O governador Ratinho Júnior (PSD) tem participado de eventos para tentar viabilizar sua candidatura à Presidência da República, sempre destacando os avanços econômicos do Paraná, mas está se negando pelo segundo ano consecutivo a corrigir a inflação nos salários dos servidores estaduais. A categoria atingirá um índice de perda salarial recorde neste ano, de 47,16%, caso a reposição da inflação pelo IPCA, de 5,53%, não seja concedida. Na segunda-feira (4), a Casa Civil do governo confirmou que não há nenhuma sinalização de que os salários dos servidores serão corrigidos.
Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas), a defasagem de 47,16% leva em conta a inflação e as reposições concedidas entre janeiro de 2016 e abril de 2025. Na data-base de maio de 2019, primeiro ano do governo de Ratinho, as perdas salariais do funcionalismo somavam 17,04%. Em 2022, 2023 e 2024, os índices chegaram a 36,56%, 42,27% e 39,44%, respectivamente.

Apesar de todo o discurso sobre a eficácia do governo, os servidores ficaram sem reposição da inflação em 2020, 2022 e 2024 – o que corrói os salários e faz os trabalhadores ganharem cada vez menos. Em 12 meses, segundo o Dieese, a perda de massa salarial equivale a 6,29 remunerações. Desde janeiro de 2017 (quando o governador ainda era Beto Richa), isso representa uma perda de 31,9853 salários.
Em sete anos de governo, Ratinho só concedeu três reposições, em maio 2019, no valor de 2% (paga a partir de janeiro de 2020); em maio de 2021, com o índice de 3% (a partir de janeiro de 2022); e em maio de 2023, quando o reajuste foi de 5,79% (a partir de agosto) – o que fez a perda salarial cair de 42,27% para 34,48%.
A margem legal para a concessão de reajustes e reposições não pode ser usada como desculpa pelo governo. No primeiro quadrimestre deste ano, que considera o período de 12 meses (maio de 2024 a abril de 2025), a despesa total com pessoal em relação à Receita Corrente Líquida (RCL) ficou em 42,09%, bem abaixo do Limite Prudencial (46,55%) e do Limite Máximo (49%) definidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para o Poder Executivo.
Desde o primeiro ano do governo de Ratinho Júnior, o governo esteve longe do Limite Prudencial da LRF para despesas com pessoal. Em 2019, a despesa foi o equivalente a 45,18% da RCL; no ano seguinte, de 45,76%; em 2021, caiu para 42,19%, e em 2022, para 40,68%; em 2023, subiu para 43,23%, e voltou a cair no ano passado, para 42,71%.
PIB sobe, salário desce
A corrosão dos salários dos servidores contrasta com os índices divulgados pelo governador nos atos dos quais participa para tentar impulsionar sua candidatura à Presidência. No dia 25 de julho, em encontro com lideranças empresariais e gestores públicos na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), Ratinho ressaltou que o PIB do Paraná mais do que dobrou entre 2014 e 2024.
Segundo o governo, o valor passou de R$ 348 bilhões para R$ 718,9 bilhões no período e a arrancada começou em 2019, com um crescimento médio de R$ 50 bilhões por ano – o que também gerou aumento da arrecadação. Ou seja: à medida que a arrecadação cresceu ao longo da gestão de Ratinho Júnior, aumentou também a perda salarial do funcionalismo.
A tendência é mantida neste ano: no mês passado, o governo destacou que o Paraná teve o maior crescimento da atividade econômica do Brasil nos primeiros cinco meses de 2025, com 6,9%, segundo dados do Banco Central. O dobro do país, que tem uma média de 3,4%, e acima de estados como São Paulo (2,3%) e Minas Gerais (3%).
Em audiência na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) no dia 26 de maio, o secretário da Fazenda, Norberto Ortigara, disse que as receitas totais do estado tiveram um crescimento real de 3% no primeiro quadrimestre deste ano, de R$ 24,5 bilhões para R$ 26,6 bilhões.
A receita tributária totalizou R$ 16,4 bilhões nos primeiros quatro meses de 2025, um aumento real de 3,4% em relação ao mesmo período de 2024. ICMS, ITCMD e IPVA apresentaram alta de 4,2%, 6,7% e 1,1%, respectivamente. Só com o IPVA, o governo arrecadou R$ 2 bilhões entre janeiro e abril. Segundo Ortigara, a Despesa Bruta com Pessoal aumentou 7,76%, passando para R$ 34,616 bilhões – ainda abaixo do limite prudencial da LRF.
