Pular para o conteúdo

Comitê de Funcionários da Celepar vai denunciar processo de privatização à ANPD

Intenção do governador Ratinho é vender a estatal até o fim do ano, mas processo vem travando em dificuldades técnicas e jurídicas

Comitê de Funcionários da Celepar vai denunciar processo de privatização à ANPD
A Celepar, próxima estatal que pode ser vendida por Ratinho Júnior. Foto: Roberto Dziura Jr/AEN
Publicado:

O Comitê de Funcionários da Celepar deverá denunciar até o fim da próxima semana, à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), o processo de privatização da estatal paranaense de tecnologia da informação. Em audiência pública no Senado, no dia 8 de julho, diretor-presidente da ANPD, Waldemar Gonçalves Ortunho Júnior, disse que o órgão não havia sido consultado sobre a privatização e que poderá investigar o processo.

Um dos principais argumentos contrários à venda da estatal é o tratamento de dados da área de segurança pública. A Lei Geral de Proteção da Dados Pessoais (LGPD) veda a empresas privadas o tratamento dessas informações, que incluem boletins de ocorrência, inquéritos policiais, mandados judiciais, dados sobre detentos e seus familiares e dados pessoais de autoridades, entre outras.

O isolamento dessas informações, que passariam a ser geridas pela Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), teria atrasado o processo de venda da estatal. A Celepar não fornece informações sobre esse processo, mas a Sesp formou um comitê para tratar do assunto – informação que também não foi divulgada pelo governo de Ratinho Júnior (PSD).

O Plural apurou que um dos pontos que deverá ser informado à ANPD é a criação do LABPR (Laboratório de Ciência de Dados e Inteligência Púbica), pelo governo do Paraná, em agosto de 2024, em parceria com a Fapec – Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura, entidade do Mato Grosso do Sul que teve um contrato com a Casa Civil do governo suspenso em junho. O contrato no valor de R$ 38 milhões havia sido firmado sem licitação, o que gerou um questionamento por parte do Tribunal de Contas do Estado.

O decreto que criou o LAB.PR autoriza “o acesso às informações armazenadas nos bancos de dados gerados, mantidos e utilizados pelos órgãos e entidades do Poder Executivo Estadual” e “acesso a documentos e informações analíticas ou sintéticas consolidadas, bem como a processos e às bases de dados armazenados nos mencionados sistemas”. 

Dados de empresas, saúde e segurança: veja os riscos da privatização da Celepar
Governo do Paraná quer destinar R$ 5,7 milhões para criar conselho que fiscalizaria o uso seguro das informações, mas não prevê quais dados serão repassados a empresas

Em setembro do ano passado, o Plural fez pedidos de informação sobre o LAB.PR à Casa Civil e às demais secretarias de governo. A resposta incluiu apenas uma matéria publicada pela Agência Estadual de Notícias do governo, informando que o LAB.PR foi lançado “para otimizar gestão pública estadual” e um link para o decreto que criou o laboratório.

A denúncia à ANPD também deverá incluir uma notícia de fato instaurada pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) sobre o processo de privatização. Em março, a promotora Cláudia Cristina Maddalozzo questionou a Celepar sobre a garantia da segurança dos bancos dos dados utilizados por órgãos públicos e se o tratamento estará em conformidade com a LGPD após a desestatização.

Presidente da Celepar entra em férias no dia em que Senado discute riscos de privatização
André Gustavo Garbosa não participará de audiência convocada pelo senador Sergio Moro nesta terça-feira

Durante a audiência pública de 8 de julho, Daniel de Andrade Oliveira Barral, procurador federal junto à ANPD, afirmou que uma eventual denúncia sobre o processo de privatização não significa que o caso será necessariamente avaliado. “Diante do volume de denúncias que chegam diariamente à ANPD, a fiscalização adota uma conduta de selecionar os casos mais importantes, que têm um impacto mais a toda a comunidade. Aí a Agência abre um processo fiscalizatório, na medida do impacto à sociedade”. A audiência foi convocada pelo senador Sergio Moro (União Brasil-PR), por meio da Comissão de Transparência, Governança, Fiscalização e Defesa do Consumidor do Senado.

Riscos e falta de transparência

Ratinho Junior tem a intenção de vender a Celepar até o final deste ano. Pré-candidato à Presidência da República, o governador tem participado de reuniões com representantes do mercado, como o fórum realizado pela XP Investimentos, no último sábado, em São Paulo. O Plural apurou que o lançamento do edital de privatização foi adiado de outubro para novembro. 

Com a venda da Celepar, Ratinho poderia se apresentar como o primeiro governante a privatizar uma estatal de tecnologia – mesmo sem levar em conta os riscos dessa operação e sem a menor transparência, já que o governo não fornece qualquer informação sobre o processo. Em 2021, o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tentou privatizar o Serpro, o Serviço Federal de Processamento de Dados, mas esbarrou em dificuldades técnicas e jurídicas.

Lucro para empresa privada

Ratinho argumenta que a privatização da Celepar geraria uma economia de R$ 19 milhões por ano. Deputados da base de apoio ao governo na Assembleia Legislativa afirmaram que a estatal se tornou um cabide de empregos – só não relevaram que o próprio Ratinho Júnior nomeou aliados, ex-deputados, parentes de parlamentares e até o próprio concunhado na estatal, como mostrou matéria publicada pelo Plural em novembro do ano passado.

A “economia” citada pelo governador também é duvidosa. Em julho, o Plural mostrou que a Celepar tem contratos no valor de aproximadamente R$ 2,2 bilhões com secretarias estaduais e outros órgãos, que poderão ser "privatizadas" junto com a companhia. Os valores desses contratos poderiam ser mais altos se fossem firmados com uma empresa privada.

Governo de Ratinho quer repassar softwares para iniciativa privada e renovar contratos da Celepar
Futura compradora da estatal poderá ser beneficiada com contratos sem licitação e comercializar programas desenvolvidos com dinheiro público

Em junho, ofício assinado pelo secretário da Casa Civil, João Carlos Ortega, recomendou a secretarias e órgãos do governo a renovação dos contratos com a companhia por até cinco anos – ou seja, uma empresa privada ganharia contratos com orgãos públicos sem ter passado por licitação, o que poderia configurar uma burla à Lei de Licitações.

A Casa Civil recomendou ainda que as secretarias que autorizem a exploração comercial de softwares pela Celepar e que compartilhem seus códigos-fonte com a empresa. Isso significa que a futura compradora, além de ganhar contratos públicos sem licitação, ainda poderá explorar comercialmente softwares desenvolvidos com dinheiro público.

Veja o que já foi publicado sobre a privatização da Celepar

José Marcos Lopes

José Marcos Lopes

Jornalista formado pela UFPR.

Todos os artigos

Mais em celepar

Ver todos

Mais de José Marcos Lopes

Ver todos

De nossos parceiros