Pular para o conteúdo

O Congresso é inimigo do povo. A Câmara de Vereadores de Curitiba, também

Não é coincidência que o modus operandi da extrema-direita em Brasília seja mimetizado pela extrema-direita curitibana. É um projeto 

O Congresso é inimigo do povo. A Câmara de Vereadores de Curitiba, também
Foto: Tami Taketani/Plural
Publicado:

Fui conferir o que vereadores curitibanos de extrema-direita disseram sobre as manifestações de domingo, quando milhares de mulheres foram às ruas em manifestações contra o feminicídio. Silêncio quase absoluto sobre o tema, considerado, provavelmente, uma pauta de esquerda – para conservadores e reacionários, afinal, a vida de mulheres não vale absolutamente nada fora dos limites da cozinha.

Disse “silêncio quase absoluto” porque o vereador João Bettega (União Brasil) publicou há alguns dias, em suas redes, um vídeo sobre o assassinato de Catarina Kasten, em Florianópolis. Não para manifestar algum tipo de pesar ou solidariedade, mas para acusá-la de ter “feito o L” nas últimas eleições, e mentir que a esquerda protege e defende criminosos como o assassino de Catarina, alegando que eles são “vítimas da sociedade”.

Trocando em miúdos, seu discurso responsabilizou a vítima, uma mulher de esquerda, pelo seu estupro e morte, já que ela “fez o L” e publicava, nas redes sociais, críticas à truculência da extrema-direita e à violência policial. Pode parecer empatia, mas é só um ataque à memória de uma mulher barbaramente assassinada para fins ideológicos.

Como se vê, o ódio de Bettega não se limita às trabalhadoras terceirizadas da UFPR.

A atitude silente dos parlamentares não significa, por outro lado, inatividade. Afinal, ainda que indiferentes à violência e ao assassinato de mulheres, cada um deles se autoproclama defensor da “família curitibana”. O mesmo Bettega, após um ano intenso de trabalho, conseguiu aprovar o “primeiro projeto conservador” na CMC, proibindo apresentações de quem ele chama de o “Careca de calcinha” nas ruas de Curitiba.

Seu colega Guilherme Kilter (Novo) ganhou likes importunando e expondo uma pessoa em situação de rua em um vídeo publicado em suas redes. E festejou a cena de alunos adolescentes entoando uma música do BOPE em uma escola estadual porque, além de incomodar a APP, possivelmente ele gozou com a imagem, sugerida pela canção, dos corpos negros deixados mortos no chão da favela.

O nome disso é projeção. Em outros tempos, Kilter resolveria seus problemas no divã. Nos dias de hoje, ocupa cadeira na Câmara de Vereadores.

Outro edil, Rodrigo Maciel (Novo) foi à Brasília para entregar ao Senado o “dossiê Moraes” e pedir o impeachment de ministro do STF. Como se trata de um tema importantíssimo para a cidade de Curitiba, Maciel justificou suas faltas alegando que estava em “atividades inerentes ao mandato”. E isso no dia que a CMC votou a urgência do projeto de reajuste do IPTU que, aliás, passou – a urgência e, dias depois, o aumento.

Felizmente temos Eder Borges. O vereador, que no passado passou pano para político que “rouba pra comprar apartamento em Camboriú  e carro importado” e recentemente foi mimado pelos seus pares de direita na Comissão de Ética, que arquivaram sem ao menos investigar acusações de nepotismo que pesavam contra ele, apresentou uma boa emenda a um projeto da prefeitura que regulamentava as contratações temporárias.

Mas na hora da discussão, Borges votou contra sua própria emenda, alegando que se o texto foi elogiado pela esquerda, ele deveria estar equivocado. O mais provável, no entanto, é que a emenda contrariava as ordens do Poder Executivo, que tem interesse na redução do tempo de contratação de trabalhadores temporários, porque mão de obra precarizada custa menos aos cofres públicos.

Alguns vereadores riram, mas a situação é lamentável e não tem a menor graça.

