Só seis deputados federais do Paraná votaram contra o projeto de lei da dosimetria, aprovado na madrugada desta quarta-feira (10) na Câmara para beneficiar o ex-presidente e condenado Jair Bolsonaro (PL). Dos seis, dois estavam na sessão no momento em que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), mandou a transmissão ser interrompida e deu ordens para a polícia legislativa retirar à força da Mesa Diretora o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ).
A ordem de Motta desencadeou uma série de agressões a parlamentares e a profissionais da imprensa que acompanhavam a sessão. Além do próprio Glauber, relataram agressões as deputadas Sâmia Bomfim (PSOL-SP) e Célia Xakriabá (PSOL-MG) e os deputados Alencar Santana (PT-SP) e Rogério Correia (PT-MG). Após a ação truculenta, 23 deputados eleitos pelos paranaenses votaram para reduzir a pena de criminosos condenados por tentativa de golpe de Estado.
Contrário ao PL da dosimetria, Elton Welter (PT) foi um dos deputados do Paraná que viu as cenas de violência. "Hugo Motta teve dois pesos e duas medidas. Quando os bolsonaristas ficaram 48 horas ocupando a Mesa, não foi tomada nenhuma medida", disse Welter. "Eles se acorrentaram na Mesa, fizeram um monte de sensacionalismo, mas o comportamento do presidente foi bem outro".
Em agosto, apoiadores de Bolsonaro ocuparam a Mesa por dois dias, impedindo os trabalhos do Legislativo, sem que Hugo Motta tomasse qualquer providência. Ele ainda aceitou se pronunciar cercado por bolsonaristas que o ameaçavam. A Câmara não tomou nenhuma medida.

"O Glauber Braga estava conduzindo a Mesa, ele não tinha tomado conta de nada. Ele optou por ficar por lá e passou a ser pressionado. A polícia legislativa foi acionada, nunca vi tanta polícia. A gente tentou segurar, mas não teve jeito", relatou Welter. "Nunca tem que ter violência. Política deve ser feita com negociação, não pode ser na base da truculência".
"É uma continuidade do golpe. É uma ação muito esquisita, pois pela primeira vez na história esse pessoal que defende golpe de Estado foi julgado. Bolsonaro é só uma extensão do golpismo."
Elton Welter, deputado federal
O deputado Tadeu Veneri (PT-PR) conta que a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), que compõe a Mesa, passou a palavra para Glauber Braga.
"Ele estava conduzindo e a votação ainda não havia sido aberta. Glauber falou que não sairia, que era para tirá-lo, porque de outra vez quem ocupou a Mesa não foi retirado. Embora tenha dito que não, o presidente (Hugo Motta) determinou que se cortasse o sinal da TV Câmara, depois determinou a retirada dos profissionais de imprensa e não deixou que nenhum deputado subisse até a Mesa. Na sequência, o que a gente viu foi aquela coisa horrorosa", disse Veneri.
"Hugo Motta fez tudo que não podia fazer como presidente. O mais grave foi ele fazer isso momento em que se suspeita que tenha havido um grande acordo entre a Mesa, o PL, o PP e o União Brasil para a retirada da candidatura do Flávio Bolsonaro à presidência".
Tadeu Veneri, deputado federal
Para Veneri, só será possível reverter a situação com mobilização popular. "A pena do Bolsonaro poderá ser reduzida para dois ou três anos. O Senado deve votar na semana que vem e certamente o Lula vai vetar. Estão dizendo que o Bolsonaro vai sair em um mês, é mentira. Vamos tentar derrubar isso nas ruas". O primeiro ato nacional contra o PL da dosimetria está marcado para domingo (14).
"O Paraná é uma tragédia, 23 deputados votaram exatamente como votaram na PEC da Blindagem e na PEC do Derrite. Até o Beto Richa, que vem de uma família com história de luta pela democracia. A maioria dos deputados do Paraná é conivente com a extrema direita."
Tadeu Veneri, deputado federal

Carol Dartora (PT) não estava na sessão e votou de forma remota, mas comentou o episódio em suas redes sociais. "É inadmissível que a imprensa não possa noticiar o que está acontecendo na Câmara dos Deputados. Para além do ataque à democracia e do estapafúrdio 'PL da dosimetria'", criticou a deputada. "Desde a redemocratização, está é a primeira vez que a imprensa é impedida de entrar no plenário da Câmara dos Deputados. O sinal da TV Câmara foi cortado. É uma vergonha e um ataque a todos nós, parlamentares e cidadãos".
Entre os outros parlamentares do Paraná que votaram contra o PL da dosimetria, Aliel Machado (PV) e Lenir de Assis (PT) votaram de forma remota; já Zeca Dirceu (PT) estava em deslocamento no momento da confusão e chegou depois à sessão.
O deputado Luiz Carlos Hauly (PSD), que votou favoravelmente ao PL, disse que os atos de censura e violência devem ser investigados. "O Parlamento é a casa da democracia e deve ser sempre um espaço de diálogo, transparência e respeito. Qualquer ato que viole esses princípios — seja censura à imprensa, agressão a parlamentares ou invasão da Mesa — é absolutamente inaceitável", disse. "Nada justifica violência ou cerceamento da liberdade de informação dentro do Congresso Nacional. A imprensa tem o dever de informar e o Parlamento tem o dever de garantir esse trabalho com segurança e liberdade".
ABI repudia censura e agressões
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) divulgou uma nota para repudiar a ação do presidente da Câmara, Hugo Motta. Segue a nota:
A Câmara dos Deputados viveu, nessa terça-feira (9), cenas nunca vistas, nem nos piores tempos da ditadura militar.
Por determinação do presidente Hugo Motta, a Polícia Legislativa retirou com violência da Mesa da Câmara, o deputado Glauber Braga, que protestava contra a cassação de seu mandato. Mais grave do que isso, desligou o sinal da TV Câmara e expulsou, também com violência, os jornalistas do plenário.
A Associação Brasileira de Imprensa, que nos seus 117 anos de existência sempre lutou em defesa da democracia, da liberdade de imprensa e dos direitos humanos, repudia com veemência o cerceamento ao trabalho da imprensa, num atentado à liberdade de imprensa e ao direito de informação da população brasileira, bem como as agressões físicas a profissionais da imprensa e a parlamentares.
Mais do que isso, exige explicações do presidente da Câmara, Hugo Motta, e a sua responsabilização direta pelas agressões aos jornalistas, parlamentares e servidores, pelo desligamento do sinal da TV Câmara e pelo cerceamento do trabalho desses profissionais.
Com essas atitudes violentas e autoritárias, Hugo Motta perde todas as condições políticas de continuar presidindo a Câmara dos Deputados.
Esse foi o mais grave atentado à liberdade de imprensa, exatamente na Casa que deveria ser a defensora da democracia.
A ABI também se solidariza com os profissionais agredidos, bem como com os parlamentares, especialmente o deputado Glauber Braga, e servidores.
Rio de Janeiro, 09 de dezembro de 2025
Associação Brasileira de Imprensa