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Ratinho destaca "avanços econômicos" para empresários, mas vai deixar rombo histórico na conta dos servidores

Perda salarial chegará a 47,16% caso o governo não reponha a inflação neste ano

Ratinho destaca "avanços econômicos" para empresários, mas vai deixar rombo histórico na conta dos servidores
Ratinho Júnior em evento da Associação Comercial do Rio de Janeiro, no dia 25 de julho: governador fala com empresários, mas não recebe sindicalistas. Foto: Jonathan Campos/AEN
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O governador Ratinho Júnior (PSD) tem participado de eventos para tentar viabilizar sua candidatura à Presidência da República, sempre destacando os avanços econômicos do Paraná, mas está se negando pelo segundo ano consecutivo a corrigir a inflação nos salários dos servidores estaduais. A categoria atingirá um índice de perda salarial recorde neste ano, de 47,16%, caso a reposição da inflação pelo IPCA, de 5,53%, não seja concedida. Na segunda-feira (4), a Casa Civil do governo confirmou que não há nenhuma sinalização de que os salários dos servidores serão corrigidos.

Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas), a defasagem de 47,16% leva em conta a inflação e as reposições concedidas entre janeiro de 2016 e abril de 2025. Na data-base de maio de 2019, primeiro ano do governo de Ratinho, as perdas salariais do funcionalismo somavam 17,04%. Em 2022, 2023 e 2024, os índices chegaram a 36,56%, 42,27% e 39,44%, respectivamente. 

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Apesar de todo o discurso sobre a eficácia do governo, os servidores ficaram sem reposição da inflação em 2020, 2022 e 2024 – o que corrói os salários e faz os trabalhadores ganharem cada vez menos. Em 12 meses, segundo o Dieese, a perda de massa salarial equivale a 6,29 remunerações. Desde janeiro de 2017 (quando o governador ainda era Beto Richa), isso representa uma perda de 31,9853 salários.

Em sete anos de governo, Ratinho só concedeu três reposições, em maio 2019, no valor de 2% (paga a partir de janeiro de 2020); em maio de 2021, com o índice de 3% (a partir de janeiro de 2022); e em maio de 2023, quando o reajuste foi de 5,79% (a partir de agosto) – o que fez a perda salarial cair de 42,27% para 34,48%.

A margem legal para a concessão de reajustes e reposições não pode ser usada como desculpa pelo governo. No primeiro quadrimestre deste ano, que considera o período de 12 meses (maio de 2024 a abril de 2025), a despesa total com pessoal em relação à Receita Corrente Líquida (RCL) ficou em 42,09%, bem abaixo do Limite Prudencial (46,55%) e do Limite Máximo (49%) definidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para o Poder Executivo. 

Desde o primeiro ano do governo de Ratinho Júnior, o governo esteve longe do Limite Prudencial da LRF para despesas com pessoal. Em 2019, a despesa foi o equivalente a 45,18% da RCL; no ano seguinte, de 45,76%; em 2021, caiu para 42,19%, e em 2022, para 40,68%; em 2023, subiu para 43,23%, e voltou a cair no ano passado, para 42,71%. 

PIB sobe, salário desce

A corrosão dos salários dos servidores contrasta com os índices divulgados pelo governador nos atos dos quais participa para tentar impulsionar sua candidatura à Presidência. No dia 25 de julho, em encontro com lideranças empresariais e gestores públicos na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), Ratinho ressaltou que o PIB do Paraná mais do que dobrou entre 2014 e 2024.

Segundo o governo, o valor passou de R$ 348 bilhões para R$ 718,9 bilhões no período e a arrancada começou em 2019, com um crescimento médio de R$ 50 bilhões por ano – o que também gerou aumento da arrecadação. Ou seja: à medida que a arrecadação cresceu ao longo da gestão de Ratinho Júnior, aumentou também a perda salarial do funcionalismo.

A tendência é mantida neste ano: no mês passado, o governo destacou que o Paraná teve o maior crescimento da atividade econômica do Brasil nos primeiros cinco meses de 2025, com 6,9%, segundo dados do Banco Central. O dobro do país, que tem uma média de 3,4%, e acima de estados como São Paulo (2,3%) e Minas Gerais (3%).

Em audiência na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) no dia 26 de maio, o secretário da Fazenda, Norberto Ortigara, disse que as receitas totais do estado tiveram um crescimento real de 3% no primeiro quadrimestre deste ano, de R$ 24,5 bilhões para R$ 26,6 bilhões. 

A receita tributária totalizou R$ 16,4 bilhões nos primeiros quatro meses de 2025, um aumento real de 3,4% em relação ao mesmo período de 2024. ICMS, ITCMD e IPVA apresentaram alta de 4,2%, 6,7% e 1,1%, respectivamente. Só com o IPVA, o governo arrecadou R$ 2 bilhões entre janeiro e abril. Segundo Ortigara, a Despesa Bruta com Pessoal aumentou 7,76%, passando para R$ 34,616 bilhões – ainda abaixo do limite prudencial da LRF.