Escalada autoritária

O senador Davi Alcolumbre (União Brasil/AP), presidente do Senado, ameaçou colocar a polícia legislativa atrás de quem impulsionou a hashtag #congressoinimigodopovo. A mesma polícia que, obedecendo ordens do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos/PB), agrediu jornalistas e o deputado federal Glauber Braga (PSOL/RJ) na sessão em que, na calada da noite, tal como criminosos, parlamentares votaram para reduzir a pena do líder da quadrilha, preso por tentativa de golpe e outros crimes.

Há algum tempo, cientistas políticos e historiadores, principalmente, vêm insistindo que estamos testemunhando a execução de um empreendimento amplo e transnacional: o que está em curso é a retomada, como tragédia e não como farsa, de um projeto político violento e autoritário, não apenas um simulacro, mas fascista na acepção do termo.

E nem a derrota eleitoral em 2022, tampouco a condenação e prisão do miliciano genocida Jair Bolsonaro, conseguiram freá-lo.

Estamos diante de uma escalada autoritária ancorada no pacto selado entre autoridades políticas, o fundamentalismo religioso, as elites econômicas e o crime organizado, de um lado, sustentado e amplificado pelas mentiras, os discursos de ódio e o pânico moral propagados principalmente nas redes sociais, de outro. Mas que encontra respaldo nas mídias tradicionais, dispostas a qualquer coisa em troca de algum engajamento.

E o que a Câmara de Vereadores de Curitiba tem a ver com isso?  Em outra coluna afirmei que parte importante desse projeto são suas ramificações locais. Não é coincidência que o modus operandi da extrema-direita em Brasília seja mimetizado pela extrema-direita curitibana. A truculência verbal contra vereadoras, continuadamente submetidas a constrangimentos em falas grosseiras dirigidas a elas por seus colegas, é um exemplo. A conivência silenciosa da presidência, que na prática autoriza a violência, outro.

Em um vídeo nas suas redes sociais, o vereador Major Olímpio (PL) explica porque a defesa de Bolsonaro não é a defesa do bolsonarismo, nem mesmo de Bolsonaro (sim, clareza e coerência de pensamento não são o forte), mas combater “uma grande espiral de silêncio” criada contra a direita brasileira. E acrescenta: “você será vítima das mesmas perseguições que Bolsonaro” e seus cúmplices sofreram e ainda sofrem. Uma mentira que ele conta sem corar as bochechas, mesmo sabendo que é mentira o que deveras mente.

Bolsonaro, os militares e os golpistas do 8 de janeiro estão presos por crimes tipificados no Código Penal, e não por perseguição política. Como bom miliciano, Bolsonaro e alguns de seus colaboradores mais próximos, inclusive, chegaram a tramar o assassinato de três autoridades da República cujas vidas, assim como a das mulheres, não valem nada para o Major Olímpio e seus colegas de extrema-direita.

Além disso, ninguém sofrerá as “mesmas perseguições de Bolsonaro”, tampouco há uma “espiral de silêncio” contra a direita brasileira. Fosse verdade, ele e seus correlegionários não consumiriam recursos públicos atacando, em suas redes sociais, podcasts e nos freak shows que alguns chamam de debates, a democracia, o governo, os ministros do STF e qualquer um que se oponha a eles e seus interesses, em suas redes sociais. 

Mas o vitimismo também é uma artimanha antiga, aprendida dos antepassados.

Cartunista, Philipp Rupprecht ficou conhecido, na Alemanha dos anos de 1920, pelo teor antissemita de suas ilustrações. Não tardou para aderir ao Partido Nazista e tornar-se um de seus porta vozes. Em uma charge, ele denunciou a perseguição e o que seus partidários chamavam de censura imposta a Hitler. A imagem: o rosto do Führer e, em uma fita que sela sua boca, a inscrição “proibido falar”. Na legenda: “Só ele, entre dois bilhões de pessoas na Terra, não pode falar na Alemanha”.

Qualquer semelhança não é mera coincidência.

 

 

Mais em Clóvis Gruner

Ver todos

Mais de Clovis Gruner

Ver todos

De nossos parceiros