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O que alguns vereadores curitibanos nos ensinam sobre a extrema-direita?

O fortalecimento da agenda política da extrema-direita e de seu projeto de poder passa necessariamente pelas cidades

O que alguns vereadores curitibanos nos ensinam sobre a extrema-direita?
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No dia 12 de fevereiro, o vereador Guilherme Kilter (Novo), subiu à tribuna da Câmara de Vereadores de Curitiba para propor que a casa assinasse uma moção de repúdio ao show da cantora Anitta. A moção não teria, e nem poderia ter, autoridade para cancelar o evento, mas nem era essa a intenção: o que ele queria mesmo era ganhar manchete na Gazeta do Povo e ostentar a tentativa de repúdio – fracassada, aliás – em suas redes sociais.

Até agora, passados mais de um mês da posse dos legisladores municipais, o vereador do Novo – partido que é uma contradição desde o nome – foi notícia principalmente por repudiar o show de Anitta e pretender, “inspirado” em Trump, proibir faixas LGBTs em prédios públicos de Curitiba, fato que também virou notícia na Gazeta do Povo, que parece ter um apreço todo especial pelo rapaz.

Há um padrão aqui: manchetes na Gazeta e o pavor de corpos sexualizados, sejam eles cis, como o de Anitta, ou trans. Em outros tempos, Kilter, o Casto, resolveria seus desejos reprimidos com um terapeuta. Em tempos em que o fascismo e o fundamentalismo religioso caminham de mãos dadas com os algoritmos das big techs, ele se elege vereador e seus pares o conduzem à presidência da Comissão de Educação.

Também em seu primeiro mandato, João Bettega (União Brasil) apresentou, há duas semanas, um projeto de lei que cria um sem número de dificuldades burocráticas para a distribuição de marmitas a pessoas carentes ou em situação de rua em Curitiba. Bettega, que desconhece até o conceito de fome, quer impedir – porque na prática é disso que se trata – que quem a sente no corpo todos os dias, possa alimentar-se com o mínimo de dignidade.

Como no caso de seu colega, há também um padrão: Bettega foi um dos milicianos de um grupo do MBL que, em setembro de 2023, invadiu um dos prédios do Complexo da Reitoria da UFPR e agrediu com um soco no estômago uma funcionária terceirizada, responsável pela faxina do local. Em janeiro desse ano, nova invasão, dessa vez um hospital público, no Cajuru, onde constrangeu médicos e pacientes.

Já perceberam qual o padrão? Ódio e desprezo aos pobres. Não por acaso, o herdeiro de uma das famílias da elite, o Justo Veríssimo curitibano mira grupos e indivíduos social e economicamente vulneráveis: gente que passa fome ou não tem um teto, mas também trabalhadoras terceirizadas e, no caso da invasão ao Cajuru, um hospital público conhecido por atender, principalmente, a população de baixa renda.

O desprezo por quem tem fome não é exclusivo de herdeiro mimado e privilegiado. Outro vereador de extrema-direita, Eder Borges (PL), pretende proibir que a Prefeitura de Curitiba repasse recursos ao MST, o movimento que, em plena pandemia, foi responsável por um dos mais interessantes e solidários projetos de distribuição de alimentos à população carente, o Marmitas da Terra que, felizmente, sobreviveu à pandemia e continua funcionando até hoje.

Não chega a ser surpreendente, vindo de um vereador que admira um ex-presidente, hoje inelegível, que fazia chacota das vítimas fatais da covid e de seus familiares, e em cujo governo famílias inteiras se alimentavam de restos recolhidos em caminhões de lixo. Mas para Eder Borges um movimento que quer saciar a fome de quem tem é “terrorista”, um golpista que mantém ligações com o crime organizado no Rio, é um “mito”.

Projeto global, ações locais

Na semana passada, Eder Borges protagonizou uma cena grotesca: enquanto outra vereadora, a Professora Angela (PSOL) discursava, ele a interrompia com gargalhadas, trejeitos e tapas na mesa. Não tenho dúvidas que se fosse um vereador, mesmo de esquerda, o tratamento seria diferente: se há outro padrão entre essa gente, é a broderagem; eles falam grosso com mulheres, mas afinam com os homens.

A cena é lamentável porque, entre outras coisas, deixa claro o nível, baixíssimo, de parte da Câmara de Vereadores que tomou posse em janeiro. Mas o que a torna ainda pior é saber que há pessoas, e não poucas, que olham aquele homem adulto, muito bem pago para ocupar um cargo público de fundamental importância em uma cidade, se comportando de forma desrespeitosa e patética com uma de suas colegas, vereadora como ele, e pensam, orgulhosos de seu voto: “esse cara me representa”. 

O voto em um vereador é motivado por muitas e distintas razões, inclusive redes afetivas e de vizinhança, comuns em eleições municipais. Mas não há como negar que parcela dos votos que elegeram Kilter e Bettega, e reelegeram Borges – para não me alongar ainda mais com outros exemplos de igual estatura – foram dados a eles por algum tipo de convicção, identificação ou alinhamento ideológico.

Quer dizer, parte do eleitorado dos edis se vê representado e se identifica com a pauta moralista e transfóbica de Guilherme Kilter, com o ódio e o desprezo pelos pobres de João Bettega e o histrionismo truculento e autoritário de Eder Borges. E, como eles, está pouco se lixando com os problemas da cidade e de parcela de seus moradores, tratados simplesmente como subcidadãos. Percebem o tamanho do buraco em que nos meteram? Há muitas conclusões a tirar daí, mas quero falar especificamente de duas.

Muito já se falou sobre a habilidade da extrema-direita em manipular o que se convencionou chamar de “pânico moral”. O roteiro é conhecido: primeiro se espalha o medo e, na sequência, esse medo é transformado em combustível a alimentar uma política de ódio contra aquelas e aqueles representados como uma ameaça a alguma coisa que a extrema-direita diz querer preservar.

E não importa se a ameaça é pura invenção, assim como é mentira que a tradição, a família, a propriedade ou algum templo cristão estejam sob o risco eminente do ataque desses inimigos. O objetivo não é dizer a verdade ou defender o que quer que seja, mas produzir inimigos a serem temidos, odiados e eliminados – simbólica e, se possível, fisicamente. É um projeto político e de poder construído e sustentado às custas do sofrimento, físico e psíquico.

E embora se trate de um projeto ambicioso e global, parte de sua eficácia está em sua capilaridade. Daí a importância de uma atuação nas cidades, elegendo prefeitos e vereadores alinhados a ele, onde muitas das decisões repercutem, mais rápida e diretamente, em nosso cotidiano, mobilizam mais facilmente afetos e produzem identificação e engajamento. O fortalecimento de uma agenda política, seu espraiamento e a mobilização para fortalecê-la passa, portanto, e necessariamente, pelas cidades.

E se isso é verdade para as bandeiras e temas progressistas e democráticos, como bem notou a Professora Angela em seu primeiro discurso como vereadora, também o é para a agenda autoritária da extrema-direita. Afinal, é mais fácil espalhar o pânico, produzir e nomear inimigos e normalizar o ódio quando o objeto do meu afeto está perto e visível.

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