Isenções e Copel

O que não entrou nas contas de Ratinho Júnior e Norberto Ortigara foi a política de isenções fiscais bilionárias adotada pelo governo nos últimos anos. Levantamento feito pelo Dieese em janeiro mostra que o governo deixou de arrecadar R$ 59,6 bilhões em três anos, entre 2022 e 2024, média de R$ 19,8 bilhões por ano. Os setores são escolhidos pelo próprio governo, dentro do programa Paraná Competitivo. Entre os principais beneficiados estão o agronegócio e setores de comércio e produção de alimentos, automotivo e metalúrgico.

Privatizada por Ratinho Júnior em 2022, a Copel também está na lista de beneficiadas. Em 2024, de acordo com o Dieese, a companhia deixou de recolher R$ 262 milhões em impostos, apesar de promover demissões em massa. Segundo o Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR), desde 2023, o número de funcionários foi reduzido de cerca de 6 mil para aproximadamente 4,3 mil. Só em agosto de 2024, mil trabalhadores deixaram a companhia – um exemplo que contraria a versão do governo de que as isenções ajudam a gerar empregos no estado.

A privatização da Copel rendeu R$ 3 bilhões ao governo, mas nenhum valor obtido com a venda das ações da companhia pode ser utilizado em custeio de pessoal, como determinou Ratinho Júnior. Segundo o governo, R$ 2,24 bilhões já foram direcionados a investimentos, para as secretarias de Infraestrutura (R$ 1,95 bilhão); Cidades (R$ 500 milhões); Educação (R$ 500 milhões); Incentivo ao Crédito (R$ 150 milhões); Sustentabilidade (R$ 100 milhões); e Habitação (R$ 60 milhões). O destino de R$ 216 milhões ainda seriam definidos, segundo matéria publicada em fevereiro deste ano pela Agência Estadual de Notícias.

Sindicato, só o dos patrões

No dia 24 de julho, Ratinho Júnior participou do lançamento de apartamentos financiados pela Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) nas cidades de Santo Antônio da Platina, Andirá e Guapirama. Em Andirá, ao lado do deputado federal Pedro Lupion (PP-PR), líder da bancada ruralista no Congresso, Ratinho desprezou uma manifestação da APP-Sindicato, que representa professores e professoras da rede estadual de ensino. 

Ratinho disse que não atende sindicatos há sete anos e que “não trabalha para sindicatos, mas para o povo”. A entrevista foi dada ao lado de Lupion, que defende os interesses do agronegócio em Brasília. No dia seguinte, já no Rio, Ratinho Júnior apresentou o crescimento do PIB paranaense para lideranças empresariais na Associação Comercial do Rio de Janeiro, mostrando que se importa sim com entidades representativas de classe – desde que sejam as entidades dos patrões.

“Infelizmente, não é novidade a forma como o governador trata o servidor público. Já são sete anos sem diálogo. Durante a campanha, prometia ouvir os sindicatos. Hoje, ele mesmo admite que não recebe representantes há anos, o que é um tremendo desrespeito com os servidores”, criticou o líder da oposição na Alep, deputado Arilson Chiorato (PT).

Nesta terça-feira (5), o deputado Professor Lemos (PT) acusou o governo de não cumprir sua obrigação. “É uma competência exclusiva do Poder Executivo revisar na data base os salários dos servidores, repondo pelo menos a inflação do ano, e isso não tem acontecido. A oposição protocolou no ano passado um projeto de lei, diante da omissão do Executivo. Estamos cobrando para que o governador mande o projeto, porque a obrigação de fazer é dele”.

Líder da bancada governista na Alep, o deputado Hussein Bakri (PSD) disse que o governo vem investindo na reestruturação das carreiras. "Conseguimos construir a reestruturação de várias carreiras, que foi um instrumento que o governo achou para poder valorizar as carreiras. A reestruturação muitas vezes tem mais resultado que a própria data base. Fizemos isso com várias carreiras. Faltam muito poucas para serem atingidas", disse Bakri. "Estamos correndo atrás, batalhando, brigando com o governo para que possa vir de lá um um projeto de lei para beneficiar as carreiras".

Enquanto Bakri e os governistas "brigam com o governo", os servidores da Assembleia, do Tribunal de Contas do Estado (TCE), do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) e do Ministério Público do Paraná (MP-PR) deverão ter a reposição da inflação com pagamentos retroativos a maio, como adiantou o presidente da Alep, Alexandre Curi (PSD), em entrevista na segunda-feira. Segundo Curi, o projeto do TCE já foi enviado ao Legislativo.

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

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