Começo da tarde de segunda-feira e pinga uma notificação no meu WhatsApp, eternamente aberto. É uma colega jornalista que eu respeito muito, me fazendo uma pergunta inusitada: "Verdade que o Renato Freitas foi cassado?" Certo: o deputado Renato Freitas está sempre à beira da cassação, mas não parecia fazer sentido.
Naquela tarde, o Conselho de Ética (sic) da Assembleia Legislativa do Paraná julgaria um processo contra o petista, verdade. Mas essa é só a primeira parte de uma possível cassação. Depois, o caso ainda tem que passar pela Comissão de Comissão e Justiça e só aí, se a maioria achar que é mesmo caso de perda de mandato, o processo chega ao plenário. Antes disso, ninguém é cassado.
Mas quando fui ver, tinha vários coleguinhas da imprensa dizendo que, sim, Renato estava cassado. Manchetes escandalosas, mas claramente falsas. E só aí fui entender o que aconteceu.
O relator do processo no Conselho de Ética (sic) havia de fato sugerido a cassação do deputado por uma briga na rua. E os colegas dele no conselho votaram majoritariamente a favor do relatório. Portanto, a decisão interna estava tomada - embora isso ainda esteja longe de resolver a parada.
Porém, ai porém... Presidente do Conselho de Ética, Delegado Jacovós (PL) decidiu que era hora de ganhar uns likes. E ao invés de encerrar o trabalho afirmando meramente que o conselho RECOMENDAVA a cassação, foi lacrar. Disse, com todas as letras:
"Declaro cassado PERANTE ESTE CONSELHO o mandato do deputado Renato Freitas."
Nem aqui, nem em lugar nenhum, o presidente do Conselho de Ética tem o poder de cassar ninguém. O Conselho de Ética não tem palavra final sobre nada. E não existe em lugar nenhum do regimento a cassação perante um conselho. Isso é pura demagogia de um deputado do PL que acha que pega bem bater em um deputado do PT. Dá pra imaginar o discurso para os eleitores de Jacovós: "Fui eu quem cassou aquele baderneiro".
O certo é que o processo de Renato vai agora para a CCJ. E provavelmente depois para o plenário. Ele será cassado? Difícil saber, até porque ainda existem recursos à Justiça. Existe uma chance grande de o deputado escapar e ainda se eleger deputado federal em outubro.
Mas espantoso mesmo foi ver como a imprensa, em grande medida, caiu numa esparrela dessas. Ao invés de fazer como a colega que perguntou antes de publicar, muita gente saiu imediatamente em busca do clique. E quem se importa se era mentira, não é mesmo?