Reconhecida como referência no futebol amador brasileiro, a Suburbana curitibana vai além do esporte: é memória, identidade e tradição. Símbolo de resistência cultural, mantém-se como berço de histórias, causos e personagens, aproximando diferentes regiões da cidade por meio de um futebol solidário, popular e profundamente enraizado nas comunidades desde 1941.
Dentro das quatro linhas, o segundo duelo da final entre Iguaçu e Capão Raso, marcado para este sábado (9), às 16h, definirá o campeão da primeira divisão da Suburbana de Curitiba em 2025. No confronto de ida, no último sábado (2), o Iguaçu venceu por 1 a 0 fora de casa e largou na frente.
Fora dos gramados, nas arquibancadas e nos bastidores, as organizadas Esquadrão de Aço (Capão Raso) e Falange Alvinegra (Iguaçu) se desdobram para apoiar, cobrar e preservar a essência do futebol raiz. Tudo é movido pelo amor ao clube, sem qualquer pretensão financeira.
Em ambas as partes, o cotidiano é similar em diversos aspectos: diante das burocracias, a união chega a um consenso; nas alegrias, a festa toma conta do bairro; nas durezas, curam-se as feridas e repensa-se o ano seguinte.
A curta temporada da elite da Suburbana, que dura de três a quatro meses, coloca à prova a insistência em preservar o coletivo. E, para vencer esses obstáculos, são postas em prática as mais variadas ações sociais que preenchem o calendário dos grupos envolvidos na linha de frente, de maneira ativa e, sobretudo, voluntária.
Entre as iniciativas estão as festas e churrascos beneficentes; entrega de alimentos para pessoas em situação de rua; e oferta de ensino esportivo e cultural para crianças e adolescentes. Essas movimentações são comuns na Esquadrão e na Falange.

Devido a essas relações mais humanas, a sensação de pertencimento é unanimidade entre torcedores, atletas e trabalhadores que frequentam o futebol amador. A comparação com o modalidade profissionalizada é inevitável — o futebol profissional, muitas vezes, passa uma sensação mais fria e distanciada, como se os torcedores fossem apenas números nas arquibancadas.
Posicionados na beira do gramado do Estádio José Drulla Sobrinho — casa do União Capão Raso Futebol Clube —, o branco, verde e vermelho decoram o galpão que abriga a sede do Esquadrão de Aço.
Na noite de terça-feira, 5 de julho, perto das 19h, o Esquadrão reuniu parte da equipe para planejar a logística do fim de semana: transporte, faixas, quantidade de pessoas e horários. A semana estava tensa e cheia de encontros. Nas conversas iniciais, alguém confirmou a reserva de um ônibus; a vaquinha interna vai custear a ida para a grande final.
Fundada em meados de 2007, a Esquadrão está prestes a ver o primeiro título do Capão Raso desde 2005. Para que esse sonho se torne realidade, o tricolor precisa reverter o resultado: um gol leva a disputa para os pênaltis; dois garantem a taça no tempo normal, na casa do adversário. Há esperança.
Apesar do tradicionalismo e da longa história no futebol curitibano, o Capão Raso, que nasceu em 1952, viveu tempos difíceis entre o último título (2005) e a temporada de 2020. O período conturbado foi marcado por péssimos resultados, queda nas receitas e complicações na gestão administrativa. Zoio, torcedor ilustre e fundador da organizada, lembra-se das várias vezes em que o clube esteve à beira da falência.
A resistência do Capão Raso, segundo os organizados, está no empenho coletivo de torcedores, comunidade e investidores locais. O cenário começou a mudar nos últimos três anos e se concretizou na temporada atual, colocando o clube na final do campeonato.
Apesar de a estrutura do Esquadrão datar de 2007, a união vem de muito antes. Revisitando as memórias, Zoio reconstrói as imagens do futebol de antigamente e as compara com os tempos atuais. Para ele, os vínculos com o Capão Raso foram transmitidos entre os que cresceram no entorno do estádio e os familiares que herdaram os laços do “tricolor de aço” — nesse momento, aponta para membros atuantes, que são filhos, sobrinhos e netos de ex-atletas do Capão Raso.
“Os tios deles foram campeões em 1981. Eu tive a felicidade de estar lá naquela noite de quarta-feira. Eu estava com 11 anos. Jogavam muito! Eram os caras! Mas a nova geração não conhece tanto a história do Tizziu (herói da conquista). Eles sabem o que a gente conta do que aconteceu na década de 1980 e 1990. Tudo isso é história nossa”, disse Zoio.
Orgulhosos do novo bandeirão de 27 metros e dos equipamentos da organizada, parte dos membros comenta como todos se juntam para colaborar com a Esquadrão de maneira coletiva. Cada um dá um pouco: para reparar alguma coisa, para colaborar nas festas dos jogos em casa ou nas viagens a outros estádios. Tudo é feito de forma independente.
De olho no desfecho do campeonato, é quase impossível segurar a ansiedade pelo sábado que se aproxima. Desde que o sonho da final virou realidade, poucos conseguem dormir tranquilos. Vinte anos é muito tempo. Se os santos do futebol soprarem a favor do tricolor, o bairro todo promete decretar feriado prolongado, como se fosse carnaval. Faltam apenas alguns detalhes: estima-se que os “tricolores de aço” irão, no sábado, em três ônibus até o estádio do oponente.
