A Polícia Militar afirmou em nota emitida nesta quarta-feira (10) que policiais invadiram o prédio histórico da UFPR na noite de terça (9) para "escoltar" o vereador Guilherme Kilter (Novo) e o advogado Jeffrey Chiquini, bolsonaristas que desrespeitaram a orientação da direção da Faculdade de Direito para não entrarem no prédio. A ação da PM deixou estudantes feridos e mais uma mancha na imagem da corporação e do governo de Ratinho Júnior (PSD): desde a ditadura militar uma universidade federal não era invadida por policiais.
Na nota, a PM informou que foi acionada (sem informar por quem) porque "um advogado criminalista" tinha sua integridade física ameaçada pelos estudantes. O advogado é Jeffrey Chiquini, conhecido por defender policiais militares envolvidos em ações violentas e mortes. Ele e Kilter fariam uma palestra sobre supostos abusos do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento de suspeitos de participação nos atos golpistas de 2023.
Chiquini (advogado de Filipe Martins, ex-assessor do ex-presidente Jair Bolsonaro na presidência e réu no STF) e Kilter pretendem lançar suas candidaturas a deputado em 2026, como mostrou o Plural, e usaram o episódio em suas redes sociais. Em troca de visualizações e curtidas, os bolsonaristas não mediram as consequências de seus atos, que colocaram em risco a integridade física de outras pessoas – as que não costumam ter proteção exclusiva da PM, como eles.

A Faculdade de Direito afirmou na manhã desta quarta que a palestra foi cancelada minutos antes e que os bolsonaristas foram orientados a não entrar no prédio, ocupado por estudantes. Mesmo assim, Kilter e Chiquini forçaram a entrada. Segundo a UFPR, o grupo chegou a empurrar o vice-diretor do setor.
Na nota divulgada na quarta, a direção da Faculdade de Direito disse desconhecer quem acionou os policiais. O Plural estava na UFPR e constatou que a PM foi chamada por pessoas que acompanhavam Kilter e Chiquini – entre elas o vereador Rodrigo Marcial (Novo). "São esses aqui que vocês querem encontrar?", perguntou Marcial para os manifestantes, apontando para os policiais.
Prisão e estudantes feridos
Na Praça Santos Andrade, atrás de um cordão de isolamento formado por policiais, Kilter e Chiquini gravaram vídeos para as redes sociais e deram entrevistas. Kilter – que estava no local para defender condenados e réus – chamou os manifestantes de “bandidos” e "vagabundos". Protegido pela PM, o vereador correu atrás de estudantes e os provocou, o que levou a vereadora Camilla Gonda (PSB) a anunciar que vai representar contra o bolsonarista, que poderá ser levado ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara.

O que se viu na Santos Andrade foi a PM tomar o partido dos bolsonaristas e atacar o outro lado. Os policiais usaram balas de borracha, gás e bombas de efeito moral para dispersar os manifestantes. Uma estudante de Filosofia da UFPR foi atingida por balas de borracha e ficou ferida na perna direita e outros estudantes relataram agressões e hematomas. Um acadêmico de Ciências Sociais foi contido pelos policiais e preso.
Segundo a PM, o estudante foi acusado por um homem que acompanhava Chiquini de cometer agressões contra ele. O manifestante teria resistido à ordem de prisão por lesão corporal, “sendo necessária a utilização de técnicas de contato físico para contê-lo”, diz a nota da PM. Ele foi encaminhado para o 33º Batalhão de Polícia Militar, onde foi lavrado Termo Circunstanciado de Infração Penal pelos crimes de lesão corporal, desobediência e resistência.

A equipe do Plural constatou agressões cometidas pelos apoiadores de Kilter e Chiquini. Informados aos policiais, os fatos foram simplesmente ignorados. Um homem que acompanhava os palestrantes deu um tapa no rosto de uma estudante na frente da sala dos professores da Faculdade de Direito, onde Kilter e Chiquini se refugiram depois de invadirem o prédio.

