Em entrevista nesta semana, o governador Ratinho Júnior (PSD) disse que um dos motivos para privatizar a Celepar (Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná) seria uma economia de R$ 19 milhões com cargos comissionados. O que o governador não informou é que ele mesmo vem usando a companhia para acomodar aliados políticos, parentes de aliados e até o próprio concunhado.
Enviado no dia último 4 à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), o projeto para vender a Celepar foi aprovado na terça-feira (12) pela ampla maioria governista no Legislativo. Nos bastidores, deputados que apoiam o governo têm reforçado a tese de que a companhia se tornou um “cabide de empregos”, o que justificaria a privatização.
Uma consulta ao Portal da Transparência do governo mostra que a Celepar de fato pode estar sendo usada como “cabide de empregos” – mas pela gestão do próprio Ratinho Júnior, que a maioria dos deputados na Alep apoia. Além de a base governista nunca ter cobrado explicações do Executivo para as nomeações, há deputados e ex-deputados na lista de beneficiados. Todos os dados citados nesta matéria são públicos.
Deputados e ex
Um exemplo é o líder da base governista na Alep, o deputado Hussein Bakri (PSD). A filha dele, Marina Bakri, foi nomeada para um cargo em comissão na Celepar em 1º de agosto e exonerada no dia 20 do mesmo mês, com um salário de R$ 21.775,53. Ela recebeu R$ 14.277,63 pelos dias trabalhados.
Antes de se eleger, a deputada estadual Flávia Francischini (União Brasil) também ocupou um cargo comissionado na Celepar, de 21 de fevereiro de 2019 a 9 de dezembro do mesmo ano, com um salário bruto de R$ 20.124. O salário líquido, em média, foi de R$ 14.993,57.
Flávia é mulher de Fernando Francischini, que foi deputado federal entre 2011 e 2019 e estadual de 2019 a outubro de 2021, quando teve o mandato cassado por divulgar informações falsas sobre as urnas eletrônicas e a eleição de 2018. Ela também foi funcionária comissionada do Detran-PR, entre 2014 e 2015.
O ex-deputado Edson Praczyk é outro que aparece na lista de comissionados da Celepar. Ele ocupou uma cadeira na Alep por cinco mandatos, de 1999 a 2019. Pastor evangélico e ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, Praczyk foi nomeado na companhia em 14 de fevereiro de 2019, logo após deixar seu mandato na Alep.
O salário bruto de Praczyk na Celepar é de aproximadamente R$ 26 mil mensais. O salário líquido médio varia entre R$ 19 mil e R$ 20 mil. No mês passado, segundo o Portal da Transparência, o ex-deputado recebeu R$ 19.870,91.
Marido da cunhada
Uma nomeação que chama a atenção é a de Baltasar Blanco Mateus. Segundo a Revista NEP, do Núcleo de Estudos Paranaenses, que estuda a genealogia dos políticos paranaenses, Mateus é casado com Evelyn Queiroz de Procópio, irmã de Camila Coelho de Queiroz, mulher de Rafael Martinez Massa – irmão de Ratinho Júnior.
A edição da Revista Nep publicada em dezembro de 2020 diz que Baltasar Mateus foi “Assessor de Comunicação de Ratinho Jr, no Gabinete da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (2015-2018), gabinete Vice-presidência Alep (2018-2019) e, desde fevereiro de 2019, ocupa cargo comissionado de Assessor da presidência da Celepar, com aumento expressivo na sua remuneração bruta”. O NEP é coordenado pelo professor da UFPR e sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, que pesquisa genealogias e nepotismo no estado.
No Portal da Transparência, consta que Mateus foi assessor da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedu) de 2015 a 2018 e é comissionado da Celepar desde 8 de fevereiro de 2019. O salário líquido no mês passado foi de R$ 14.253,51.
Já Clecy Maria Amadori Cavet, comissionada da companhia desde 11 de abril de 2022, é tia de Karina Amadori, mulher de Guto Silva, secretário de Planejamento de Ratinho Júnior. Servidora do quadro estadual, ela se aposentou em 2020 e foi diretora da E-Paraná Comunicação, de onde saiu em 2022. Clecy teria sido indicada por Guto Silva para os cargos. O salário líquido referente a outubro, segundo o Portal da Transparência, foi de R$ 18.994,28.
Outros nomes
O Plural encontrou outros nomes com ligações políticas entre os comissionados da Celepar. São eles:
Venâncio Labatut: teria sido indicado por Paulo Eduardo Martins, ex-deputado federal pelo PL e vice-prefeito eleito de Curitiba. De acordo com o portal da Câmara dos Deputados, Labatut foi secretario parlamentar de Martins na Câmara de 7 de fevereiro de 2019 a 18 de julho de 2021. Nomeado na Celepar em 2 de agosto de 2021. O valor líquido do último salário foi de R$ 17.476,80.
