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Invasão à Venezuela inicia uma nova fase do imperialismo norte-americano

A “Doutrina Donroe” não apenas atualiza e recrudesce as políticas expansionistas estadunidenses; ela faz do imperialismo etapa superior do neoliberalismo.

Invasão à Venezuela inicia uma nova fase do imperialismo norte-americano
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 As sete ondas mal voltaram para o mar, e o ano novo estreou com tropas militares americanas invadindo a capital venezuelana, Caracas, e sequestrando Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Conduzido a Nova Iorque, ele será julgado por crimes que seus sequestradores alegam que ele cometeu e cujas provas, provavelmente, já foram devidamente fabricadas – e seria um belo plot twist se elas fossem apresentadas em um Power Point.

Não pretendo, nesse texto, comentar ou responder quem comemora a ação ilegal de um governo fascista acreditando, ou fingindo acreditar, que o que está em jogo é a tentativa de restituir “liberdade” à Venezuela, seja lá o que eles entendam por isso.

E não apenas porque estou convencido que pessoas têm, sim, o direito de serem idiotas – ou investigadas quando sugerem que uma potência estrangeira intervenha militarmente no Brasil e prenda o presidente Lula, como fizeram o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o advogado curitibano Jeffrey Chiquini.

Mas também, e principalmente, porque a melhor resposta aos idiotas e aos golpistas foi o próprio Donald Trump quem deu, na coletiva de ontem (2) à tarde. Ali, ele falou muito de negócios, de petróleo principalmente, e nada, quase nada, sobre “democracia”. Mesmo o alegado envolvimento de Maduro com o narcotráfico internacional passou para segundo plano.

A sinceridade do discurso de Trump é uma primeira inflexão na versão atualizada do imperialismo americano. Diferente de George W. Busch, por exemplo, que precisou mentir para o mundo em 2003 antes de invadir o Iraque, também atrás de petróleo, Trump não alardeia inverdades para justificar suas ações. Como o diabo, se ele quer, ele toma. Simples assim.

Uma segunda inflexão é a tentativa de despir a interpretação trumpista da Doutrina Monroe de qualquer outro propósito ideológico, que não aqueles que atendem as demandas do mercado. Explico.

No começo do século XIX, quando foi criada, o objetivo declarado da Doutrina Monroe era resguardar as Américas do risco de novas intervenções dos países europeus, colocando-as sob a influência dos Estados Unidos, já à época a principal potência econômica e militar entre os países americanos, a maioria deles ainda em processo de consolidação como nações independentes.

Como na prática a teoria é outra, ela serviu de base para a expansão imperialista norte americana sobre o continente. Mas se, por um lado, os interesses estadunidenses sempre foram prioridade, por outro eles eram sustentados sob um verniz ideológico que cumpria uma função política fundamental, qual seja, o da unidade continental contra quaisquer intervenções estrangeiras.

Esse discurso se manteve mesmo quando, no começo do século XX, Theodore Roosevelt estendeu o alcance e a força da doutrina, autorizando a intervenção direta dos Estados Unidos em países considerados “irresponsáveis”. O pretexto do que ficou conhecido como “Corolário Roosevelt”, era impedir que governos “fracos” e “irresponsáveis” comprometessem a soberania e a unidade continental.,

A “Doutrina Donroe”

A versão de Donald Trump, dispensa qualquer veleidade ideológica sobre unidade ou proteção, resumida pelo próprio presidente na coletiva de ontem. Para Trump, “o futuro será determinado pela capacidade de proteger o comércio, o território e os recursos que são centrais para nossa segurança nacional. Estas são as leis de ferro que sempre ditaram o poder global”.

O único interesse em jogo, a única “ideologia” que realmente importa, é a da aliança entre o Estado e o governo norte americano e as grandes corporações – armamentistas, petrolíferas e as big techs, principalmente. A “Doutrina Donroe”, como está sendo chamada, não apenas atualiza e recrudesce as políticas expansionistas estadunidenses; ela faz do imperialismo etapa superior do neoliberalismo.

Em suas redes sociais, o filósofo brasileiro Vladimir Safatle afirmou que a “invasão da Venezuela sem nenhuma reação internacional é o fim completo da ordem internacional como criada após a Segunda Guerra. Esse é outro mundo completamente distinto do que conhecemos. O imperialismo mais descarado com dominação militar aberta. Esse é um mundo de guerra”.

A manifestação de Safatle toca em pelo menos dois pontos cruciais, com os quais gostaria de encerrar esse texto. Se a invasão à Venezuela e o sequestro de Maduro são “o fim completo da ordem internacional”, ela só foi possível, em larga medida, porque precedida pelo afrouxamento dos órgãos e da legislação internacionais, ao menos em tese, responsáveis por assegurar a prevalência do direito sobre a força.

Não menos importante, o silêncio conivente das democracias liberais quando Israel promoveu o genocídio em Gaza, com o apoio amplo, geral e irrestrito dos EUA, deixou claro que, desde que seus próprios interesses não sejam afetados, e que o dinheiro continue jorrando, elas não se importam.

O segundo ponto: o que aconteceu ontem não abriu um precedente, porque o precedente já estava aberto desde que as potências europeias invadiram países periféricos para saquear, matar e transformar em mercadoria populações inteiras, no século XIX. E continuou aberto em todas as ocasiões que os EUA invadiram, saquearam ou simplesmente apoiaram golpes de Estado, enfraquecendo, sabotando e impondo cercos econômicos a países latino-americanos, na última centúria.

A invasão à Venezuela é mais um capítulo dessa história e um aviso de que a América Latina interessa aos Estados Unidos, que dispõe de recursos, econômicos e militares, para intervir onde e quando achar que deve. Se a intervenção será ou não militar, não faz diferença, e é bastante provável que em países como o Brasil, seja mais produtivo intervir nas eleições desse ano do que dispender recursos para uma ação militar direta.

E nisso, também, Trump foi de uma sinceridade a toda prova: a América para os americanos, ele prometeu. Tolos fomos nós, que não percebemos que, se os americanos são eles, a América somos nós.

Nos últimos anos, especialmente desde a primeira eleição de Trump, muito se falou do ocaso do império estadunidense, e não foram poucos os que vislumbraram o seu fim. Mas diferente do que alardeavam analistas de esquerda, o imperialismo norte americano não está em crise, tampouco assistimos seu declínio. Ele está se reinventando, vivo e forte. E nós, latino-americanos, estamos sozinhos. Sozinhos e ferrados.

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