Quem vencer a eleição de 2026 para o governo do Paraná vai assumir um Estado com as contas em ordem no indicador mais visível: a dívida. A Dívida Consolidada Líquida saiu de 50,4% da Receita Corrente Líquida em 2015 para −4,9% em 2025 — ou seja, o governo estadual passou a ter mais recursos em caixa e haveres do que dívida. No mesmo período, a despesa do Estado caiu de 12,4% para 7,6% do PIB paranaense, e a gestão manteve o gasto com pessoal entre 40% e 46% da receita corrente, abaixo dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Os dados que sustentam esse quadro, porém, revelam de onde veio a folga — e por que ela não está garantida para o próximo mandato.
A origem do caixa
Um cruzamento da Declaração de Contas Anuais do Paraná, disponível no sistema SICONFI do Tesouro Nacional, permite separar as receitas que engordaram o caixa. Em 2023, o Estado recebeu R$ 3,4 bilhões com a venda de ações da Copel — receita não-recorrente, registrada como alienação de ativos — e R$ 4,6 bilhões de juros e remuneração dos depósitos bancários, o rendimento financeiro do próprio caixa acumulado. No mesmo ano, os dividendos de empresas em que o Estado tem participação somaram R$ 0,28 bilhão.
No ano da desestatização da Copel, portanto, o rendimento do dinheiro parado e a venda de ações somaram cerca de R$ 8 bilhões, enquanto os dividendos — a receita recorrente que vem de manter participação em empresas lucrativas — representaram menos de 4% desse total. Os dividendos, aliás, recuaram de R$ 1,55 bilhão em 2021 para R$ 0,28 bilhão em 2023, em valores de 2025, corrigidos pelo IPCA.
Durante os oito anos do governo Ratinho Junior, o Estado vendeu a Copel Telecom e a Compagás, reduziu sua participação e abriu mão do controle da Copel na desestatização de 2023, e obteve autorização legislativa para desestatizar a Celepar e a Ferroeste. Cada venda troca uma fonte de receita permanente — os dividendos — por recursos de uma única vez.
A arrecadação que não acompanhou
Enquanto o caixa cresceu, a base tributária própria ficou para trás. A receita de impostos do Estado — cuja maior parte é o ICMS —, descontada a inflação, está abaixo do nível de 2019: caiu de R$ 47,2 bilhões, em 2019, para R$ 41,3 bilhões em 2025, em valores de 2025, segundo os Relatórios Resumidos de Execução Orçamentária. O choque de 2020, na pandemia, e as mudanças federais no ICMS sobre combustíveis e energia ajudam a explicar o recuo. O orçamento total cresceu no período, mas puxado por transferências e receitas extraordinárias, não pela arrecadação própria.
O próximo governo, assim, herda uma equação de três pontas frágeis: menos ativos gerando dividendos, um caixa cujo rendimento depende de a Selic seguir alta, e uma arrecadação de ICMS que não cresceu em termos reais.
A saúde no piso
Do lado da despesa, a saúde é o caso mais documentado. O Paraná aplicou 12,21% da sua receita de impostos em ações e serviços de saúde em 2025 — 0,21 ponto acima do mínimo constitucional de 12% — e ficou em último lugar entre os 26 estados, segundo o SIOPS, do Ministério da Saúde. A média nacional foi de 14,57%. A margem do Estado sobre o piso vem encolhendo: era de 0,96 ponto em 2020 e caiu para 0,21 ponto em 2025.
Em gasto por habitante com recursos próprios, o Paraná aplicou R$ 589 em 2025, contra uma média nacional de R$ 1.268 — e ocupou a 24ª posição entre 26 estados.
A rede acompanha o financiamento. O número de leitos SUS caiu de 22,7 mil, em 2005, para 19,4 mil em 2025, segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES/DATASUS) — 1,63 leito por mil habitantes, ante 1,69 em 2015, com a população crescendo. As internações pelo SUS caíram 24% em 2020 e, em 2023, ainda não haviam retornado ao patamar de 2019. Nos desfechos, a mortalidade materna chegou a 143 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2021, no pico da pandemia, e a mortalidade infantil, que vinha caindo, voltou a subir, para 10,8 por mil em 2023.
