não fez mais do que a sua obrigação".

Às vezes eu acho que essa faixa deveria ser erguida não para estudantes, mas sim para quem se elegeu para cargos públicos. É impressionante: qualquer coisa que um prefeito, governador ou presidente faça e lá está o sujeito, movendo rios de dinheiro e equipes de comunicação para tocar mil trombetas nas ruas e nas redes sociais.

O exemplo mais recente foi a Ponte de Guaratuba. Ok, legal. O governador foi lá e fez uma ponte onde as pessoas precisavam de uma ponte. E claro que, em busca de votos e reputação, Ratinho foi às redes sociais, à tevê, gastou fortunas em anúncios em jornais - e os jornais foram camaradas e retribuíram muitas vezes com manchetes mais espetaculares do que os mais otimistas assessores de imprensa seriam capazes de esperar.

Mas, convenhamos. É só uma ponte. Tem pouco mais de um quilômetro. E o governador, como diriam os pais da menina Damares, não fez mais do que a sua obrigação. O sujeito é muito bem remunerado, tem uma estrutura absurda de assessores de todo tipo (engenheiros, arquitetos, ambientalistas, advogados) para levar o projeto adiante... Se não fizesse, como outros não fizeram, seria uma vergonha. Como fez, muito bem: cumpriu com sua obrigação.

Lembrando ainda, que o dinheiro da ponte saiu: da venda de uma estatal de energia que o povo paranaense pagou por décadas; da privatização de uma empresa de telecomunicações saudável que foi parar nas mãos viscosas de Nelson Tanure; do salário dos professores e das professoras que já deveria ser o dobro do que é e que continuam recebendo uma miséria... etc

Mas políticos sabem que inventar uma apresentação de drones mostrando a ponte; inventar a história de um "beijo" que os jornais, por falta de quererem ir atrás de assuntos polêmicos, cobriram com avidez e libido; fazer uma caminhada com milhares de pessoas pelo único quilometrinho da ponte; tudo isso dá mais mídia do que pagar bem aos servidores...

Foram mais de R$ 400 milhões em construção. Sabe-se lá quanto em publicidade da obra. Mas, por mim, bastava um cartaz: "Ratinho, você não fez mais do que a sua obrigação".

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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