Paulo Martins também teve um cargo no gabinete de Ratinho Júnior, onde chegou a ser substituído pelo próprio sogro. Antes de ser nomeado para um curto período no gabinete do governador, o sogro de Martins foi comissionado da Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná).
Olga Nunes de Araújo: mulher de Severino Araújo, presidente do PSB no Paraná por 27 anos. O PSB integrou a base do governo de Beto Richa (PSDB), do qual Ratinho Júnior foi secretário, e atualmente tem apenas um deputado na Alep, Luís Corti, alinhado ao governo.
Olga Nunes de Araujo foi nomeada na Celepar durante o governo Richa, em fevereiro de 2013, e exonerada no dia 1º de janeiro de 2019, quanto Ratinho Júnior assumiu o governo pela primeira vez. Foi recontratada pela companhia em 14 de fevereiro de 2019 e exonerada no último dia 25 de junho. Em maio, o salário foi de R$ 12.354,01.
Renata Gabardo Pastre: ligada ao ex-governador Beto Richa (PSDB). Estava na lista de 34 nomeações para a Sanepar consideradas ilegais pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) em 2018. Nomeada para a Celepar em 1º de fevereiro de 2019. O último salário foi de 12.354,01.
Mônica Sciarra Mandelli: irmã do ex-deputado federal Eduardo Sciarra. Nomeada em 19 de fevereiro de 2019. O último salário foi de R$ 21.684,49.
Mehdi Mouazen: marroquino que teria sido indicado pelo próprio governador Ratinho Júnior. Já teve sua presença no governo contestada por deputados da oposição, que não obtiveram resposta. Ocupou um cargo na Controladoria Geral do Estado de 1º de janeiro de a 21 de março deste ano. Foi nomeado na Celepar no dia seguinte, 22 de março. O último salário foi no valor de R$ 23.917,76.
Lauro Rodrigues da Costa Neto: foi diretor da Secretaria de Inovação, Modernização e Transformação Digital de Ratinho Júnior. A pasta era comandada por Marcelo Rangel, ex-prefeito de Ponta Grossa que concorreu novamente neste ano ao cargo. Costa Neto atuou na Controladoria Geral de Ponta Grossa quando Rangel foi prefeito e teria sido indicado pelo ex-secretário para a Celepar. Nomeado em 16 de fevereiro deste ano. O valor do último salário foi de R$ 13.080,46.
Respostas
A assessoria do governo do Paraná informou que a estimativa é economizar R$ 19 milhões por ano com a privatização da companhia. O governo não explicou os motivos das nomeações listadas nesta reportagem, nem as funções desempenhadas pelos citados. Leia a nota do governo do Paraná:
"A desestatização da Celepar tem entre as vantagens o enxugamento dos cargos, com estimativa de economia de R$ 19 milhões por ano. A nova lei vai modernizar a estrutura da companhia. É um movimento antenado aos novos tempos. O próprio governo federal e diversos países desenvolvidos têm uma relação próxima e natural com empresas privadas de tecnologia. A DataPrev anunciou recentemente a contratação da Amazon para serviços de nuvem (cloud)."
Por meio de sua assessoria, o líder do governo na Alep, o deputado Hussein Bakri, informou que sua filha é médica e foi convidada para desenvolver programas relacionados à saúde, mas que não houve compatibilidade de agenda. Bakri destacou que a nomeação foi legal. Leia a nota enviada pelo deputado:
"Médica por formação, Marina Bakri recebeu um convite da direção da Celepar para desenvolver programas relacionados à medicina, saúde do trabalho e áreas correlatas. No entanto, por incompatibilidade com seus projetos profissionais e pessoais, ela mesma solicitou desligamento do quadro da empresa após 20 dias de trabalho. Os atos de nomeação e exoneração são públicos e legais, não havendo, portanto, qualquer irregularidade."
A reportagem entrou em contato com a assessoria da Celepar para obter um posicionamento e questionar quais as funções dos nomeados para cargos comissionados, mas a companhia informou que não comentaria o assunto.
O Plural entrou em contato com a Secretaria de Estado do Planejamento, mas foi informada que o secretário Guto Silva não se manifestaria.
A reportagem também tentou contato com a assessoria da deputada Flávia Francischini, mas não houve retorno até o fechamento desta matéria. O Plural fica aberto às eventuais manifestações dos citados.
Veja o que o Plural já publicou sobre a privatização da Celepar:
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