A 15 quilômetros dali, no sentido noroeste da capital, em Santa Felicidade, a Falange Alvinegra corre para ajustar os preparativos para o grande dia. O corre-corre envolve venda e distribuição de ingressos, arrumação da bateria, bandeiras e sinalizadores.
Em um pub decorado com as cores do Iguaçu — preto e branco —, as cabeças pensantes da organizada não param de olhar os grupos de WhatsApp, onde trocam mensagens importantes sobre o sábado que se aproxima. É muito trabalho, pago com amor e carinho, mas “às vezes cansa”, como dizem.
Com outros entusiastas, as primeiras movimentações da Falange ocorreram em 1989, mas o projeto não vingou. Em 2021, mais de 30 anos depois, Amanda, Diego, Sandro e outros torcedores decidiram reviver a iniciativa. Nesta nova fase, a finalíssima desta temporada é a primeira acompanhada pelo grupo.
Tida como uma das torcidas mais jovens do campeonato, a Falange carrega uma árdua responsabilidade: representar o clube mais antigo de Curitiba, fundado em 1919. Essa dualidade complexa reflete na dinâmica do coletivo, que enfrenta dificuldades de diálogo e aceitação em certos espaços. Apesar disso, nada diminui o apreço por tudo o que o Iguaçu representa em termos de futebol, legado, família e comunidade.
Nascidos e criados no entorno do Egídio Ricardo Pietrobelli, estádio do Iguaçu, Alex e Diego aprenderam a jogar futebol nas canchas do clube nos anos 1990 e ali desenvolveram laços de amizade que respiravam o esporte mais popular do mundo. Além disso, as idas ao estádio com os pais eram frequentes. Não deu outra: nunca mais saíram dali.
De volta a 2021, quando a ideia da Falange saiu do papel, tudo começou com a intenção de reunir amigos para acompanhar os ritos ligados ao futebol: churrasco, arquibancada, encontros. No primeiro jogo, cerca de 30 pessoas usavam a camisa personalizada; na segunda rodada, 60; nos jogos seguintes, 200. Com essa adesão espontânea e crescente, veio a motivação para estruturar a organizada como é hoje.
Gerenciar uma massa dessas requer diálogo constante com todas as partes envolvidas — com a própria torcida, nos avisos de como será a festa; com os adversários, para combinar trâmites de chegada, espaços e capacidade; com a diretoria, para ajustar detalhes; e com a vizinhança, sobre o impacto do evento no bairro.
Questões de segurança são as mais simples de resolver, já que há consenso sobre a manutenção do ambiente familiar para todos: “Te tratamos bem na nossa casa e vocês nos tratam igual na sua.” E funciona.
Tentando controlar a ansiedade pelo encerramento da Suburbana, os membros da Falange não escondem o nervosismo pelo que pode acontecer. A vantagem de um gol existe, mas, em outros tempos, coisas inacreditáveis já aconteceram nos gramados do templo sagrado. Depois de tantas desilusões, os amigos preferem esperar o apito final.
Se os santos do futebol soprarem a favor do alvinegro, o bairro todo promete decretar feriado prolongado, como se fosse carnaval.
O futebol para o povo
Segundo Rafael Buiar, fundador do portal Do Rico ao Pobre — veículo independente que cobre o segmento desde 2012 —, o futebol amador de Curitiba, hoje concentrado nas regiões periféricas, já teve seu coração no centro da cidade. No início do século passado, campos e estádios se espalharam por bairros como Vila Guaíra e Água Verde, próximos a marcos como a Praça Oswaldo Cruz e a Praça 29 de Março. Mantidas em grande parte pela prefeitura, essas estruturas eram a base de clubes tradicionais, muitos formados por operários.
“Times como o Pilarzinho, cujo nome remete à origem operária, ou o Capão Raso, então mais afastado, tiveram forte presença quando Curitiba ainda era menos populosa. Mas, com o avanço da urbanização, a prefeitura retomou terrenos, e a manutenção dos estádios passou a gerar custos que antes não existiam. O resultado foi o desaparecimento de equipes históricas, como o Poti, e a migração de outros clubes para bairros mais distantes — movimento que nem sempre se sustentou”, afirma Buiar.
Com o tempo, a modalidade passou por certa profissionalização, com maior organização por parte da federação. Ainda assim, o cenário atual é formado, majoritariamente, por clubes das zonas sul e oeste, como Vila Sandra e Fortaleza. Há também equipes itinerantes, como o São Braz — que aluga campos a cada temporada — e o Santos (Santos-Prestes), com forte presença em bairros afastados.
Assim, o deslocamento desses clubes foi acompanhando o crescimento de Curitiba: à medida que a cidade se expandiu, o esporte foi empurrado para as bordas, preservando, nas comunidades periféricas, a essência do futebol popular.
Este texto faz parte do projeto Periferias Plurais, em que jovens de Curitiba e região são convidados a falar de suas vidas e suas comunidades. O projeto tem apoio do escritório de advocacia Gasam e da Itaipu Binacional.