O investimento e a infraestrutura
Com o caixa cheio, o Estado investe pouco. Nos dados de execução orçamentária, o investimento público ficou entre 2,7% e 6,2% do orçamento e em torno de 0,4% do PIB. A comparação mais direta está em 2023, quando o Estado investiu R$ 2,6 bilhões e recebeu R$ 4,6 bilhões apenas de juros sobre o caixa — situação que se repetiu em 2022 e 2024. O Paraná rendeu, nesses anos, mais com o dinheiro aplicado do que gastou em obras.
Na infraestrutura de transporte, o gasto é quase todo rodoviário. O transporte ferroviário representa perto de zero da despesa da função Transporte, enquanto o rodoviário chega a R$ 2,5 bilhões ao ano. A Nova Ferroeste, ferrovia de 1.567 km orçada em R$ 35,8 bilhões e anunciada desde 2019, segue sem leilão, dependente da licença ambiental do Ibama. Nas rodovias, o Estado ficou mais de dois anos sem pedágio — entre o fim dos contratos do Anel de Integração, em novembro de 2021, e o início dos primeiros lotes do novo modelo de concessão, em janeiro de 2024 — período em que a Pesquisa CNT registrou piora nas estradas paranaenses. O novo modelo prevê mais de R$ 60 bilhões em investimentos ao longo de 30 anos.
O saneamento é o setor em que o Estado apresenta os melhores indicadores. A Sanepar leva água a praticamente 100% das cidades que atende e coleta 80,8% do esgoto, ante uma média nacional de 56%, tratando todo o volume coletado. Ainda assim, cerca de um em cada cinco paranaenses segue sem coleta de esgoto, e o marco legal do saneamento exige 90% de cobertura até 2033. O serviço é prestado pela Sanepar, empresa estatal cuja eventual desestatização chegou a ser preparada em 2024, com leilão suspenso na Justiça e a intenção depois negada pelo governo.
A economia de fundo
O pano de fundo é o de uma economia relativamente rica, mas que perdeu ritmo. O PIB por habitante do Paraná equivale a 109% da média nacional em 2023 — acima do país, mas em queda, já que era 118% em 2020. O Estado é a quinta maior economia do país, com 6,1% do PIB, e mantém forte dependência do agronegócio, que responde por 11,1% do valor adicionado, quase o dobro do peso nacional. No mercado de trabalho, o Paraná tem 3,46 milhões de empregos formais, com salário mediano de R$ 2.575, mas a geração de vagas desacelerou: o saldo caiu de 178 mil, em 2021, para 81 mil em 2025, segundo o Novo CAGED.
O desafio, em números
O próximo governador assume um Estado com dívida negativa e caixa robusto, mas cujos pilares recentes de receita — a venda de patrimônio e os juros sobre o caixa — são não-recorrentes ou sensíveis à taxa de juros, enquanto a arrecadação própria de ICMS está estagnada em termos reais. Ao mesmo tempo, herda serviços com indicadores no limite legal na saúde, uma rede hospitalar que encolheu, um patamar baixo de investimento e projetos estruturantes de transporte ainda no papel. A questão que os dados colocam para o próximo governo é como sustentar as contas e, ao mesmo tempo, responder às demandas de saúde e infraestrutura sem os mesmos recursos extraordinários que marcaram os últimos anos.
Como apuramos
Os dados desta reportagem foram coletados de bases públicas oficiais. Do SICONFI, do Tesouro Nacional, vieram os Relatórios Resumidos de Execução Orçamentária, os Relatórios de Gestão Fiscal e a Declaração de Contas Anuais, que embasam receita, despesa, dívida, dividendos, juros e alienação de ativos. A aplicação em saúde vem do SIOPS, do Ministério da Saúde; a rede, as internações e a mortalidade, do DATASUS; o PIB e o Valor Adicionado, do IPARDES; o IPCA, usado para deflacionar os valores, e a população, do IBGE; o emprego, da RAIS e do Novo CAGED; e o saneamento e as estradas, do SNIS e do Instituto Trata Brasil e da Pesquisa CNT de Rodovias. Os valores em reais foram corrigidos pelo IPCA para 2025, salvo indicação em contrário.