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Paraná terá mais idosos do que jovens com menos de 15 anos já em 2027

Índice de envelhecimento inédito adianta tendência nacional e pressiona previdência, saúde e planejamento urbano

Paraná terá mais idosos do que jovens com menos de 15 anos já em 2027
Foto: Unsplash
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No Paraná, o futuro demográfico já bate à porta: em 2027, pela primeira vez, haverá mais idosos (60 anos ou mais) do que crianças e adolescentes com menos de 15 anos, como indica o Índice de Envelhecimento ultrapassando 100. No Brasil, essa inversão ocorrerá apenas em 2029. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  

Esse envelhecimento acelerado não é só uma conquista de longevidade, mas também um alerta para sistemas sob pressão. Segundo o painel interativo de estimativas populacionais do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), a população idosa paranaense crescerá de 2,08 milhões em 2025 (17,56%) para 3,69 milhões em 2050 (29,81%), com expectativa de vida alcançando 83,9 anos em 2070. Maria Regina Stamm, 82, resume a lacuna prática: "na teoria das políticas, tudo é lindo, mas na prática ainda falta muito para os idosos terem plenamente seus direitos.”

Saúde não é isolada 

Na saúde, o aumento progressivo da prevalência de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, e, consequentemente, da necessidade de acompanhamento e acesso à saúde, é uma realidade sentida principalmente no SUS, seja na atenção primária ou em níveis especializados. Para a presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG-PR), Uiara Raiana Vargas, “a promoção de saúde vai muito além de fatores de risco, sendo necessária a garantia de questões como saneamento básico, segurança financeira e alimentar, vacinação, envolvimento social da pessoa idosa e mesmo questões relacionadas à mobilidade urbana.”

Ela cobra maior inserção de disciplinas com abordagem específica sobre saúde da pessoa idosa e certificação adequada destes profissionais pelos órgãos competentes, além da quebra da exclusão digital da população idosa, que com frequência sofre com a crença de que não é possível ensinar tecnologia a este público. Isolamento social, por sua vez, para a médica, vira bomba-relógio para doenças como demência e depressão: “é fundamental não normalizar o isolamento social na pessoa idosa, compreendendo que o envelhecimento não a torna menos digna como indivíduo, e nem mesmo reduz seu papel social, inclusive no mercado de trabalho.”

Complexidade da previdência 

O gerente do Instituto de Longevidade MAG, Antônio Leitão, explica o impacto no INSS: “Quem paga os benefícios dos atuais aposentados são os que estão na ativa. Se há muitos mais recebedores do que contribuintes, passa a haver um desequilíbrio.” Ele projeta o déficit como proporção do PIB, saltando para 4,88% do PIB em 2050 e 11,59% em 2100. De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Ambima), apenas 4% dos aposentados possuem previdência privada. 

Leitão alerta que o assunto deve ser prioridade para o início do próximo mandato presidencial junto a uma comunicação muito assertiva e ao mesmo tempo acessível ao cidadão: “o tema da Reforma da Previdência é sempre espinhoso e envolve discussões que mexem com a população.” Ele ainda destaca que outros elementos contribuem para a complexidade por trás de uma solução, como a informalidade do mercado de trabalho e mudanças na lógica do trabalho, por exemplo, a plataformização do trabalho.

O que diz o governo

Desde a Política Nacional de Cuidados, o cuidado é reconhecido pela Lei 16.069/2024 como direito com corresponsabilidade do Estado, família e sociedade. Focada na valorização de cuidadores remunerados e familiares, a norma busca combater desigualdades de gênero e sobrecarga feminina. No Paraná, pela Secretaria de Estado da Mulher, Igualdade Racial e Pessoa Idosa, há o Paraná Amigo da Pessoa Idosa que, de acordo com a Secretária Leandre Dal Ponte, é “mais do que um programa, é um reordenamento das políticas do estado, onde todas as políticas transversais voltadas à questão do envelhecimento estariam ali reunidas.” 

Entre as principais estratégias, o governo destaca a descentralização das políticas por meio dos municípios, que passam a elaborar diagnósticos locais sobre a população idosa para orientar investimentos. De acordo com a gestão atual, já foram aplicados mais de R$ 200 milhões em estruturas como centros de convivência, centros-dia, instituições de longa permanência e os chamados Complexos Sociais Cidade da Pessoa Idosa, que concentram serviços de saúde, atividades físicas, culturais e educacionais em um único espaço. 

O estado também aposta na criação de uma política de cuidado, com mapeamento de cuidadores e concessão de auxílio financeiro a familiares, além de ações de inclusão digital e acessibilidade. Apesar disso, o governo paranaense reconhece que parte dos desafios, como a previdência, depende de articulação com a União e defende maior participação federal diante do envelhecimento acelerado da população.

Uma cidade boa é para todas as idades

Para o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), o envelhecimento acelerado da população não pode ser tratado como um fenômeno isolado nem como um problema restrito a um único grupo etário. A avaliação técnica é de que políticas públicas focadas exclusivamente na população idosa tendem a aprofundar desigualdades e comprometer o desenvolvimento urbano. Em vez disso, o instituto defende uma abordagem sistêmica, que considere o envelhecimento como um processo ao longo de toda a vida e que integre diferentes faixas etárias, da infância à velhice.

Nesse contexto, o desafio das cidades deixa de ser apenas expandir serviços, como nas décadas anteriores, e passa a ser qualificar políticas públicas, com foco em bem-estar, convivência intergeracional e melhoria das condições urbanas para todos. “Cidade boa é cidade boa para todas as idades”, defendem as pesquisadoras Érika Hayashida e Maria Tereza Gonçalves. 

O IPPUC também aponta que a transição demográfica traz impactos desiguais entre municípios e exige planejamento territorial mais sofisticado, diante de dinâmicas como o esvaziamento de cidades menores e a concentração populacional em grandes centros como Curitiba. A recomendação central é que as políticas sejam integradas e convergentes, evitando soluções fragmentadas e priorizando a redução de disparidades históricas no acesso a direitos urbanos.

Marya Marcondes

Marya Marcondes

Estagiária do Jornal Plural. Estudante de Jornalismo da UFPR. Palmeirense e colecionadora de hobbies.

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