A cerca de seis meses das eleições deste ano, só uma mulher apresentou sua pré-candidatura à Presidência da República. Samara Martins, da Unidade Popular (UP), está percorrendo o Brasil para divulgar os principais pontos do programa do partido, criado em 2016 e registrado em 2019.
A UP não esconde que é um partido de esquerda e critica a política de conciliação adotada pelo PT nos governos de Lula e Dilma Rousseff. Segundo a pré-candidata, o objetivo é estabelecer alianças com lideranças populares, e não com lideranças parlamentares.
Samara Martins tem 38 anos e é natural de Belo Horizonte. Formada em Odontologia pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), atua como dentista do SUS em Natal. Iniciou sua trajetória política no movimento estudantil, foi diretora da União Nacional dos Estudantes (UNE) e passou a atuar em movimentos sociais. Participa do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), do movimento de mulheres Olga Benário e da Frente Negra Revolucionária. Em 2022, concorreu a vice-presidente na chapa de Leonardo Péricles, presidente nacional da UP. Veja os principais pontos da entrevista ao Plural:
Como a UP encara as eleições
“A política é maior do que só a política eleitoral. A gente faz política quando se organiza, pressiona e se mobiliza. Nessa política é muito necessário o Brasil avançar. Por conta da lógica da sociedade, que é a da democracia representativa, a gente elege os nossos representantes e eles lá têm defender as nossas pautas. É necessário a luta organizada do povo, inclusive escolhendo seus parlamentares. A Unidade Popular se legalizou na perspectiva de também disputar esse espaço, de estar nos espaços de poder e de decisão. Qual é o papel de um socialista num parlamento burguês? É denunciar o capitalismo e quais são as manobras, inclusive dentro do parlamento, que favorecem a manutenção dos privilégios na sociedade. A gente se lança nas pré-candidaturas na perspectiva de que o povo nos conheça e nos eleja como seus representantes, mas a nossa ilusão com o parlamento não existe, porque as transformações vêm da organização do povo.”
O papel da candidatura
“Nós acreditamos na luta, mas achamos que temos que estar nesse espaço também porque é um espaço de luta e de disputa de consciências. A nossa candidatura também serve nesse sentido, de avançar a consciência das pessoas, porque o cenário é polarizado, como se só existisse o que está aí de esquerda ou a extrema direita. Não são só essas duas opções. Existe uma opção que é pouco apresentada, que a gente tem apresentado no nosso programa, que é de transformações mais profundas, que não é de reformar o capitalismo ou de garantir migalhas para os mais pobres. Estamos nos apresentando no boca a boca, indo aos lugares, às periferias, com os estudantes, com as lideranças populares. Nossas alianças não devem ser feitas com os líderes parlamentares, mas com os líderes populares. Consideramos que é possível, mas é uma disputa desigual, porque a própria lei eleitoral não é democrática. Nosso partido, por ser um partido recentemente legalizado, não tem tempo de TV, não tem tempo de rádio, não tem fundo eleitoral.”

Dívida pública e juros
“Uma das nossas principais pautas é que o orçamento seja utilizado para benefício do povo. Uma medida que a gente tem no programa é a suspensão do pagamento da dívida pública e uma auditoria cidadã, que inclusive é uma prerrogativa constitucional. Seria uma das nossas primeiras medidas, suspender o pagamento e usar o orçamento para o povo. Não dá para destinar quase 30% do orçamento para pagar o refinanciamento de uma dívida que já foi paga centenas de vezes, que favorece a especulação, o lucro dos banqueiros e o lucro dos especuladores. É uma especulação e um sistema desenhado para que os mesmos continuem ganhando com o dinheiro que é do povo, isso é R$ 1,8 trilhão. Então não querem mexer nisso, inclusive a taxa de juros é muito por isso. A taxa de juros é mantida nesse valor para não afastar os investidores, para não mexer nos privilégios de uma classe.”
Lula x Flávio Bolsonaro
“Na política brasileira se tornou uma coisa interessante ter a polarização. É quase como dois times. São disputas baseadas na personalidade das pessoas e não no programa. Qual é o programa? Num sentido geral, econômico, é basicamente o mesmo programa. Às vezes, em questões de programas sociais, tem uma diferença, há uma diferença entre a extrema direita e o governo Lula, mas no sentido econômico é basicamente a mesma lógica. E se apresenta como se só isso fosse possível. É um terrorismo eleitoral. No primeiro turno, nós precisamos disputar. No segundo turno são duas opções e você vai ter que escolher, mas no primeiro turno é um debate programático. Entendendo também que essa lógica social-democrata de ‘vamos atender a dois senhores’ acaba favorecendo a extrema direita, que usa pautas historicamente da esquerda para se promover e aparecer como salvadora da pátria. Essa política de conciliação, de garantir o agronegócio, os empresários e os banqueiros, favorece o discurso desses que estão ganhando espaço, inclusive entre a juventude.”
Esquerda brasileira
“As alianças são feitas pela eleição, pelo voto. É o que dá mais voto. Nós acreditamos que as alianças têm que ser feitas pelos programas e pelas lutas, porque isso vai fazer avançar a consciência das pessoas para a necessidade de transformação. Os outros partidos de esquerda não têm a visão programática, de análise da conjuntura nacional e internacional, de como estão as classes. Nos diferenciamos pela análise que fazemos da conjuntura internacional, por exemplo, de apoio ao povo cubano, ao povo iraniano, ao povo venezuelano, por conta das agressões que têm sofrido. Essa análise de conjuntura é o que faz a gente ter a nossa ação prática, porque não uma coisa não está desligada da outra. Nossas alianças têm que ser feitas baseadas na luta e nesse programa. A gente denunciou que era um golpe contra a Dilma (Rousseff) e agora estão todos compondo o mesmo bloco. Para nós não faz sentido."