O episódio e o histórico da PM na gestão de Ratinho Júnior poderão ser usados por opositores do governador caso ele consiga consolidar sua candidatura à Presidência da República. Desde 2019, a PM do Paraná esteve envolvida na maior parte das ações que deixaram 2.371 pessoas mortas em supostos confrontos armados. Das 413 pessoas mortas pela forças de segurança do Paraná no ano passado, 11 não tinham completado nem 18 anos.
Além de citarem a alta taxa de letalidade da polícia paranaense, os adversários de Ratinho em 2026 poderão lembrar que o governador foi Paraná o primeiro, desde a redemocratização do país, a ter PMs envolvidos na invasão de uma universidade federal – ato ilegal que fere a autonomia universitária.
Nota da PM
A Polícia Militar do Paraná (PMPR) informa que, na noite desta terça-feira (09/09), foi acionada para atender a uma ocorrência na Universidade Federal do Paraná (UFPR), no campus da Praça Santos Andrade, em Curitiba.
No local, constatou-se a realização de uma manifestação de estudantes contrários à realização de uma palestra. No momento em que o palestrante, um advogado criminalista, ingressou na universidade com sua equipe, parte dos manifestantes cercou o grupo, proferindo insultos, ameaças e arremessando objetos contra eles.
Diante da ameaça iminente à integridade física do palestrante e de seus acompanhantes, equipes da PMPR iniciaram diálogo com os manifestantes a fim de garantir a saída pacífica do grupo. Apesar das diversas tentativas, não houve sucesso, sendo necessário o uso controlado de instrumentos de menor potencial ofensivo para permitir o acesso ao local onde o grupo se encontrava e viabilizar a sua escolta até a saída da universidade.
Na sequência, um dos integrantes do grupo que estava acompanhando o palestrante identificou entre os manifestantes o autor de agressões contra ele. O indivíduo recebeu voz de prisão em flagrante por lesão corporal, mas não acatou a ordem policial, sendo necessária a utilização de técnicas de contato físico para contê-lo. Durante a intervenção, parte dos manifestantes avançou contra as equipes policiais, sendo novamente necessário o uso de equipamentos não letais para conter a hostilidade.
O detido foi encaminhado à sede do 33º Batalhão de Polícia Militar, onde foi lavrado Termo Circunstanciado de Infração Penal (TCIP) pelos crimes de lesão corporal, desobediência e resistência.
A Polícia Militar destaca que o uso dos instrumentos de menor potencial ofensivo ocorreu de maneira pontual e proporcional, sem registro de feridos graves ou necessidade de atendimento médico até o encerramento do evento. A ocorrência contou com o apoio da Guarda Municipal de Curitiba, que também utilizou equipamentos similares aos da Corporação.
Ressalta ainda, que até o momento, não foram registradas denúncias formais acerca da atuação policial. Caso sejam apresentadas, caberá ao Comandante da Unidade avaliar a necessidade de instauração de procedimento administrativo para apuração.
Curitiba, 10 de setembro de 2025.
Centro de Comunicação Social da PMPR.
Nota da UFPR
A Direção do Setor de Ciências Jurídicas e a Reitoria da Universidade Federal do Paraná informam que o evento previsto para ocorrer no Salão Nobre, nesta data, foi cancelado pela docente organizadora minutos antes de sua realização.
Contudo, conforme vídeos, um grupo com os palestrantes forçou a entrada, empurrando o Vice-diretor do Setor, o que desencadeou uma série de reações que culminaram em uma resposta desproporcional das forças de segurança pública em relação à comunidade que se manifestava.
O evento foi organizado por uma professora do curso de Direito que tem autonomia para a promoção da atividade.
Diante da repercussão nas redes sociais semanas antes do evento, a Direção do Setor de Ciências Jurídicas da UFPR alertou a professora responsável quanto aos riscos à integridade física da comunidade acadêmica e participantes.
A autorização para uso dos espaços da universidade, quando atendidos os requisitos formais, é concedida de forma isonômica aos solicitantes.
A UFPR, enquanto instituição pública e plural, tem compromisso com a defesa do Estado Democrático de Direito, liberdade de expressão e condena toda forma de violência.
Assinam:
Direção do Setor de Ciências Jurídicas da Universidade Federal do Paraná
Reitoria da Universidade Federal do Paraná