Foram 139 inscritos e 58 finalistas no Prêmio Mosca 2025, concedido pelo Livre.jor, uma organização pró-jornalismo investigativo. Vários dos trabalhos mais relevantes do jornalismo brasileiro no último ano fazem parte dessa lista. E o Plural está entre os finalistas, concorrendo com veículos grandes como BBC, Estadão, Folha, G1, piauí e UOL. Essa é uma ótima notícia.
A reportagem finalista é de José Marcos Lopes e fala sobre o plano do Google para controlar a administração pública no Paraná a partir de uma parceria com o Celepar, publicada em 7 de agosto de 2025. Você pode conferir a lista de matérias finalistas aqui. Independente e financiado por seus leitores, o Plural é o único jornal do Paraná que está no páreo.
O Livre.jor divulga o vencedor do Prêmio Mosca no dia 10 de dezembro. De acordo com os organizadores, o prêmio leva esse nome por causa da jornalista Lillian Ross, da revista New Yorker, “que definiu seu trabalho de repórter como ‘a mosca na parede’, aquela que ninguém nota, mas que está lá, vendo tudo”.
Para ilustrar o tipo de jornalismo feito pelo Plural, nos parágrafos a seguir, José Marcos Lopes conta como foi o processo de apuração, fala sobre o que está em jogo nesse contrato do governo do Paraná com o Google e sobre as repercussões de seu texto.
Sobre os bastidores
A apuração durou cerca de três meses, a partir de documentos disponíveis no portal da transparência do governo do Paraná, informações e materiais repassados por fontes da Celepar e do governo. O Plural está acompanhando o processo de privatização da Celepar desde o ano passado, por isso mantemos contato com funcionários da empresa e servidores que são contrários à venda da estatal.
A grande dificuldade em relação a esse contrato foi amarrar as pontas soltas, pois não havia nada muito claro. Nesse sentido, foi essencial submeter todos os documentos e informações às fontes e tentar mostrar como isso começou.
Desde o fim de 2024, a agência de notícias do governo do Paraná passou a publicar matérias sobre parcerias sem custos com o Google para o uso de inteligência artificial, principalmente na área da educação. O governador Ratinho Jr. esteve reunido pelo menos duas vezes com o presidente do Google Cloud para a América Latina, Eduardo López.
A matéria trata de um contrato firmado em junho deste ano, quando a Celepar se tornou uma revendedora de produtos do Google. A parceria só foi possível porque o Conselho Estadual de Tecnologia da Informação (Cetic-PR) determinou que o Google Workspace fosse incluído no rol de produtos da Celepar. Depois disso, houve uma revisão do Plano Diretor de Tecnologia da Informação e Comunicação da Secretaria de Administração para adoção do sistema – ou seja, houve um movimento do governo neste sentido.
O contrato prevê que a Celepar inclua em seu pacote de produtos o Google Worskspace, que inclui uma série de soluções de escritório (e-mail, agenda, videoconferência, chat etc.). A estatal paranaense fica sujeita às alterações de preços definidas pelo Google. Essa parceria não foi divulgada pelo governo e os termos aditivos ao contrato foram colocados em sigilo.
Sobre o que está em jogo
O contrato não tem um custo definido e, segundo o governo, nada foi pago ao Google. O valor de R$ 670 milhões foi citado por um diretor da Celepar como investimento a ser feito em três anos, em uma apresentação na plataforma Prezi (a apresentação era pública, mas foi colocada em sigilo). Depois disso, ele foi nomeado como um dos fiscais do contrato.
A grande questão é que, depois disso, a Sanepar contratou a Celepar por R$ 20 milhões para usar o Google Workspace. No dia 3 de novembro, noticiamos que a Secretaria de Administração e Previdência contratou a Celepar por R$ 145 milhões para fornecer o Workspace para 26 órgãos e secretarias, com previsão de ativação de 99 mil contas. Os sistemas da Microsoft serão substituídos.
Como a intenção de Ratinho Jr. é vender a Celepar, o futuro comprador vai herdar os contratos – feitos sem licitação, apesar de a companhia ainda ser pública. Isso não envolve apenas o Google Workspace, mas todos os serviços prestados atualmente pela Celepar.
Julgo que o grande ponto a ser debatido é o risco de dependência tecnológica, pois todos os sistemas serão fornecidos pelo Google. Não só para órgãos do governo, mas também para prefeituras, pois pelo menos 60 prefeituras do Paraná têm contratos com a Celepar. É um grande negócio para o Google, que se torna fornecedor do poder público sem passar por licitação.
Sobre a repercussão da matéria
O Ministério Público do Paraná abriu uma investigação preliminar sobre o contrato. PT e PSOL denunciaram o contrato ao Tribunal de Contas do Estado, pedindo o cancelamento e a responsabilização dos envolvidos.
Um dos pontos citados na denúncia ao TCE é o Cloud Act. A lei permite que autoridades norte-americanas acessem dados armazenados por empresas do país em qualquer lugar do mundo. Isso abre a possibilidade para, por exemplo, autoridades dos Estados Unidos acessarem os e-mails enviados ou recebidos por servidores e autoridades do Paraná.
Você pode ler a íntegra da reportagem de José Marcos Lopes, finalista do Prêmio Livre.jor de Jornalismo-Mosca 2025, aqui:

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