Isenções e Copel
O que não entrou nas contas de Ratinho Júnior e Norberto Ortigara foi a política de isenções fiscais bilionárias adotada pelo governo nos últimos anos. Levantamento feito pelo Dieese em janeiro mostra que o governo deixou de arrecadar R$ 59,6 bilhões em três anos, entre 2022 e 2024, média de R$ 19,8 bilhões por ano. Os setores são escolhidos pelo próprio governo, dentro do programa Paraná Competitivo. Entre os principais beneficiados estão o agronegócio e setores de comércio e produção de alimentos, automotivo e metalúrgico.
Privatizada por Ratinho Júnior em 2022, a Copel também está na lista de beneficiadas. Em 2024, de acordo com o Dieese, a companhia deixou de recolher R$ 262 milhões em impostos, apesar de promover demissões em massa. Segundo o Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR), desde 2023, o número de funcionários foi reduzido de cerca de 6 mil para aproximadamente 4,3 mil. Só em agosto de 2024, mil trabalhadores deixaram a companhia – um exemplo que contraria a versão do governo de que as isenções ajudam a gerar empregos no estado.
A privatização da Copel rendeu R$ 3 bilhões ao governo, mas nenhum valor obtido com a venda das ações da companhia pode ser utilizado em custeio de pessoal, como determinou Ratinho Júnior. Segundo o governo, R$ 2,24 bilhões já foram direcionados a investimentos, para as secretarias de Infraestrutura (R$ 1,95 bilhão); Cidades (R$ 500 milhões); Educação (R$ 500 milhões); Incentivo ao Crédito (R$ 150 milhões); Sustentabilidade (R$ 100 milhões); e Habitação (R$ 60 milhões). O destino de R$ 216 milhões ainda seriam definidos, segundo matéria publicada em fevereiro deste ano pela Agência Estadual de Notícias.
Sindicato, só o dos patrões
No dia 24 de julho, Ratinho Júnior participou do lançamento de apartamentos financiados pela Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) nas cidades de Santo Antônio da Platina, Andirá e Guapirama. Em Andirá, ao lado do deputado federal Pedro Lupion (PP-PR), líder da bancada ruralista no Congresso, Ratinho desprezou uma manifestação da APP-Sindicato, que representa professores e professoras da rede estadual de ensino.
Ratinho disse que não atende sindicatos há sete anos e que “não trabalha para sindicatos, mas para o povo”. A entrevista foi dada ao lado de Lupion, que defende os interesses do agronegócio em Brasília. No dia seguinte, já no Rio, Ratinho Júnior apresentou o crescimento do PIB paranaense para lideranças empresariais na Associação Comercial do Rio de Janeiro, mostrando que se importa sim com entidades representativas de classe – desde que sejam as entidades dos patrões.
“Infelizmente, não é novidade a forma como o governador trata o servidor público. Já são sete anos sem diálogo. Durante a campanha, prometia ouvir os sindicatos. Hoje, ele mesmo admite que não recebe representantes há anos, o que é um tremendo desrespeito com os servidores”, criticou o líder da oposição na Alep, deputado Arilson Chiorato (PT).
Nesta terça-feira (5), o deputado Professor Lemos (PT) acusou o governo de não cumprir sua obrigação. “É uma competência exclusiva do Poder Executivo revisar na data base os salários dos servidores, repondo pelo menos a inflação do ano, e isso não tem acontecido. A oposição protocolou no ano passado um projeto de lei, diante da omissão do Executivo. Estamos cobrando para que o governador mande o projeto, porque a obrigação de fazer é dele”.
Líder da bancada governista na Alep, o deputado Hussein Bakri (PSD) disse que o governo vem investindo na reestruturação das carreiras. "Conseguimos construir a reestruturação de várias carreiras, que foi um instrumento que o governo achou para poder valorizar as carreiras. A reestruturação muitas vezes tem mais resultado que a própria data base. Fizemos isso com várias carreiras. Faltam muito poucas para serem atingidas", disse Bakri. "Estamos correndo atrás, batalhando, brigando com o governo para que possa vir de lá um um projeto de lei para beneficiar as carreiras".
Enquanto Bakri e os governistas "brigam com o governo", os servidores da Assembleia, do Tribunal de Contas do Estado (TCE), do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) e do Ministério Público do Paraná (MP-PR) deverão ter a reposição da inflação com pagamentos retroativos a maio, como adiantou o presidente da Alep, Alexandre Curi (PSD), em entrevista na segunda-feira. Segundo Curi, o projeto do TCE já foi enviado ao Legislativo.